Janela Indiscreta

Este blogue foi recomendado pelo Pedro Rolo Duarte no seu programa Janela Indiscreta, da Antena 1, a 28-07-2010.
A história chegou ao fim, foram 42 episódios ao longo de meio ano. Mas ela está cá toda, é só consultar o arquivo do blogue, começando em Julho de 2010. Ou escolha o episódio que quiser, utilizando a caixa de pesquisa, aqui ao lado.
À laia de motivação, aqui fica a republicação do 1º Episódio.

1 de dezembro de 2010

41º Episódio

O Sr. Cebolo veio ter connosco, antes que puséssemos em prática qualquer tipo de plano. O homem, que normalmente era caracterizado pela boa disposição, vinha triste, entrou no laboratório cabisbaixo e sentou-se sem dizer palavra. Tentei animá-lo. E não só por ele, pois a sua melancolia ainda nos punha mais receosos.
            “Mas que é isso, Sr. Cebolo? A vida continua!”
            “Para nós, não.”
            “Ora essa!”
            “Não adianta viver sem o Führer. Esperámos por ele tanto tempo e agora ele desapareceu para sempre. Para nós, não faz sentido continuar a viver.”
            Eu e a Chanel trocámos um olhar apreensivo. Será que o resto dos nazis tencionava eliminar-nos a todos, fazendo explodir o bunker, ou coisa parecida? Pois eu não deixaria acontecer uma coisa dessas sem oferecer resistência:
            “Compreendo que estejam desiludidos. Mas acontece que a Dra. Luninski e eu conseguimos imaginar uma vida fora deste bunker. Afinal, eu tenho dois filhos.”
            “Eu sei, Professor.”
            “Tenho muitas saudades deles e anseio vê-los. O senhor consegue compreender isso?”
            Ele olhou-me espantado:
            “Mas claro que sim! Por isso mesmo resolvemos não ficar zangados se os senhores não se juntarem a nós, agora que decidimos seguir o exemplo do nosso Führer.”
            “Que quer dizer com isso?”
            “Acabaremos com as nossas vidas. Mas os senhores são livres de escolher o vosso próprio caminho.”
            A Chanel e eu olhámo-nos aliviados, mas também emocionados. Entre mim e o Sr. Cebolo tinha havido bons momentos, em que a simpatia era mútua, e eu sentia-me na obrigação de fazer alguma coisa por ele:
            “O senhor tem a certeza que não há nada que o faça mudar de ideias?”
            “Neste mundo, tal e qual como é, não quero viver.”
            “Mas porquê?”
            “Ai, Professor, é tanta confusão, tanto stress!” O homem estava mesmo angustiado. “Se uma pessoa não se adapta à barafunda, ou sobrevive à base de drogas, ou se torna num marginal. Mas, mesmo em caso de adaptação, cada um de nós mais não é do que um grão de areia no deserto.”
            “Ora”, retorqui, “o mais importante é descobrir algo que nos dê prazer e alegria. Até os mais excêntricos têm possibilidades de serem felizes, encontra-se sempre gente que partilha os mesmos interesses, que possui as mesmas preferências...”
            O Sr. Cebolo abanou a cabeça e replicou:
            “Entre os nazis, tudo tinha a sua ordem, cada um de nós sabia exactamente o que fazer, tinha a sua função. Era isso que eu admirava nesta comunidade, Professor, havia um objectivo a alcançar, algo por que lutar. Não precisávamos de nos martirizar todas as manhãs com a pergunta: mas como é que hei-de passar mais este dia? Ninguém andava perdido, sem orientação. O Führer ordenava e a gente cumpria. Reinava a disciplina!” Acrescentou desesperado: “Eu não sei viver sem essa disciplina, sem essa orientação, sinto-me tão perdido!”
            O pobre do homem precisava de ajuda psicológica, precisava de quem lhe mostrasse que não é preciso eliminar outros seres humanos, nem tão pouco prejudicá-los, para encontrar a própria felicidade. Mas eu não sou nenhum psiquiatra, a única coisa que me ocorreu, foi:
            “Tenho a certeza que também o senhor conseguiria encontrar o seu lugar fora deste bunker. Só precisa de entrar em contacto com as pessoas certas. Se nos quiser acompanhar, a Chanel e eu faríamos os possíveis por...”
            Tornou a abanar a cabeça:
            “Não adianta, Professor, eu seria sempre um zero, uma formiguinha minúscula no meio da floresta. Como poderia eu aguentar uma coisa dessas, ainda por cima agora, depois de saber o que é bom, depois de ter conhecido a glória?”
            A Chanel e eu ficámos sem compreender bem onde ele queria chegar, mas o homem acabou por acrescentar:
            “Não era eu o elemento mais importante desta comunidade, logo a seguir ao Führer? Tivéssemos nós chegado a dominar o mundo, eu seria o segundo homem mais poderoso do planeta! Os senhores fazem ideia do que isso significa para um português?” Os olhos brilharam-lhe. “Os meus compatriotas é que ficariam espantados, haviam de se orgulhar de mim! E eu nem sou jogador de futebol!”
            Não adiantava. Tínhamos que deixar o Sr. Cebolo entregue ao seu destino.

8 comentários:

O Guardião disse...

O Cebolo fez-me ver por momentos a semelhança que existe entre ele e um Pinóquio da nossa praça. O poder cega os que dele são sedentos e não há outra realidade para esses, a não ser a sua.. fantasia.
Cumps

antonio - o implume disse...

Curioso como todo o fanatismo se alicerça em causas perdidas. E eu sempre achei que o futebol nos desgraça...

Estaremos condenados ao realismo?

Daniel Santos disse...

e será que num século tão evoluído como aquele ainda haverá algo tão primitivo como o futebol?

Kássia Kiss disse...

Quem sabe...

jota disse...

Tenho pena do senhor Cebolo, afinal a vida para ele deixou de fazer sentido. É triste.

O sentido da vida dele não prestava, mas é triste na mesma.

Mar Arável disse...

O sr Cebolo ignora que não há destinos

Kássia Kiss disse...

Sim, é fatalista. Se tivesse tido essa ideia antes, ainda o punha a cantar o fado... ;)

Pata Negra disse...

Sim, nos tempos que correm, será difícil projectar um português fora do relvado, é tudo futebol e futebol é indisciplina!
Gosto da disciplina! Serei nazi?!
Um abraço ao sabor da história