Janela Indiscreta

Este blogue foi recomendado pelo Pedro Rolo Duarte no seu programa Janela Indiscreta, da Antena 1, a 28-07-2010.
A história chegou ao fim, foram 42 episódios ao longo de meio ano. Mas ela está cá toda, é só consultar o arquivo do blogue, começando em Julho de 2010. Ou escolha o episódio que quiser, utilizando a caixa de pesquisa, aqui ao lado.
À laia de motivação, aqui fica a republicação do 1º Episódio.

14 de dezembro de 2010

Natal

Agora, que esta saga chegou ao fim, resta-me desejar-vos Boas Festas! E não sobrecarreguem o Pai Natal, que ele, quando entra em stress, adopta um comportamento, digamos, menos ortodoxo:

Para chegar à origem desta imagem, basta seguir o Cheiro

Sugestão de prenda ;-)



Não se esqueçam de entrar em 2011 com o pé direito!

A propósito, 2011 é o ano do 750º aniversário de D. Dinis...

5 de dezembro de 2010

42º e último Episódio

Não vimos mais nenhum dos nazis, que permaneceram nos seus quartos, pelos vistos, a fim de se suicidarem. Não estávamos com vontade de o confirmar. Éramos finalmente livres! Apressámo-nos a alcançar a garagem, onde se encontravam mais de vinte automóveis à nossa disposição.
            Combinámos irmos directos à polícia, esclarecer a nossa situação e acalmar todos aqueles que há quatro meses nos procuravam. Mas não revelaríamos toda a verdade. Não havia o mínimo vestígio do clone, podíamos por isso dizer que não tínhamos conseguido concluir o projecto com êxito. Revelássemos nós que havíamos clonado um ser humano a partir de vestígios encontrados num carvãozinho com mais de 150 anos, poríamos o mundo em convulsão e todos iriam exercer uma enorme pressão sobre nós, a fim de que repetíssemos a experiência. E não nos achávamos capazes de o fazer, pelo menos, por agora.
            Combinámos então dizer que os nazis tinham passado o tempo em discussões e disputas, eliminando-se mutuamente, enquanto nós fazíamos os possíveis por concluir o projecto. A polícia que fosse verificar se eles estavam realmente todos mortos.
            Ainda escolhíamos um carro, quando eu reparei que algo inquietava a Chanel e perguntei-lhe:
            “O que te preocupa?”
            Depois de uma curta hesitação, ela respondeu:
            “Será que a nossa relação também irá funcionar lá fora, no mundo verdadeiro?”
            “Porque não?”
            “Eu até nem sou supersticiosa. Mas às vezes pergunto-me se realmente poderá dar certo. Já pensaste em que circunstâncias nos conhecemos? Essa ideia não nos irá perseguir e apoquentar todo o tempo? Ou simplesmente trazer azar?”
            Reflecti um pouco e repliquei:
            “Tínhamo-nos conhecido de qualquer maneira, mesmo que não tivéssemos sido raptados.”
            “Achas?”
            “Claro. Não te tinhas demitido? E já não tinhas sido contactada pelo Fabrício? Ora, quando estes malucos me sequestraram, a vaga que o nosso colaborador deixara livre ainda não estava preenchida.”
            “Esqueces-te de que eu tencionava pôr fim à minha vida?”
            “Nunca o terias feito. Na altura, estavas ferida, desesperada, mas terias superado a crise. Tu não és do tipo que se suicida.”
            Ela respirou fundo.
            “Tens razão. Eu tinha dado a volta por cima, nem que fosse só por causa do meu trabalho. Como tu agora sabes, tenho inúmeros projectos na cabeça.”
            “É quase certo que cedo resolverias procurar outro emprego e que, entre outras pessoas, tornarias a contactar o Fabrício. E ele não perderia a oportunidade de te ganhar para o nosso laboratório.”
            A Chanel abraçou-me e disse:
            “A esta hora, já estávamos juntos. Quer isso dizer que fomos feitos um para o outro?”
            “Claro que sim.”
            Beijámo-nos e quando a Chanel me tornou a encarar, tinha aquele olhar que eu já tão bem conhecia. Mas declarei:
            “Oh querida, tem que ser agora? Não me apetece nada voltar ao nosso quarto, queria deixar o maldito deste bunker o mais depressa possível. Pensas que tem alguma piada fazer amor numa catacumba cheia de cadáveres? Além disso, quem sabe se esses doidos estão realmente todos mortos? Quem nos diz que algum deles não muda de ideias e, ao ver-nos...”
            “Mas que estás para aí a dizer? Quem é que falou em regressar ao quarto? Não me disseste que não fazes questão em conduzir?”
            “Disse.”
            “Eu também não. Além disso, demora uns quinze minutos a percorrer o túnel que nos leva lá fora. Por isso...”
            “Ligamos o piloto automático e...”
            “E aproveitamos o tempo da melhor maneira que eu conheço!”
            Entrámos no primeiro carro que vimos à nossa frente. Assim que ligámos o piloto automático e programámos a rota, mudámos para o banco de trás, aos guinchos, como dois teenagers. O automóvel arrancou, enquanto eu despia a blusa à Chanel. Com o soutien eu já não tinha problemas e ela nunca os tivera com o cinto das minhas calças. Assim, ela...
            Não, não vou descrever mais este momento íntimo.
            É pena?
            Bem, eu presumo que você, cara leitora ou caro leitor, está familiarizado com procedimentos deste tipo e que possui um mínimo de imaginação.
            Não lhe chega imaginar?
            Nesse caso, só há uma solução: passar à acção! E é já!

1 de dezembro de 2010

41º Episódio

O Sr. Cebolo veio ter connosco, antes que puséssemos em prática qualquer tipo de plano. O homem, que normalmente era caracterizado pela boa disposição, vinha triste, entrou no laboratório cabisbaixo e sentou-se sem dizer palavra. Tentei animá-lo. E não só por ele, pois a sua melancolia ainda nos punha mais receosos.
            “Mas que é isso, Sr. Cebolo? A vida continua!”
            “Para nós, não.”
            “Ora essa!”
            “Não adianta viver sem o Führer. Esperámos por ele tanto tempo e agora ele desapareceu para sempre. Para nós, não faz sentido continuar a viver.”
            Eu e a Chanel trocámos um olhar apreensivo. Será que o resto dos nazis tencionava eliminar-nos a todos, fazendo explodir o bunker, ou coisa parecida? Pois eu não deixaria acontecer uma coisa dessas sem oferecer resistência:
            “Compreendo que estejam desiludidos. Mas acontece que a Dra. Luninski e eu conseguimos imaginar uma vida fora deste bunker. Afinal, eu tenho dois filhos.”
            “Eu sei, Professor.”
            “Tenho muitas saudades deles e anseio vê-los. O senhor consegue compreender isso?”
            Ele olhou-me espantado:
            “Mas claro que sim! Por isso mesmo resolvemos não ficar zangados se os senhores não se juntarem a nós, agora que decidimos seguir o exemplo do nosso Führer.”
            “Que quer dizer com isso?”
            “Acabaremos com as nossas vidas. Mas os senhores são livres de escolher o vosso próprio caminho.”
            A Chanel e eu olhámo-nos aliviados, mas também emocionados. Entre mim e o Sr. Cebolo tinha havido bons momentos, em que a simpatia era mútua, e eu sentia-me na obrigação de fazer alguma coisa por ele:
            “O senhor tem a certeza que não há nada que o faça mudar de ideias?”
            “Neste mundo, tal e qual como é, não quero viver.”
            “Mas porquê?”
            “Ai, Professor, é tanta confusão, tanto stress!” O homem estava mesmo angustiado. “Se uma pessoa não se adapta à barafunda, ou sobrevive à base de drogas, ou se torna num marginal. Mas, mesmo em caso de adaptação, cada um de nós mais não é do que um grão de areia no deserto.”
            “Ora”, retorqui, “o mais importante é descobrir algo que nos dê prazer e alegria. Até os mais excêntricos têm possibilidades de serem felizes, encontra-se sempre gente que partilha os mesmos interesses, que possui as mesmas preferências...”
            O Sr. Cebolo abanou a cabeça e replicou:
            “Entre os nazis, tudo tinha a sua ordem, cada um de nós sabia exactamente o que fazer, tinha a sua função. Era isso que eu admirava nesta comunidade, Professor, havia um objectivo a alcançar, algo por que lutar. Não precisávamos de nos martirizar todas as manhãs com a pergunta: mas como é que hei-de passar mais este dia? Ninguém andava perdido, sem orientação. O Führer ordenava e a gente cumpria. Reinava a disciplina!” Acrescentou desesperado: “Eu não sei viver sem essa disciplina, sem essa orientação, sinto-me tão perdido!”
            O pobre do homem precisava de ajuda psicológica, precisava de quem lhe mostrasse que não é preciso eliminar outros seres humanos, nem tão pouco prejudicá-los, para encontrar a própria felicidade. Mas eu não sou nenhum psiquiatra, a única coisa que me ocorreu, foi:
            “Tenho a certeza que também o senhor conseguiria encontrar o seu lugar fora deste bunker. Só precisa de entrar em contacto com as pessoas certas. Se nos quiser acompanhar, a Chanel e eu faríamos os possíveis por...”
            Tornou a abanar a cabeça:
            “Não adianta, Professor, eu seria sempre um zero, uma formiguinha minúscula no meio da floresta. Como poderia eu aguentar uma coisa dessas, ainda por cima agora, depois de saber o que é bom, depois de ter conhecido a glória?”
            A Chanel e eu ficámos sem compreender bem onde ele queria chegar, mas o homem acabou por acrescentar:
            “Não era eu o elemento mais importante desta comunidade, logo a seguir ao Führer? Tivéssemos nós chegado a dominar o mundo, eu seria o segundo homem mais poderoso do planeta! Os senhores fazem ideia do que isso significa para um português?” Os olhos brilharam-lhe. “Os meus compatriotas é que ficariam espantados, haviam de se orgulhar de mim! E eu nem sou jogador de futebol!”
            Não adiantava. Tínhamos que deixar o Sr. Cebolo entregue ao seu destino.

28 de novembro de 2010

40º Episódio

O clone suicidou-se com um tiro na cabeça (o verdadeiro Hitler, antes de dar o tiro, colocou uma cápsula de cianeto na boca, a fim de se assegurar de que morria mesmo, tanto era o medo de sofrer às mãos do inimigo). O seu corpo foi reduzido a cinzas no crematório, para que dele não sobrasse nem um... prometo que o digo pela última vez: “nem um carvãozinho”.
            Ninguém pode prever o futuro, mas de uma coisa eu tinha a certeza: não mais haveria clones do Hitler... ou haveria? Afinal eu estou convencido de que um dia poderemos viajar no tempo. Cientistas meus amigos que se dedicam a esse tipo de projecto têm feito progressos, muitos dizem mesmo que o princípio que permitirá essas viagens é muito mais simples do que o que se imagina. Conclusão: o futuro ficará para sempre uma incógnita, ou, para usar uma expressão velhinha: o futuro a Deus pertence!
            Mas agora, qual era a minha situação e a da Chanel? Estávamos livres? O que pretendiam fazer os restantes nazis? Perante o mundo, eram inofensivos, mas era bem possível que endoidecessem de vez naquele bunker. Considerámos ir ter com o Sr. Cebolo e lembrá-lo de que ele e os seus compinchas já não precisavam de nós. Mas hesitávamos, pois aqueles que não eram de utilidade para os nazis eram, por princípio, executados.
            Meu Deus, mas quando acabaria aquele pesadelo? Comecei a sofrer de claustrofobia no maldito bunker. Sentia a falta das árvores, da erva, das plantas, do barulho das crianças a brincar, do ladrar dos cães, do zumbir das abelhas, do vento, da chuva, da cidade, do stress, de carros em excesso de velocidade, da poluição, de engarrafamentos, de programas de televisão estúpidos, de discussões com os vizinhos... de tudo! Tudo era preferível àquela catacumba! Apesar de lá ter sido tão feliz com a Chanel. Mas nós desejávamos uma vida em liberdade, livre de medos.
            Talvez devêssemos apenas partir. Sabíamos onde estavam os carros e chegaríamos lá depressa, nem sequer precisávamos de levar bagagem. Se o fizéssemos, alguém tentaria evitar que o conseguíssemos? Alguém nos daria um tiro?

26 de novembro de 2010

Intermezzo # 15



- Eh pá! Tens assim tanto frio?
- Frio? Eu tenho é calor, pr'áqui enchouriçado, puxa daqui, arrepenha dali... Um inferno!
- E porque não te rebelas contra esse colete-de-forças?
- Que queres? A dona tricotou-o, ela própria, cheia de amor e carinho...
- (suspiro) O que não se faz para agradar à família...

24 de novembro de 2010

39º Episódio

Durante dois dias o clone não saiu do seu quarto, nem recebeu qualquer visita, pelo que ninguém, nem mesmo o Sr. Cebolo, sabia em que estado ele se encontrava e o que a cabeça dele congeminava. Até que convocou uma reunião da Presidência.
            Surgiu ainda com pior aspecto e a tremer mais. Depois de se sentar na sua cadeira, declarou:
            “A situação é grave, meus senhores, muito grave.”
            Bem, aquilo já ele tinha dito, por isso continuávamos a aguardar ansiosamente pelo resto. Até que ele informou, muito dramático:
            “Os russos chegaram a Berlim. A guerra está perdida!”
            Olhámo-nos estupefactos, mas ninguém se atrevia a falar. Só o Führer:
            “Vivo, ou morto, não cairei nas mãos do inimigo. Farei aquilo que me resta fazer e desejo que o meu corpo seja cremado.” Fez uma pausa, o silêncio era absoluto. Depois, acrescentou: “É esta a vossa missão meus senhores: Cuidem para que de mim não reste um carvãozinho que seja!”
            Apesar da gravidade do momento, tive que cerrar os dentes, a fim de não desatar às gargalhadas. Ao contrário de mim, muitos dos outros choravam. Mas será que eles não notavam que a criatura descrevia uma situação que não se verificava? Uma situação acontecida há mais de 150 anos?
            O Sr. Cebolo soluçava como uma criança:
            “Não vamos então dominar o mundo?”
            “Não”, respondeu o clone. “Fomos traídos!” Nisto, bradou furioso, de punho cerrado: “Fui traído pelas minhas próprias tropas!”
            “Ai credo, meu Führer!”
            “É a verdade, homem! Tivessem os soldados dado o seu melhor e cumprido todas as minhas ordens, não sofreríamos nós esta derrota humilhante. Traíram-me!”
            Era eu realmente o único que sabia que o clone só dizia disparates?
            Assim que se acalmou, disse ainda:
            “Conto com os senhores para cumprirem o meu último desejo.”
            “Sim, meu Führer, fique descansado”, respondeu o Sr. Cebolo.
            O clone levantou-se com muito esforço e alguns dos presentes aproximaram-se dele, a fim de o ajudarem. Mas ele impediu-os com um gesto e saiu sozinho da sala.
            Encontrava-me como no início desta história: rodeado de nazis chorosos. Mas não pensava em chamar-lhes a atenção para o facto de que a situação desesperante descrita pelo Führer só existia na cabeça dele. Afinal, os nazis aceitavam a sua decisão de pôr fim à própria vida, o que me libertava de lhe dar a injecção ou de tentar encontrar outro caminho para terminar aquela loucura.
            A criatura destruir-se-ia a ela própria... pela segunda vez! Acabei por ganhar sentimentos de culpa. Tinha clonado aquele homem apenas para que ele tornasse a tomar aquela decisão difícil, vivendo novamente momentos tão angustiosos. Mesmo tendo em conta que se fizeram tantas barbaridades em seu nome, não chegava suicidar-se uma vez?
            E qual é a moral de toda esta história? Que é irresponsável e perigoso clonar seres humanos? Que nenhum de nós deve desempenhar um papel que só a Deus pertence? Bem, para dizer a verdade, isso seria moral a mais para o meu gosto. Como cientista, a minha ambição principal é a evolução da Ciência. No fundo, acho uma pena que o meu clone apenas tenha vivido algumas semanas e que o mundo não chegue nunca a tomar conhecimento daquele meu toque de génio.
            Ora, que se dane! Já não tinha ganho um prémio Nobel? O que é que eu queria mais? Apenas ser feliz com a Chanel e tornar a ver os meus filhos...
            Alto lá, que a história ainda não acabou!

21 de novembro de 2010

38º Episódio


Os membros da Presidência olhavam-se mais confusos do que nunca. Eu, pelo contrário, sentia a esperança crescer dentro de mim. O Sr. Cebolo respondeu:
            “Mas é claro que existe um mundo lá fora, meu Führer! Um mundo enorme, gigantesco, à nossa disposição. Não devemos perder mais tempo e...”
            “Então, onde estamos nós?”
            “No bunker, meu Führer! Quantas vezes já lhe dissemos? Encontramo-nos no bunker.”
            “No bunker!” repetiu a criatura, como se tivesse de repente encontrado o sentido da vida. “No bunker! Pois claro!”
            O que se passou a seguir, superou todas as minhas expectativas. Começou-se a operar uma transformação incrível no meu clone! Numa questão de segundos, rugas profundas cravaram-se no seu rosto, os olhos raiaram-se-lhe de vermelho e a repa descolou-se, caindo como que esgotada. Só com esforço a criatura conseguiu pousar as mãos em cima da mesa, tanto elas tremiam.
            “Mas que se passa consigo, meu Führer?” inquiriu o português consternado.
            Também eu não fazia ideia do que lhe tinha acontecido, mas a minha oportunidade havia finalmente surgido:
            “Eu sabia que era um grande erro prescindir do exame de rotina. O Führer precisa urgentemente de um medicamento, que eu, por acaso, trago…”
            “Cebolo!” Era a criatura que me interrompia, de voz tremente: “Ajude-me a regressar ao meu aposento!”
            “Sim... claro.”
            Lá se levantou, com a ajuda do português, mas aguentava-se tão mal nas pernas, que eu me preparei para também o ajudar. Era conveniente que ficasse junto dele, mas o Sr. Lacucaracha foi mais rápido. Apoiado no português e no mexicano, e sob o olhar consternado dos restantes, o clone deixou a sala. Eu segui os três. Chegados à porta do quarto, a criatura declarou:
            “Quero ficar sozinho. A situação é muito grave, meus senhores. Preciso de reflectir.”
            O Sr. Cebolo trocou um olhar comigo e propôs finalmente:
            “Não seria melhor que o seu médico o examinasse, meu Führer?”
            “Não! Ninguém ficará comigo, preciso de sossego absoluto. Trancarei a porta por dentro. E você, Cebolo, velará para que esteja sempre alguém a vigiá-la do lado de fora!”
            “Às suas ordens, meu Führer.”
            Ao contar à Chanel o sucedido, lamentei não lhe ter dado a injecção, mesmo contra a vontade dos outros, mas ela disse:
            “Foi melhor assim. Desconfio que se a injecção o matasse, tu não te perdoarias nunca.”
            “Pois sim, mas no fundo não estamos muito melhor do que o que estávamos. Mantém-se a imprevisibilidade da criatura, continuamos a recear o futuro.”
            “Bem, ela agora está realmente doente, o que fortalece a tua posição de médico perante os membros da Presidência.”
            Havia uma certa razão nas suas palavras. Mas a verdade é que, nem eu, nem ninguém, fazia a mais pequena ideia do que teria provocado a mudança no clone.

19 de novembro de 2010

Intermezzo # 14

Já é do conhecimento de muita gente, mas nunca é demais insistir!

E agora, eu pergunto: como é que pessoas ligadas à Medicina Veterinária podem pactuar com coisas destas?! Eu sei que não é fácil lidar com os montes de cães abandonados todos os dias em Portugal. Por outro lado, sempre pensei que se escolhia essa área por se gostar de animais e por se desejar proporcionar-lhes uma vida melhor! Que Professores são estes? Que Veterinários são estes?

Que vergonha para a Universidade de Évora! E para o País! E para todos nós!

Protestemos! Um telefonema, um fax, um email, tudo conta, quantos mais, melhor:

Universidade de Évora
Morada: Largo dos Colegiais 2, 7004-516 Évora
Telefone: +351 266 740 800
FAX: +351 266 740 831
Email: uevora@uevora.pt

Reitor: Carlos Alberto dos Santos Braumann
Morada: Largo dos Colegiais 2, 7004-516 Évora
Telefone: +351 266 740 800
FAX: +351 266 740 804
Email: gabreit@uevora.pt

Entretanto, a bastonária da Ordem dos Médicos Veterinários reagiu: ler aqui e aqui.

Laurentina Pedroso diz que "Tudo deve ser feito com grande rigor e com respeito pelo animal". Mas, "não existe regulamentação específica para a utilização destes animais no ensino. O que existe é a consciência de cada um, disse a responsável, para quem seria fundamental a matéria estar legislada".

Como se vê, ainda há muito a fazer. Protestemos!

17 de novembro de 2010

37º Episódio

Eu tinha um aspecto totalmente diferente! Meu Deus, dava muito nas vistas? Atacado por um pânico repentino, tentei encolher-me na minha cadeira. O meu receio era infundado? O meu comportamento ridículo? Estava completamente fora de mim, incapaz de pensar claro. Além disso, senti-me muito fraco. Tinha a ver com o facto de não ter tomado o pequeno-almoço? Ou estes malucos já me tinham posto doido?
Deu-me uma dor de barriga e, ao massajá-la, senti a seringa no meu bolso. A injecção redentora! Tinha que arranjar oportunidade de a dar à criatura. Porque é que o clone não era atingido por alguma fraqueza? Porque é que não lhe dava um ataque de tosse, ou de espirros, ou de caspa... sei lá, qualquer coisa. Imploro-te meu Deus!
“Estamos agora prontos para...”, lançou o Cebolo e eu assustei-me tanto, que aconteceu exactamente aquilo que eu procurava evitar: estremeci, atraindo todas as atenções! Fixavam-me, aqueles neuróticos, aqueles fanáticos, haveriam de me...
“Mas que diabo se passa hoje consigo?”
O clone olhava-me irritado. Acrescentou irónico:
“E está o senhor preocupado com o meu estado de saúde? Quer-me parecer que você, doutor, é que precisa de ajuda médica!”
Desataram todos às gargalhadas, eu limitei-me a um sorriso amarelo.
Assim que sossegaram, o clone virou-se para o Cebolo:
“O que é que o senhor se preparava para dizer?”
“Ah sim. Bem, meu Führer, estamos finalmente em condições de dominar o mundo, não é verdade?”
Todos os membros da Presidência fixaram olhares ansiosos no seu Führer. Mas este olhava-os siderado e declarou:
“Estamos em condições, não: nós já dominamos o mundo!”
Os nazis olharam-se confusos. Até que o português desatou novamente às gargalhadas. Todos o imitaram, excepto eu... e o clone.
“Mas que piada”, disse o Sr. Cebolo. “Uma boa piada, meu Führer, que só alguém que está prestes a atingir o seu objectivo supremo se pode dar ao luxo de fazer. Acho, contudo, que não nos devíamos precipitar e, sim, começarmos a ocupar-nos das coisas práticas. Não acham, meus senhores?”
Todos acenaram com a cabeça, excepto eu... e o clone.
O português prosseguiu, muito solene:
“Chegou a hora da verdade. Por mais perto que estejamos do nosso objectivo, ainda não o atingimos plenamente.”
“Como não?” perguntou a criatura. “Não mandei eliminar os seres supérfluos, a escumalha da humanidade?”
“Aqui, no nosso bunker, sim. Mas agora é o mundo lá fora que espera por nós!
“O mundo lá fora?” repetiu o clone.
Fixou o português durante vários segundos em silêncio... com o mesmo olhar vazio que ostentava quando acordou pela primeira vez. O que aliás não tinha um aspecto nada saudável. Chegara a oportunidade de lhe dar a injecção? Quando me preparava para falar, porém, falou o clone:
“O senhor pretende por acaso dizer que existe um mundo lá fora?”

14 de novembro de 2010

36 º Episódio

Não dormi quase nada, nem tão pouco consegui engolir o pequeno-almoço. Agora, que havia tomado a minha resolução, mal podia esperar para agir. Dirigi-me ao quarto da criatura, quanto mais cedo lá chegasse, melhor. Tinha a injecção pronta no bolso da minha bata.
O coração batia-me desenfreado, as pernas tremiam-me e, antes de bater à porta do quarto, coisa que fazia automaticamente todos os dias, respirei fundo.
Depois de bater, ouvi um enérgico: “Entre!”
Hesitei.
Normalmente, como o clone ainda se encontrava deitado quando eu lá chegava, não havia reacção à minha batida e eu limitava-me a entrar no quarto.
Mais uma vez respirei fundo. Abri a porta, entrei e... paralisei estupefacto! A cama estava vazia. O clone já se tinha arranjado e vestido, apertava o último botão do seu casaco em frente do espelho.
“Bom dia, doutor.”
“Meu... Führer, porque se levantou antes do exame de rotina?”
“Hoje não preciso dele. Nunca me senti tão bem na minha vida!”
Depois de mais um momento de estupefacção, repliquei:
“Nunca se sabe... Permita-me lembrar-lhe que o senhor esteve gravemente doente. Insisto em que se faça o exame de rotina!”
“Hoje não, doutor. Mal posso esperar para chegar à Sala da Presidência.”
Encarou-me e apercebeu-se da angústia no meu rosto, a que, no entanto, e felizmente, deu uma interpretação errada:
“Venha lá comigo e tome conta de mim, se fica mais descansado.”
Enquanto nos dirigíamos à Sala da Presidência, eu perguntava-me como arranjaria um pretexto para lhe dar a injecção. Talvez se me apresentasse uma oportunidade de dizer ao Sr. Cebolo que o Führer prescindira do seu exame matinal e se encontrava em grande perigo.
Chegados à sala, fomos saudados com o habitual Heil Hitler e sentámo-nos nos nossos lugares.
“Como se sente hoje, meu Führer?” perguntou logo o Sr. Cebolo e, a fim de não perder aquela oportunidade, antecipei-me ao interrogado:
“O Führer prescindiu hoje do seu exame de rotina, o que eu considero extremamente...”
“Acabe com esse disparate, doutor!” interrompeu-me a criatura. “Já lhe disse que me sinto melhor do que nunca.”
“De qualquer maneira, acho imprudente que...”
“Chega! O senhor ainda me estraga a boa disposição. Mas o que será que o apoquenta tanto hoje?”
Olhava-me desconfiado. Felizmente, o Sr. Cebolo resolveu intervir:
“Alegra-me sabê-lo em tão bom estado, meu Führer.”
“Melhor do que nunca, meu caro. Não sei se os senhores já se aperceberam, mas hoje é um dia especial! Um dia glorioso!”
Com mil milhões de divisões celulares! O que é que lhe passava agora pela cabeça? O meu receio e a minha ansiedade aumentavam e, apesar de dever manter a boca calada, não me aguentei:
“Um dia especial?”
“Mas claro, doutor. Olhe à sua volta! Não é esta uma visão divina?”
Não percebi logo onde é que ele queria chegar. Olhei à minha volta, mas via a mesma sala de sempre, a mesma mesa, as mesmas cadeiras, a mesma iluminação, as mesmas pessoas... Bem, não era bem assim: faltavam os alemães e as mulheres...
De repente, entendi! A Presidência estava agora bem ao gosto do clone! O que se resumia numa ironia suprema: todos os arianos haviam sido eliminados e esta nova versão do Adolfo Hitler sorria orgulhoso no meio de tipos morenos. Um dos novos membros da Presidência era até indiano e um outro de raça cigana. Os últimos nazis do mundo eram todos baixos e morenos e usavam aquele bigodito...

10 de novembro de 2010

35º Episódio

A Olga sorriu triste e acrescentou baixo:
“Depois veio a Dra. Luninski...”
“Para lhe ser franco, eu no início nem gostei dela.”
“Gostou sim, só não o queria admitir. Pois eu, ainda antes de a raptarmos, soube logo que ela era a mulher certa para si.”
“É mesmo? Mas porquê?”
Ela encolheu os ombros:
“Chamemos-lhe intuição feminina. Vi logo que acabariam nos braços um do outro e até tentei convencer os meus colegas a raptar outra pessoa, um dos colaboradores do seu laboratório, por exemplo. A Presidência, porém, rejeitou qualquer proposta nesse sentido. Como a Dra. Luninski se tinha acabado de demitir do seu lugar de prestígio no laboratório do Professor Saturnino, a fim de emigrar, não iria ser tão procurada e o seu rapto não seria tão notado no mundo científico.”
Os nossos raptos tinham sido planeados ao pormenor! Aquilo lembrou-me de que toda esta gente era criminosa e psicologicamente instável. Não havia dúvida de que a Olga, neste dia, estava atractiva, possuía um certo carisma e tinha acabado de me fazer uma espécie de declaração de amor. Porém, ela própria me conduziria ao meu local de execução, se fosse esse o desejo da criatura!
De qualquer maneira, eu tinha vindo ter com ela a fim de lhe dar algum consolo, nesta hora difícil. Por isso a abracei e lhe beijei a face. Ela tornou a sorrir e disse:
“Desejo-lhe sorte, Professor. Sei que será feliz com a Dra. Luninski. E que estará ao lado do nosso Führer, quando este dominar o mundo!”
“Sim... com certeza...”

No dia das execuções, a Chanel e eu abstivemo-nos de deixar o nosso aposento. À noite, sentíamo-nos esgotados e vazios, como se tivéssemos cumprido com as nossas próprias mãos aquele horrível acto. Deitámo-nos, mas ficámos quase uma hora imóveis, sem adormecer. A cabeça dela pousava sobre o meu peito. Comecei a afagar os cabelos de seda e murmurei:
“Acabarei amanhã com este absurdo!”
Ela não reagiu logo, mas eu sentia-lhe a ansiedade. Finalmente, perguntou:
“Qual é a tua ideia?”
“Então eu não examino todas as manhãs o estado de saúde do clone? Amanhã, digo-lhe que ele não está nada bem, que precisa de um medicamento e dou-lhe a injecção que o devolve ao estado de coma artificial!”
Ela levantou a cabeça e pousou os seus olhos nos meus:
“A substância é perigosa. Pode até mandá-lo desta para melhor.”
“E depois?”
“Como reagirão os outros?”
“Digo-lhes que encontrei o clone naquele estado, quando entrei no quarto.”
“Mesmo que eles acreditem em ti, o que sucede depois?”
“Não sei. Só sei que não aguento mais esta situação. E pergunto-me que tipo de disparates a criatura ainda vai inventar. Vivemos à beira do precipício. Mas mesmo que ele poupe a tua vida e a minha até ao fim, eu não aguento mais um dia de execuções como este.”
Ela tornou a pousar a cabeça no meu peito e exalou:
“Nem eu.”

7 de novembro de 2010

34º Episódio

Suspirei conformado, mas pedi ainda:
“Só mais um favor, Sr. Cebolo: deixe-me falar uma última vez com a Olga!”
“Impossível. A nenhum preso é permitido receber visitas.”
“Peço-lhe, em nome da nossa amizade! Sabe, é que ela na Sala da Presidência lançou-me um olhar tão angustiado, que não me sai da cabeça.”
“Mas não foi por saber que ia ser executada. A Olga não teme a morte.”
“Então porque foi?”
Ele suspirou:
“Por causa da maneira com que o senhor implorou pela vida da Dra. Luninski.”
“O quê? Tem a certeza?”
O Sr. Cebolo não respondeu. Depois de uma curta reflexão, disse:
“Vou abrir uma excepção e levá-lo à presença da Olga. Sinto vontade de dar uma última alegria à rapariga.”

A Olga dividia uma cela com a Sra. Relot, pelo que tive que tolerar todo o tempo aquele olhar idiota através dos óculos quadrados pousado em nós.
Não sei se era a força das circunstâncias, ou por eu estar mais sensível à sua pessoa, o certo é que a russa se me apresentava sob um ponto de vista totalmente diferente. Tinha os cabelos soltos pelos ombros e a severidade desaparecera do seu rosto, dando lugar a um olhar melancólico, mas inteligente. Apercebi-me de que ela era dotada de uma beleza e de uma dignidade especiais. Tornei a pensar nos filmes antigos que tinha visto em casa do meu colega, pois a Olga fazia-me lembrar a protagonista de um filme noir, assim uma... Lauren Bacall. E também me fez lembrar que eu preferia as louras, antes de me apaixonar pela Chanel.
Ela sorriu:
“Sempre veio, Professor.”
Agora, até a sua voz rouca se me soava sensual. Peguei-lhe nas mãos e os seus olhos castanho-claros brilharam.
“Admiro a sua coragem, Olga. Você mais parece uma diva do que uma mulher condenada à morte.”
“Só para ouvi-lo dizer isso, já valeu a pena vir parar a esta cela.”
“Eu... sinto-me em parte responsável pela situação. Sinto muito...”
“Não, Professor. O senhor trabalhou para nós e fez um serviço excepcional: devolveu-nos o nosso Führer.”
“Sim”, piou a Sra. Relot e eu estremeci, pois tinha-me esquecido dela. “Morremos para salvar o mundo! Nunca mais ninguém falará de Cristo!”
Meu Deus, que mais absurdos eu teria ainda que ouvir? Fixei de novo a minha atenção na Olga:
“O Sr. Cebolo disse-me que você não temia a morte.”
Ela suspirou:
“Há anos que ando cansada desta vida, só me trouxe tristezas e desilusões... Foi por isso que me liguei a esta comunidade. Mas quem verdadeiramente deu um novo sentido à minha vida, foi o senhor, Professor.”
“Eu?!”
“Sim... e no entanto...” Largou as minhas mãos, sentou-se sobre a sua cama e exalou: “Nunca me mandou chamar.”
“Chamar?”
“Logo no primeiro dia lhe disse que me podia chamar a qualquer hora, se precisasse de mim. Sabe, nós, os seus raptores, tínhamo-lo observado dias a fio. E eu acabei por não resistir ao seu charme...”
“Oh!” Sentei-me ao lado dela. “Naquela altura eu estava confuso demais para me aperceber de uma coisa dessas.”

5 de novembro de 2010

Intermezzo # 13



O meu novo blogue não tem nada a ver com clones. Nem tão-pouco com visões (mais ou menos sinistras) de futuro. Aliás, como o seu próprio nome revela, é dedicado ao passado:





3 de novembro de 2010

33º Episódio

Naquele momento, só pensei em poupar a vida da Chanel. Afinal, nós ainda possuíamos um trunfo e chegara a hora de o jogar. Levantei-me de um salto, puxei a Chanel para mim e bradei:
“A Dra. Luninski só será eliminada por cima do meu cadáver! E, sem médicos, não lhe restará muito tempo de vida. O senhor padece de uma doença gravíssima!”
O clone fixou-me angustiado. Depois, virou-se para o Sr. Cebolo:
“Ele está a falar a sério?”
O português trocou um olhar breve comigo e replicou:
“Bem, eu cá confiava na palavra do Dr. Solani. Afinal, ele até já ganhou um prémio Nobel.”
“É mesmo?”
“Oh, sim. Além disso, está muito habituado a trabalhar em conjunto com a sua colega. Prescindir dos dois seria realmente arriscado, meu Führer.”
O clone compôs a repa e declarou:
“Acalme-se, doutor! A sua colega será poupada.”
Suspirei aliviado. Mas depois deparei com o olhar amargurado da Olga pousado em mim. Era a primeira vez que ela me encarava, havia várias semanas.
O clone ordenou a prisão de todas as mulheres e a reunião terminou.
A Chanel e eu regressámos completamente deprimidos aos nossos aposentos. O olhar da Olga tinha-se cravado a ferros na minha cabeça e resolvi ir ter com o Sr. Cebolo, que, além de ser aquele que estava mais próximo do Führer, pelos vistos ainda simpatizava comigo.
“Peço-lhe, Sr. Cebolo, evite esta tragédia!”
“Perante o Führer sou impotente, meu caro Professor.”
“Mas… as mulheres! O Sr. gosta delas, não tinha um caso com a Olga?”
Ele fez um gesto de impaciência com a mão:
“Isso já acabou.”
“Mesmo assim. Consegue imaginar um mundo sem mulheres?”
“É realmente uma pena”, suspirou. “Mas se o Führer assim o deseja…”
“Talvez ele esteja apenas... fatigado.”
“Acha?”
Naquele momento, surgiu-me uma ideia: porque não experimentar nele a estratégia que tinha falhado com o Kornflock? O Sr. Cebolo parecia mais receptivo. Acrescentei:
“Sim, afinal ele esteve, digamos, morto quase 200 anos e tem, de repente, que tomar todo o tipo de resoluções. Eu podia tomar providências para que ele repousasse durante alguns dias.”
“Pensa mesmo que lhe faria bem?”
O homem estava quase convencido. Aquilo animou-me:
“Tenho a certeza que sim. O Führer acordaria um outro homem e…”
“Um outro homem?! O senhor causa-me calafrios, Professor. Ora diga-me: estaria esse outro homem em condições de dominar o mundo?”
Aquela pergunta era-me tão inesperada, que eu, assim a quente, acabei a balbuciar:
“Não sei… talvez… Sim, claro…”
“Está a ver, Professor? Nem sequer o senhor tem a certeza.” Abanou a cabeça. “Acredite que me custa muito ver desaparecer todas estas minhas companheiras. Mas tenho que agarrar esta oportunidade única com unhas e dentes.”
“Oportunidade?”
“Tornei-me no conselheiro mais íntimo do Führer e tenciono estar ao lado dele, quando ele se tornar no homem mais poderoso do mundo!”
Com mil milhões de pipetas, aquela gente devia mesmo ser toda internada! O Sr. Cebolo deve ter-se apercebido do desespero no meu olhar, pois abriu os braços num gesto de impotência, com as palavras:
“Sinto muito, Professor.”

31 de outubro de 2010

32º Episódio

Naquele serão, a sós com Chanel, disse-lhe:
“Sinto-me o responsável por toda esta embrulhada.”
“Não te esqueças de que não trabalhaste sozinho. Além disso, obrigaram-nos a isso.”
“Sim, mas, ao mesmo tempo, bem sabes como me agradou levar a cabo uma experiência destas.”
“Por outro lado, se tivesses liberdade de escolha, jamais utilizarias a herança genética do Hitler para esse efeito.”
Apesar de ela ter razão, não conseguia aliviar a minha consciência. A Chanel acrescentou:
“Demais a mais, o clone mandou eliminar uma parte dos seus próprios compinchas, que são de qualquer modo fanáticos e que dificilmente se adaptariam a uma vida fora deste bunker. Enquanto ele se der por satisfeito com isso, deixando o resto do mundo em paz...”
“Fanáticos, ou não, são seres humanos. Sempre me alegrei com o facto de ter nascido num tempo em que a pena de morte já não existe em nenhum estado americano. Além disso, quem sabe o que ainda passará pela cabeça da criatura? Quem me diz que ela amanhã não acorda a detestar médicos?”
“Nós não somos médicos.”
“E depois? Se calhar ele até gosta menos de cientistas!”
Quanto mais voltas dávamos, mais nos enrodilhávamos naquela armadilha. E, por mais difícil que me fosse aceitar o facto, e me é agora escrever sobre ele, um terço daquela comunidade foi mesmo reduzido a cinzas, incluindo os senhores Kornflock e Obskur, o mesmo que guardara o diabo do carvãozinho com tanto amor e dedicação! A maior parte dos executados eram alemães, a raça tão sagrada ao verdadeiro Hitler! Não deixava de ter a sua ironia... Mas, depois de viragem tão trágica nos acontecimentos, quem conseguia rir?

Três dias mais tarde, encontrávamo-nos de novo na Sala da Presidência, quando aquela criatura horrível fez saber que todos deveriam usar bigode! Mas não um bigode qualquer, tinha que ser um bigode ridículo como o dele!
Aquela ordem possuía pelo menos o condão de ser inofensiva. Pedi a palavra e declarei sorridente:
“Para isso, ninguém precisa de ser eliminado, não é verdade? Quem ainda não apresenta tão distinto bigode, só precisa de o deixar crescer. São apenas uns dias de paciência, meu Führer, até que...”
“E as mulheres, meu caro doutor?”
O meu coração disparou, qual atleta ao tiro da partida, suores frios esguichavam-se-me do cachaço. Gaguejei:
“Mas... mas o senhor não se atreveria a...”
“Ai não, que não me atrevo!”
“Mas...”, procurava um argumento forte, “mas isso significaria o fim da humanidade!”
O clone olhava-me sem perceber patavina e eu acrescentei:
“Extinguiríamos a humanidade! Tem que haver homens e mulheres para...”
“Acabou-se!” berrou ele, dando um murro na mesa. Depois, falou em tom de birra, como uma criança que quer fazer prevalecer o seu desejo à força, pelo que a repa se lhe descontrolou: “Não admito a existência de pessoas sem um bigode como o meu. Quem não está em condições de o ter, é por mim declarado como uma aberração. E será eliminado!”

30 de outubro de 2010

Intermezzo # 12



"E Dâmaso, depois de sorrir, de tossir, de dar um jeito ao bigode, estendeu a mão para acariciar também «Niniche» sobre os joelhos de Carlos. Mas a cadelinha, que havia momentos o espreitava com o olho desconfiado, ergueu-se, rompeu a ladrar furiosa.

- C'est moi, «Niniche»! - dizia Dâmaso, recuando a cadeira. - C'est moi, ami... Alors, «Niniche»...

Foi necessário que Maria Eduarda repreendesse severamente «Niniche». E, aninhada de novo no colo de Carlos, ela continuou a espreitar Dâmaso, rosnando, e com rancor.

- Já não me conhece - dizia ele embaraçado - é curioso...

- Conhece-o perfeitamente - acudiu Maria Eduarda muito séria. - Mas não sei o que o Sr. Dâmaso lhe fez, que ela tem-lhe ódio. É sempre este escândalo.

Dâmaso balbuciava, escarlate:

- Ora essa, minha senhora! O que lhe fiz?... Carícias, sempre carícias..."


Os Maias, Eça de Queiroz

27 de outubro de 2010

31º Episódio

Enquanto eu tentava lembrar-me de um outro subterfúgio, o clone compôs a repa, que, na sua irritação, já se lhe tinha soltado, e acrescentou mais calmo:
“Como eu, porém, o respeito muito doutor, permito-lhe recolher-se a um canto da sala na companhia do Sr. Kornflock. Dois minutos!”
“Obrigado... meu Führer.”
Levantei-me, aproximei-me do Sr. Kornflock, que ainda não se tinha mexido, apontei para o canto atrás dele e pedi-lhe:
“Se não se importa…”
O diabo do homem limitou-se a olhar-me irritado. E não se mexeu. A criatura avisou:
“O tempo já corre!"
Apercebi-me de que Sr. Cebolo fixava atento o seu relógio. Tornei a dirigir-me ao Kornflock:
“Peço-lhe, por favor!”
O alemão levantou-se finalmente. Enquanto nos deslocávamos ao canto em questão, comecei a duvidar que fosse aquela a pessoa mas indicada para expor a minha ideia. Dava-me melhor com o Cebolo ou o Lacucaracha, mas o primeiro era agora o conselheiro mais próximo da criatura e o segundo não se encontrava sob pressão, dado possuir um aspecto que, além da cor da pele, não diferenciava muito do seu Führer. Esperava, por isso, que o Sr. Kornflock, que se encontrava numa situação deveras precária, fosse mais receptivo aos meus argumentos. Além disso, para mim, ele era ainda o comandante.
Chegados ao canto, o homem sibilou-me:
“Mas que circo é este, Professor? Perdeu a consciência de si mesmo?”
“O clone vai longe demais”, sussurrei-lhe. “Ou acha que o devemos deixar eliminar uma grande parte da comunidade que tanto confia nele?”
“Quer o senhor dizer que considera contestar uma ordem do Führer?”
Meu Deus, mas será possível incutir bom senso num fanático? De repente, tive uma ideia:
“Aquele não é o Führer!”
“Como?!”
“É apenas uma cópia... uma cópia mal feita. Trata-se de uma criatura completamente confusa. Possui certamente características do antigo Hitler, mas parece não saber bem como há-de actuar para...”
“Afinal, onde é que o senhor quer chegar, Professor?”
Respirei fundo e resolvi arriscar tudo:
“Eu, na qualidade de criador do clone, sinto-me no direito de o devolver ao estado de coma artificial. Acho mesmo que lhe faria bem... talvez lhe arrumasse as ideias. Entretanto, nós, como pessoas civilizadas que somos, poderíamos reflectir sobre os próximos passos...”
“O Führer foi bem decidido e claro naquilo que disse. Não me apercebi de nenhuma criatura confusa, como o senhor lhe chama. Sendo assim, resta-nos vergarmo-nos aos seus desejos!”
“Mas o senhor não entende que a sua própria vida está em perigo?”
Nisto, o clone berrou:
“O tempo está quase a acabar!”
“Apenas o Führer”, sibilou-me o Sr. Kornflock, “possui o poder de tomar decisões. Não tenho a menor dúvida de que dominará o mundo. E se ele acha que eu, por qualquer motivo, não deverei estar presente nesse momento de glória, lá terá as suas razões.” Os olhos humedeceram-se-lhe, mas não de tristeza e, sim, de orgulho, pois acrescentou firme: “Submeto-me à sua vontade suprema!”
Dito isto, regressou ao seu lugar, deixando-me sozinho naquele canto. Sozinho e totalmente consternado. Depois de uns segundos de perplexidade, em que todos os presentes me observavam, resolvi regressar também à minha cadeira. A Chanel lançou-me um olhar cheio de interrogações e eu limitei-me a passar a mão pelos cabelos, despenteando-os ainda mais.
“Tudo bem consigo, doutor?”
A criatura soava desconfiada e eu balbuciei:
“Sim... tudo em ordem.”
“Ainda bem. Não me agradaria ter que prescindir da minha equipa médica.”
Pelos vistos, e apesar de eu ser maior e mais robusto do que ele, o homem tencionava poupar-me a vida.

24 de outubro de 2010

30º Episódio

Os três dias que se seguiram constam entre os mais felizes da minha vida. Só não digo os mais felizes porque a Dra. Lunin... não, a Chanel e eu continuávamos prisioneiros naquele maldito bunker e eu tinha saudades dos meus filhos.
Só víamos o clone de manhã, por uns momentos. Convencido que recuperava ainda da sua doença grave, a criatura receava uma recaída e insistia em que nós médicos o examinássemos, antes de se levantar. Medíamos-lhe o pulso e a tensão arterial e, assim que o declarávamos estável, éramos dispensados.
Não fazíamos por isso ideia do que é que os fanáticos andavam a congeminar. As refeições eram-nos servidas pela bola chinesa, que, como já referi, mal abria a boca. Só quando nos surgiu o Sr. Lacucaracha, tive ocasião de perguntar porque é que a Olga ou o Cebolo já não vinham ter connosco. O mexicano respondeu:
“A Sra. Tortinova não deseja vê-lo, Professor.”
“Ora essa, porquê?”
A única resposta que recebi foi um encolher de ombros. Depois, o homem acrescentou:
“O José Cebolo manda-lhe muitos cumprimentos, mas anda tão ocupado, que não tem tido tempo de vir falar consigo.”
“Ocupado? Com o quê?”
“O Cebolo tornou-se no segundo homem da nossa comunidade, logo a seguir ao Führer, que não prescinde da sua companhia e dos seus conselhos.”
“Logo a seguir ao Führer? Então e o comandante?”
“Refere-se ao Sr. Kornflock?” inquiriu ele desdenhoso. “O Führer não o aprecia por aí além.”
“Não me diga!”
“Sabe Professor”, aproximou-se de mim e segredou-me, “o Sr. Kornflock anda cheio de ciúmes do Cebolo.”
Aquilo inquietou-me. Era bem possível que o Kornflock se quisesse vingar daquela desconsideração. E, se aqueles doidos começassem a desentender-se uns com os outros, as consequências podiam ser catastróficas. Por isso, apesar do idílio amoroso, a Chanel e eu vivíamos em receio permanente.

Passados os três dias, fomos convocados a assistir a uma reunião da Presidência. Felizmente, ninguém nos obrigou a usar o uniforme oficial dos nazis. O clone fazia mesmo questão que andássemos de bata branca, talvez porque se sentia mais seguro com os seus médicos constantemente prontos a entrar em acção.
Tivemos direito a lugares sentados à mesa da Presidência. O meu era entre a Chanel e a Olga, mas a russa ignorou-me. O clone presidia à reunião com um Cebolo muito risonho do seu lado direito. A criatura levantou-se e afirmou:
“Minhas senhoras e meus senhores, hoje começará a limpeza do mundo!”
Meu Deus, que início! A Chanel e eu trocámos olhares alarmados. O clone prosseguiu:
“Dou assim conhecimento que eu, o vosso Führer, sou a imagem por que todos se devem guiar. Como a Dra. Luninski muito inteligentemente observou, eu não tenho nada de ariano. Absolutamente nada! Acabemos por isso com esse disparate da raça ariana! Ordeno que todos os homens que não se pareçam comigo e que sejam muito mais altos que eu, sejam eliminados!”
Seguiu-se um silêncio perplexo. Depois, ele acrescentou firme:
“Não tolero homens que não se pareçam comigo!”
Aquilo já não era nenhuma brincadeira. Fixei a minha atenção nos senhores Kornflock e Obskur, que, devido ao seu aspecto, se encontravam em grande perigo. Os dois olhavam pálidos e incrédulos para o seu Führer, mas mantinham-se em silêncio.
Eu é que não ia assistir imóvel à execução de pessoas, muito menos devido ao seu aspecto físico. Levantei o braço, pedindo permissão para usar da palavra. O clone dirigiu-se-me:
“Sim, doutor?”
“Meu... Führer”, (custava-me tratá-lo daquela maneira, mas tencionava manter-me nas suas boas graças) “permita-me trocar algumas palavras em particular com o Sr. Kornflock.”
“Em particular?”
Não era só a surpresa que eu descortinava nos seus olhos, também incómodo. Tinha contado com a confiança que ele depositava em mim e na Chanel, confiança ou mesmo dependência, mas agora receava que me tivesse sobrestimado. Além disso, lembrei-me que meço 1,85m e que tenho cabelos castanhos e olhos azuis-escuros.
“A que propósito?” perguntou ele ainda.
“Trata-se de um”, humedeci os lábios secos, “um assunto pessoal.”
“Não permito que ninguém abandone esta sala, antes de dar por terminada esta reunião!”
Aquilo ia de mal a pior!

23 de outubro de 2010

Intermezzo # 11

CÃES DO ALENTEJO



- Já dei a minha volta. Deixem-me entrar, que ninguém aguenta este calorão!






- Quem interrompe a minha sessão de ioga?






- Gosto de observar o movimento. Não percebo é porque os humanos andam sempre cheios de pressa!






- Quem me acorda? Ah, são turistas de máquina fotográfica em punho!






- Parecem inofensivos. Acho que posso continuar a minha soneca.






- Não acham que já tiraram fotografias suficientes?



Estes cães, que fotografámos em Évora, Beja e Vila Viçosa, em Setembro, pareciam bem alimentados e irradiavam paz. Eram dóceis e calmos. Espero que isto signifique uma mudança nas mentalidades. E que continue a melhorar!

20 de outubro de 2010

29 º Episódio

Mas nisto, ela sorriu e perguntou:
“Quem é o Karl?”
Teria eu afinal uma hipótese? Àquela ideia, fui atacado por um fogo repentino, que estranhamente parecia ter começado nas minhas solas e me subiu até às pontas despenteadas do cabelo.
“Quer dizer que o esqueceu?”
“Há semanas que os meus pensamentos se ocupam exclusivamente de si.”
“De mim?”
“Sim. E você ocupa muito espaço. Não sobra nada para canalhas.”
“Porque não me disse nada? Ou me deu a entender algo? Esperei todo o tempo por um sinal seu.”
“A sério?”
“Claro. Receava precipitar-me, deitando tudo a...”
“Então e a Amanda?”
“Amanda?”
“Não espera que ela volte para si?”
Sorri:
“Quem é a Amanda?”
A Dra. Luninski fixou-me durante alguns momentos. Depois, sem qualquer pré-aviso, caiu-me em cima.
Foi isso mesmo, não o posso dizer doutra maneira: ela caiu-me em cima de tal maneira, que eu, desprevenido, tropecei à retaguarda e fui de encontro à parede, enquanto abria os braços, numa tentativa espontânea de manter o equilíbrio.
Bem, como já tive ocasião de afirmar, sou do tipo que precisa da atmosfera certa, do ambiente propício. Um laboratório, por exemplo, o meu amado local de trabalho, parece-me extremamente inadequado para actividades românticas. Além disso, nunca gostei que me caíssem em cima, prefiro os gestos suaves e subtis.
E então? Enervei-me? Considerei chamar a Dra. Luninski à razão?
Que ideia! Aquela mulher punha o meu mundo de cabeça para baixo, apagava da minha cabeça todas as regras que eu considerava necessárias para levar uma vida agradável.
Ali estava ela, agarrada ao meu pescoço, a beijar-me como uma possessa e deixando-me tão incendiado, que eu receei que os contornos do meu corpo ficassem marcados na parede. Ao tentar envolvê-la nos meus braços, a minha mão esquerda foi de encontro a uma prateleira, deitando ao chão todos os frascos e boiões que lá se encontravam. Frascos e boiões que continham amostras e substâncias únicas, que eu, cheio de paciência, havia recolhido durante a experiência e que, como sempre, guardara bem ordenadas.
Coisa para me pôr fora de mim... normalmente. Agora, era o corpo da Dra. Luninski que o fazia. Desapertei-lhe a bata e, depois de lhe acariciar o traseiro dentro dos jeans, as minhas mãos enfiaram-se por baixo da sua t-shirt. Sentia-lhe a pele macia e quente e comecei a desapertar-lhe o soutien. Mas, como sou desajeitado nessas coisas, a Dra. Luninski teve entretanto tempo de se libertar da bata e da t-shirt e ainda me desapertou e despiu a camisa.
Calcando os frascos e boiões, já de si arruinados, ela puxou-me consigo, até que embateu de costas numa mesa, onde se encontravam pastas de arquivo, contendo o registo de todos os passos do projecto que eu descrevera ao pormenor. Não reparando nas benditas pastas, ela começou a querer deitar-se sobre a mesa e eu, num gesto rápido, varri aquela papelada para o chão, antes que a Dra. Luninski magoasse as suas lindas costas.
As pastas fizeram barulho ao cair? Estragaram-se muito? Eu não fazia ideia, apenas fiquei eufórico ao constatar que conseguira finalmente desapertar o soutien, enquanto a Dra. Luninski já me atacava o cinto das calças.
Acariciava-lhe os seios fantásticos, quando ela levantou um pouco o tronco e enfiou a mão nas minhas calças. Mas, no calor da refrega, foi um pouco rude. Estremeci com a perna direita e bati com o joelho de encontro à mesa, desequilibrando-me. Tentei segurar-me com a mão sobre o canto da mesa, mas empurrei esta involuntariamente para trás, no preciso momento em que a Dra. se tentava novamente deitar sobre o tampo. Consegui, no último segundo, segurar aquele corpo precioso, antes que caísse estatelado no chão.
Tropeçámos sem rumo por sobre as pastas, estragando o resto que tinha sobrevivido à queda. Mal nos equilibrávamos e conseguimos finalmente aterrar no único tapete existente no laboratório. A Dra. Luninski já libertara uma das suas pernas dos jeans e da cuequinha, eu só consegui descer a minha roupa até aos joelhos, pois, quando dei por mim, já tinha penetrado na minha adorável parceira.
Dir-se-ia que tínhamos apostado em quem conseguia suspirar mais alto. Suspiros e gemidos que eu aliás considero frívolos, a partir de um certo volume. Porém, e como já referi, a minha vida havia sido virada do avesso.
Como hei-de descrever o que se passou depois? Vem-me à ideia um voo de dragão a cuspir fogo, queimando tudo à sua volta...
E, na verdade, deixámos um rastro de destruição atrás de nós.