Janela Indiscreta

Este blogue foi recomendado pelo Pedro Rolo Duarte no seu programa Janela Indiscreta, da Antena 1, a 28-07-2010.
A história chegou ao fim, foram 42 episódios ao longo de meio ano. Mas ela está cá toda, é só consultar o arquivo do blogue, começando em Julho de 2010. Ou escolha o episódio que quiser, utilizando a caixa de pesquisa, aqui ao lado.
À laia de motivação, aqui fica a republicação do 1º Episódio.

3 de janeiro de 2011

1º Episódio

(republicação)

            Fui raptado a 21 de Janeiro de 2112, o dia do meu 42° aniversário.
Admito que um cientista vencedor de um Prémio Nobel represente um alvo apetecível para terroristas ou caçadores de resgates. Mas nem nas minhas fantasias mais loucas eu me teria lembrado de tais raptores.
            Chamo-me Jason Solani, sou americano, vivo e trabalho em Los Angeles e recebi o Nobel por ter criado uma incubadora que permite a clonagem de animais extintos, nela se desenvolvendo o novo ser em questão de semanas.
Era quase meia-noite e encontrava-me sozinho no laboratório, envolvido no meu trabalho. Nada de anormal, nem mesmo no dia do meu aniversário. Hábitos deste tipo deram cabo do meu casamento, ainda assim, a Amanda aguentou dez anos a meu lado.
Observava a holografia das células de uma espécie marinha descoberta há pouco tempo (uma estrutura fascinante!), quando ouvi a porta abrir-se atrás de mim. Pensei: deve ser o Fabrício. Esse meu colega é quase tão obcecado pelo trabalho quanto eu, surge-me muitas vezes no laboratório a meio da noite, a fim de me explanar uma ideia que teve ou de me informar sobre uma descoberta científica.
            Preparava-me para me virar e perguntar: “Então, o que é desta vez?”, quando me enfiaram uma serapilheira na cabeça.
Foi isso mesmo: uma serapilheira! Que cheirava a salsichas tipo Frankfurt!
Quedei-me tão embasbacado, que os meus raptores não precisaram de esforço para me atarem as mãos atrás das costas. Só caí em mim, quando alguém me segredou algo através do saco. Hoje sei que se tratava de uma mulher, na altura cheguei a duvidar, ao ouvir aquela voz de quem esvazia uma garrafa de vodka ao pequeno-almoço:
            “Seja cooperativo, Professor! Não me obrigue a usar de violência contra si!”
            Arrastaram-me para fora do prédio e eu nem me lembrei de gritar por socorro, tão ocupado estava a perguntar-me porque cargas de água a criatura falara comigo em alemão! Por outro lado, o prédio estava vazio àquela hora, de nada me adiantaria berrar.
Bem, o meu faible por línguas é conhecido, falo fluentemente alemão e francês. Vejo-me assim mais bem preparado para assistir a conferências na Europa. Não me dou com traduções feitas por computador, por mais que as aperfeiçoem, estão longe de fazer jus aos extintos tradutores simultâneos. E aprendo línguas estrangeiras com tanta facilidade, que aulas desse tipo se me tornaram numa maneira de vencer o stress. Até sei um pouco de português, o que me dava imenso jeito, quando a Amanda e eu passávamos férias no Brasil... Bem, em dez anos, dispus-me duas vezes a tirar férias.
            Assim que chegámos à rua, fui empurrado para dentro de um carro, que logo arrancou e me deu a impressão de ser um modelo flutuante perfeitamente normal. Agora, se ele flutuava a 20 ou a 30 cm do solo, ou se atingia uma velocidade máxima de 450 ou 500 km/h, não sei dizer. Não pertenço ao género de criaturas a quem o ronco do motor tudo revela sobre o bólide. Nem sequer gosto de conduzir, mal entro no meu carro, ligo logo o piloto automático. Quero lá saber que assim a velocidade não ultrapasse os 150 km/h! Aproveito para dar uma olhadela no meu trabalho... Escusado será dizer que o meu portátil está ligado a todos os computadores do laboratório, para que possa acompanhar as minhas experiências 24 horas por dia. Sim, também isso irritava a Amanda…
            A propósito, o meu ex-cunhado sabe tudo sobre carros. Adora velocidades. Quando se me assomou difícil assinar os papéis do divórcio, só precisei de pensar nas viagens que fiz ao lado daquele maluco, que ignora que é possível andar a menos de 350 km/h…
Regressemos ao meu rapto: apesar de tapado pela serapilheira a cheirar a salsichas, tentei falar com os meus sequestradores, mas eles mantinham-se mudos. Nem sequer a voz de vodka, sentada a meu lado, se deixou enredar na minha conversa.
            Perdi a noção do tempo e não faço ideia quanto demorou a viagem. Só sei que, a determinada altura, notei que tínhamos entrado a grande velocidade num túnel que parecia não ter fim. Confesso que cheguei a dar graças a Deus pela serapilheira enfiada na cabeça.
            Quando o carro finalmente parou, arrancaram-me de lá e a voz de vodka guiou-me através do que me parecia ser um longo corredor. Atrás de nós vinham os outros dois raptores, as suas botas ecoavam no chão de pedra num ritmo perfeitamente sincronizado. Com os meus ténis, o meu andar era, como sempre, silencioso. Gosto de usar coisas práticas, por isso, também naquela noite estava vestido com uns jeans e uma t-shirt por baixo da bata branca.
            Entrámos num compartimento que me parecia ser um grande salão e senti a presença de muita gente. Bem podiam ser mais de cem. Que estranho! Sempre pensara que raptores se limitassem a um pequeno grupo de terroristas, que fechassem a sua vítima numa cave apertada.
            Estabeleceu-se silêncio à nossa chegada. Aquilo revolveu-me as entranhas, nem no carro do meu ex-cunhado eu experimentei tamanho pavor.
            Sem qualquer pré-aviso, arrancaram-me a serapilheira da cabeça e eu vi...
            Na verdade, não vi nada, os meus olhos precisaram de um certo tempo para se habituarem à iluminação. Passados esses primeiros instantes, constatei que me encontrava num salão abobadado, em frente de uma assistência sentada em anfiteatro, todos aqueles olhos postos em mim.
            Odeio ser o motivo das atenções! Com excepção das minhas palestras na Universidade Científica de Los Angeles. Mas neste caso, em vez de estudantes e cientistas, via à minha frente homens e mulheres de fatos cinzentos e pretos, o que dava um aspecto fantasmagórico à palidez dos seus rostos. As paredes da sala eram brancas, o chão e o tecto de pedra cinzenta, as cadeiras pretas... Meu Deus, teria eu aterrado num mundo virtual a preto e branco?
            Não! Cada uma daquelas criaturas usava uma braçadeira vermelha. No seu centro, uma cruz suástica preta, sobre fundo branco. Por acaso, eu conhecia aquele símbolo... de filmes antiquíssimos.
            Tive um colega de liceu fascinado por aparelhos antigos de ecrã, como televisores e demais apetrechos, do tempo em que ainda não havia imagens flutuantes, ou holografias. Ele possuía ainda uma caixa extremamente primitiva: um leitor de DVDs, que, por mais incrível que pareça, ainda precisava de fios para funcionar!
            Esse indivíduo era bem mais maluco do que eu. Via fascinado filmes gravados em discos grosseiros, os tais DVDs. Nunca me disse onde arranjava material tão arcaico. E eu nunca entendi o que é que ele tinha contra os normais pen-drives, onde cabem 40 a 50 filmes. Adiante! Como eu também sempre tive uma pancada, deixei-me convencer a ver aquelas relíquias, muitas delas tinham sido rodadas no século XX!
            Não foi tempo perdido. Fiquei, por exemplo, a saber que tinha havido nazis. Muitas das películas eram sobre uma guerra mundial, acontecida há quase 200 anos, uma guerra despoletada por um psicopata alemão... ou austríaco, sei lá! O que eu nunca pensei foi ver, em pleno século XXII, nazis ao vivo! Quase nenhum dos meus amigos e conhecidos ouviu falar deles.

14 de dezembro de 2010

Natal

Agora, que esta saga chegou ao fim, resta-me desejar-vos Boas Festas! E não sobrecarreguem o Pai Natal, que ele, quando entra em stress, adopta um comportamento, digamos, menos ortodoxo:

Para chegar à origem desta imagem, basta seguir o Cheiro

Sugestão de prenda ;-)



Não se esqueçam de entrar em 2011 com o pé direito!

A propósito, 2011 é o ano do 750º aniversário de D. Dinis...

5 de dezembro de 2010

42º e último Episódio

Não vimos mais nenhum dos nazis, que permaneceram nos seus quartos, pelos vistos, a fim de se suicidarem. Não estávamos com vontade de o confirmar. Éramos finalmente livres! Apressámo-nos a alcançar a garagem, onde se encontravam mais de vinte automóveis à nossa disposição.
            Combinámos irmos directos à polícia, esclarecer a nossa situação e acalmar todos aqueles que há quatro meses nos procuravam. Mas não revelaríamos toda a verdade. Não havia o mínimo vestígio do clone, podíamos por isso dizer que não tínhamos conseguido concluir o projecto com êxito. Revelássemos nós que havíamos clonado um ser humano a partir de vestígios encontrados num carvãozinho com mais de 150 anos, poríamos o mundo em convulsão e todos iriam exercer uma enorme pressão sobre nós, a fim de que repetíssemos a experiência. E não nos achávamos capazes de o fazer, pelo menos, por agora.
            Combinámos então dizer que os nazis tinham passado o tempo em discussões e disputas, eliminando-se mutuamente, enquanto nós fazíamos os possíveis por concluir o projecto. A polícia que fosse verificar se eles estavam realmente todos mortos.
            Ainda escolhíamos um carro, quando eu reparei que algo inquietava a Chanel e perguntei-lhe:
            “O que te preocupa?”
            Depois de uma curta hesitação, ela respondeu:
            “Será que a nossa relação também irá funcionar lá fora, no mundo verdadeiro?”
            “Porque não?”
            “Eu até nem sou supersticiosa. Mas às vezes pergunto-me se realmente poderá dar certo. Já pensaste em que circunstâncias nos conhecemos? Essa ideia não nos irá perseguir e apoquentar todo o tempo? Ou simplesmente trazer azar?”
            Reflecti um pouco e repliquei:
            “Tínhamo-nos conhecido de qualquer maneira, mesmo que não tivéssemos sido raptados.”
            “Achas?”
            “Claro. Não te tinhas demitido? E já não tinhas sido contactada pelo Fabrício? Ora, quando estes malucos me sequestraram, a vaga que o nosso colaborador deixara livre ainda não estava preenchida.”
            “Esqueces-te de que eu tencionava pôr fim à minha vida?”
            “Nunca o terias feito. Na altura, estavas ferida, desesperada, mas terias superado a crise. Tu não és do tipo que se suicida.”
            Ela respirou fundo.
            “Tens razão. Eu tinha dado a volta por cima, nem que fosse só por causa do meu trabalho. Como tu agora sabes, tenho inúmeros projectos na cabeça.”
            “É quase certo que cedo resolverias procurar outro emprego e que, entre outras pessoas, tornarias a contactar o Fabrício. E ele não perderia a oportunidade de te ganhar para o nosso laboratório.”
            A Chanel abraçou-me e disse:
            “A esta hora, já estávamos juntos. Quer isso dizer que fomos feitos um para o outro?”
            “Claro que sim.”
            Beijámo-nos e quando a Chanel me tornou a encarar, tinha aquele olhar que eu já tão bem conhecia. Mas declarei:
            “Oh querida, tem que ser agora? Não me apetece nada voltar ao nosso quarto, queria deixar o maldito deste bunker o mais depressa possível. Pensas que tem alguma piada fazer amor numa catacumba cheia de cadáveres? Além disso, quem sabe se esses doidos estão realmente todos mortos? Quem nos diz que algum deles não muda de ideias e, ao ver-nos...”
            “Mas que estás para aí a dizer? Quem é que falou em regressar ao quarto? Não me disseste que não fazes questão em conduzir?”
            “Disse.”
            “Eu também não. Além disso, demora uns quinze minutos a percorrer o túnel que nos leva lá fora. Por isso...”
            “Ligamos o piloto automático e...”
            “E aproveitamos o tempo da melhor maneira que eu conheço!”
            Entrámos no primeiro carro que vimos à nossa frente. Assim que ligámos o piloto automático e programámos a rota, mudámos para o banco de trás, aos guinchos, como dois teenagers. O automóvel arrancou, enquanto eu despia a blusa à Chanel. Com o soutien eu já não tinha problemas e ela nunca os tivera com o cinto das minhas calças. Assim, ela...
            Não, não vou descrever mais este momento íntimo.
            É pena?
            Bem, eu presumo que você, cara leitora ou caro leitor, está familiarizado com procedimentos deste tipo e que possui um mínimo de imaginação.
            Não lhe chega imaginar?
            Nesse caso, só há uma solução: passar à acção! E é já!

1 de dezembro de 2010

41º Episódio

O Sr. Cebolo veio ter connosco, antes que puséssemos em prática qualquer tipo de plano. O homem, que normalmente era caracterizado pela boa disposição, vinha triste, entrou no laboratório cabisbaixo e sentou-se sem dizer palavra. Tentei animá-lo. E não só por ele, pois a sua melancolia ainda nos punha mais receosos.
            “Mas que é isso, Sr. Cebolo? A vida continua!”
            “Para nós, não.”
            “Ora essa!”
            “Não adianta viver sem o Führer. Esperámos por ele tanto tempo e agora ele desapareceu para sempre. Para nós, não faz sentido continuar a viver.”
            Eu e a Chanel trocámos um olhar apreensivo. Será que o resto dos nazis tencionava eliminar-nos a todos, fazendo explodir o bunker, ou coisa parecida? Pois eu não deixaria acontecer uma coisa dessas sem oferecer resistência:
            “Compreendo que estejam desiludidos. Mas acontece que a Dra. Luninski e eu conseguimos imaginar uma vida fora deste bunker. Afinal, eu tenho dois filhos.”
            “Eu sei, Professor.”
            “Tenho muitas saudades deles e anseio vê-los. O senhor consegue compreender isso?”
            Ele olhou-me espantado:
            “Mas claro que sim! Por isso mesmo resolvemos não ficar zangados se os senhores não se juntarem a nós, agora que decidimos seguir o exemplo do nosso Führer.”
            “Que quer dizer com isso?”
            “Acabaremos com as nossas vidas. Mas os senhores são livres de escolher o vosso próprio caminho.”
            A Chanel e eu olhámo-nos aliviados, mas também emocionados. Entre mim e o Sr. Cebolo tinha havido bons momentos, em que a simpatia era mútua, e eu sentia-me na obrigação de fazer alguma coisa por ele:
            “O senhor tem a certeza que não há nada que o faça mudar de ideias?”
            “Neste mundo, tal e qual como é, não quero viver.”
            “Mas porquê?”
            “Ai, Professor, é tanta confusão, tanto stress!” O homem estava mesmo angustiado. “Se uma pessoa não se adapta à barafunda, ou sobrevive à base de drogas, ou se torna num marginal. Mas, mesmo em caso de adaptação, cada um de nós mais não é do que um grão de areia no deserto.”
            “Ora”, retorqui, “o mais importante é descobrir algo que nos dê prazer e alegria. Até os mais excêntricos têm possibilidades de serem felizes, encontra-se sempre gente que partilha os mesmos interesses, que possui as mesmas preferências...”
            O Sr. Cebolo abanou a cabeça e replicou:
            “Entre os nazis, tudo tinha a sua ordem, cada um de nós sabia exactamente o que fazer, tinha a sua função. Era isso que eu admirava nesta comunidade, Professor, havia um objectivo a alcançar, algo por que lutar. Não precisávamos de nos martirizar todas as manhãs com a pergunta: mas como é que hei-de passar mais este dia? Ninguém andava perdido, sem orientação. O Führer ordenava e a gente cumpria. Reinava a disciplina!” Acrescentou desesperado: “Eu não sei viver sem essa disciplina, sem essa orientação, sinto-me tão perdido!”
            O pobre do homem precisava de ajuda psicológica, precisava de quem lhe mostrasse que não é preciso eliminar outros seres humanos, nem tão pouco prejudicá-los, para encontrar a própria felicidade. Mas eu não sou nenhum psiquiatra, a única coisa que me ocorreu, foi:
            “Tenho a certeza que também o senhor conseguiria encontrar o seu lugar fora deste bunker. Só precisa de entrar em contacto com as pessoas certas. Se nos quiser acompanhar, a Chanel e eu faríamos os possíveis por...”
            Tornou a abanar a cabeça:
            “Não adianta, Professor, eu seria sempre um zero, uma formiguinha minúscula no meio da floresta. Como poderia eu aguentar uma coisa dessas, ainda por cima agora, depois de saber o que é bom, depois de ter conhecido a glória?”
            A Chanel e eu ficámos sem compreender bem onde ele queria chegar, mas o homem acabou por acrescentar:
            “Não era eu o elemento mais importante desta comunidade, logo a seguir ao Führer? Tivéssemos nós chegado a dominar o mundo, eu seria o segundo homem mais poderoso do planeta! Os senhores fazem ideia do que isso significa para um português?” Os olhos brilharam-lhe. “Os meus compatriotas é que ficariam espantados, haviam de se orgulhar de mim! E eu nem sou jogador de futebol!”
            Não adiantava. Tínhamos que deixar o Sr. Cebolo entregue ao seu destino.

28 de novembro de 2010

40º Episódio

O clone suicidou-se com um tiro na cabeça (o verdadeiro Hitler, antes de dar o tiro, colocou uma cápsula de cianeto na boca, a fim de se assegurar de que morria mesmo, tanto era o medo de sofrer às mãos do inimigo). O seu corpo foi reduzido a cinzas no crematório, para que dele não sobrasse nem um... prometo que o digo pela última vez: “nem um carvãozinho”.
            Ninguém pode prever o futuro, mas de uma coisa eu tinha a certeza: não mais haveria clones do Hitler... ou haveria? Afinal eu estou convencido de que um dia poderemos viajar no tempo. Cientistas meus amigos que se dedicam a esse tipo de projecto têm feito progressos, muitos dizem mesmo que o princípio que permitirá essas viagens é muito mais simples do que o que se imagina. Conclusão: o futuro ficará para sempre uma incógnita, ou, para usar uma expressão velhinha: o futuro a Deus pertence!
            Mas agora, qual era a minha situação e a da Chanel? Estávamos livres? O que pretendiam fazer os restantes nazis? Perante o mundo, eram inofensivos, mas era bem possível que endoidecessem de vez naquele bunker. Considerámos ir ter com o Sr. Cebolo e lembrá-lo de que ele e os seus compinchas já não precisavam de nós. Mas hesitávamos, pois aqueles que não eram de utilidade para os nazis eram, por princípio, executados.
            Meu Deus, mas quando acabaria aquele pesadelo? Comecei a sofrer de claustrofobia no maldito bunker. Sentia a falta das árvores, da erva, das plantas, do barulho das crianças a brincar, do ladrar dos cães, do zumbir das abelhas, do vento, da chuva, da cidade, do stress, de carros em excesso de velocidade, da poluição, de engarrafamentos, de programas de televisão estúpidos, de discussões com os vizinhos... de tudo! Tudo era preferível àquela catacumba! Apesar de lá ter sido tão feliz com a Chanel. Mas nós desejávamos uma vida em liberdade, livre de medos.
            Talvez devêssemos apenas partir. Sabíamos onde estavam os carros e chegaríamos lá depressa, nem sequer precisávamos de levar bagagem. Se o fizéssemos, alguém tentaria evitar que o conseguíssemos? Alguém nos daria um tiro?

26 de novembro de 2010

Intermezzo # 15



- Eh pá! Tens assim tanto frio?
- Frio? Eu tenho é calor, pr'áqui enchouriçado, puxa daqui, arrepenha dali... Um inferno!
- E porque não te rebelas contra esse colete-de-forças?
- Que queres? A dona tricotou-o, ela própria, cheia de amor e carinho...
- (suspiro) O que não se faz para agradar à família...

24 de novembro de 2010

39º Episódio

Durante dois dias o clone não saiu do seu quarto, nem recebeu qualquer visita, pelo que ninguém, nem mesmo o Sr. Cebolo, sabia em que estado ele se encontrava e o que a cabeça dele congeminava. Até que convocou uma reunião da Presidência.
            Surgiu ainda com pior aspecto e a tremer mais. Depois de se sentar na sua cadeira, declarou:
            “A situação é grave, meus senhores, muito grave.”
            Bem, aquilo já ele tinha dito, por isso continuávamos a aguardar ansiosamente pelo resto. Até que ele informou, muito dramático:
            “Os russos chegaram a Berlim. A guerra está perdida!”
            Olhámo-nos estupefactos, mas ninguém se atrevia a falar. Só o Führer:
            “Vivo, ou morto, não cairei nas mãos do inimigo. Farei aquilo que me resta fazer e desejo que o meu corpo seja cremado.” Fez uma pausa, o silêncio era absoluto. Depois, acrescentou: “É esta a vossa missão meus senhores: Cuidem para que de mim não reste um carvãozinho que seja!”
            Apesar da gravidade do momento, tive que cerrar os dentes, a fim de não desatar às gargalhadas. Ao contrário de mim, muitos dos outros choravam. Mas será que eles não notavam que a criatura descrevia uma situação que não se verificava? Uma situação acontecida há mais de 150 anos?
            O Sr. Cebolo soluçava como uma criança:
            “Não vamos então dominar o mundo?”
            “Não”, respondeu o clone. “Fomos traídos!” Nisto, bradou furioso, de punho cerrado: “Fui traído pelas minhas próprias tropas!”
            “Ai credo, meu Führer!”
            “É a verdade, homem! Tivessem os soldados dado o seu melhor e cumprido todas as minhas ordens, não sofreríamos nós esta derrota humilhante. Traíram-me!”
            Era eu realmente o único que sabia que o clone só dizia disparates?
            Assim que se acalmou, disse ainda:
            “Conto com os senhores para cumprirem o meu último desejo.”
            “Sim, meu Führer, fique descansado”, respondeu o Sr. Cebolo.
            O clone levantou-se com muito esforço e alguns dos presentes aproximaram-se dele, a fim de o ajudarem. Mas ele impediu-os com um gesto e saiu sozinho da sala.
            Encontrava-me como no início desta história: rodeado de nazis chorosos. Mas não pensava em chamar-lhes a atenção para o facto de que a situação desesperante descrita pelo Führer só existia na cabeça dele. Afinal, os nazis aceitavam a sua decisão de pôr fim à própria vida, o que me libertava de lhe dar a injecção ou de tentar encontrar outro caminho para terminar aquela loucura.
            A criatura destruir-se-ia a ela própria... pela segunda vez! Acabei por ganhar sentimentos de culpa. Tinha clonado aquele homem apenas para que ele tornasse a tomar aquela decisão difícil, vivendo novamente momentos tão angustiosos. Mesmo tendo em conta que se fizeram tantas barbaridades em seu nome, não chegava suicidar-se uma vez?
            E qual é a moral de toda esta história? Que é irresponsável e perigoso clonar seres humanos? Que nenhum de nós deve desempenhar um papel que só a Deus pertence? Bem, para dizer a verdade, isso seria moral a mais para o meu gosto. Como cientista, a minha ambição principal é a evolução da Ciência. No fundo, acho uma pena que o meu clone apenas tenha vivido algumas semanas e que o mundo não chegue nunca a tomar conhecimento daquele meu toque de génio.
            Ora, que se dane! Já não tinha ganho um prémio Nobel? O que é que eu queria mais? Apenas ser feliz com a Chanel e tornar a ver os meus filhos...
            Alto lá, que a história ainda não acabou!

21 de novembro de 2010

38º Episódio


Os membros da Presidência olhavam-se mais confusos do que nunca. Eu, pelo contrário, sentia a esperança crescer dentro de mim. O Sr. Cebolo respondeu:
            “Mas é claro que existe um mundo lá fora, meu Führer! Um mundo enorme, gigantesco, à nossa disposição. Não devemos perder mais tempo e...”
            “Então, onde estamos nós?”
            “No bunker, meu Führer! Quantas vezes já lhe dissemos? Encontramo-nos no bunker.”
            “No bunker!” repetiu a criatura, como se tivesse de repente encontrado o sentido da vida. “No bunker! Pois claro!”
            O que se passou a seguir, superou todas as minhas expectativas. Começou-se a operar uma transformação incrível no meu clone! Numa questão de segundos, rugas profundas cravaram-se no seu rosto, os olhos raiaram-se-lhe de vermelho e a repa descolou-se, caindo como que esgotada. Só com esforço a criatura conseguiu pousar as mãos em cima da mesa, tanto elas tremiam.
            “Mas que se passa consigo, meu Führer?” inquiriu o português consternado.
            Também eu não fazia ideia do que lhe tinha acontecido, mas a minha oportunidade havia finalmente surgido:
            “Eu sabia que era um grande erro prescindir do exame de rotina. O Führer precisa urgentemente de um medicamento, que eu, por acaso, trago…”
            “Cebolo!” Era a criatura que me interrompia, de voz tremente: “Ajude-me a regressar ao meu aposento!”
            “Sim... claro.”
            Lá se levantou, com a ajuda do português, mas aguentava-se tão mal nas pernas, que eu me preparei para também o ajudar. Era conveniente que ficasse junto dele, mas o Sr. Lacucaracha foi mais rápido. Apoiado no português e no mexicano, e sob o olhar consternado dos restantes, o clone deixou a sala. Eu segui os três. Chegados à porta do quarto, a criatura declarou:
            “Quero ficar sozinho. A situação é muito grave, meus senhores. Preciso de reflectir.”
            O Sr. Cebolo trocou um olhar comigo e propôs finalmente:
            “Não seria melhor que o seu médico o examinasse, meu Führer?”
            “Não! Ninguém ficará comigo, preciso de sossego absoluto. Trancarei a porta por dentro. E você, Cebolo, velará para que esteja sempre alguém a vigiá-la do lado de fora!”
            “Às suas ordens, meu Führer.”
            Ao contar à Chanel o sucedido, lamentei não lhe ter dado a injecção, mesmo contra a vontade dos outros, mas ela disse:
            “Foi melhor assim. Desconfio que se a injecção o matasse, tu não te perdoarias nunca.”
            “Pois sim, mas no fundo não estamos muito melhor do que o que estávamos. Mantém-se a imprevisibilidade da criatura, continuamos a recear o futuro.”
            “Bem, ela agora está realmente doente, o que fortalece a tua posição de médico perante os membros da Presidência.”
            Havia uma certa razão nas suas palavras. Mas a verdade é que, nem eu, nem ninguém, fazia a mais pequena ideia do que teria provocado a mudança no clone.

19 de novembro de 2010

Intermezzo # 14

Já é do conhecimento de muita gente, mas nunca é demais insistir!

E agora, eu pergunto: como é que pessoas ligadas à Medicina Veterinária podem pactuar com coisas destas?! Eu sei que não é fácil lidar com os montes de cães abandonados todos os dias em Portugal. Por outro lado, sempre pensei que se escolhia essa área por se gostar de animais e por se desejar proporcionar-lhes uma vida melhor! Que Professores são estes? Que Veterinários são estes?

Que vergonha para a Universidade de Évora! E para o País! E para todos nós!

Protestemos! Um telefonema, um fax, um email, tudo conta, quantos mais, melhor:

Universidade de Évora
Morada: Largo dos Colegiais 2, 7004-516 Évora
Telefone: +351 266 740 800
FAX: +351 266 740 831
Email: uevora@uevora.pt

Reitor: Carlos Alberto dos Santos Braumann
Morada: Largo dos Colegiais 2, 7004-516 Évora
Telefone: +351 266 740 800
FAX: +351 266 740 804
Email: gabreit@uevora.pt

Entretanto, a bastonária da Ordem dos Médicos Veterinários reagiu: ler aqui e aqui.

Laurentina Pedroso diz que "Tudo deve ser feito com grande rigor e com respeito pelo animal". Mas, "não existe regulamentação específica para a utilização destes animais no ensino. O que existe é a consciência de cada um, disse a responsável, para quem seria fundamental a matéria estar legislada".

Como se vê, ainda há muito a fazer. Protestemos!

17 de novembro de 2010

37º Episódio

Eu tinha um aspecto totalmente diferente! Meu Deus, dava muito nas vistas? Atacado por um pânico repentino, tentei encolher-me na minha cadeira. O meu receio era infundado? O meu comportamento ridículo? Estava completamente fora de mim, incapaz de pensar claro. Além disso, senti-me muito fraco. Tinha a ver com o facto de não ter tomado o pequeno-almoço? Ou estes malucos já me tinham posto doido?
Deu-me uma dor de barriga e, ao massajá-la, senti a seringa no meu bolso. A injecção redentora! Tinha que arranjar oportunidade de a dar à criatura. Porque é que o clone não era atingido por alguma fraqueza? Porque é que não lhe dava um ataque de tosse, ou de espirros, ou de caspa... sei lá, qualquer coisa. Imploro-te meu Deus!
“Estamos agora prontos para...”, lançou o Cebolo e eu assustei-me tanto, que aconteceu exactamente aquilo que eu procurava evitar: estremeci, atraindo todas as atenções! Fixavam-me, aqueles neuróticos, aqueles fanáticos, haveriam de me...
“Mas que diabo se passa hoje consigo?”
O clone olhava-me irritado. Acrescentou irónico:
“E está o senhor preocupado com o meu estado de saúde? Quer-me parecer que você, doutor, é que precisa de ajuda médica!”
Desataram todos às gargalhadas, eu limitei-me a um sorriso amarelo.
Assim que sossegaram, o clone virou-se para o Cebolo:
“O que é que o senhor se preparava para dizer?”
“Ah sim. Bem, meu Führer, estamos finalmente em condições de dominar o mundo, não é verdade?”
Todos os membros da Presidência fixaram olhares ansiosos no seu Führer. Mas este olhava-os siderado e declarou:
“Estamos em condições, não: nós já dominamos o mundo!”
Os nazis olharam-se confusos. Até que o português desatou novamente às gargalhadas. Todos o imitaram, excepto eu... e o clone.
“Mas que piada”, disse o Sr. Cebolo. “Uma boa piada, meu Führer, que só alguém que está prestes a atingir o seu objectivo supremo se pode dar ao luxo de fazer. Acho, contudo, que não nos devíamos precipitar e, sim, começarmos a ocupar-nos das coisas práticas. Não acham, meus senhores?”
Todos acenaram com a cabeça, excepto eu... e o clone.
O português prosseguiu, muito solene:
“Chegou a hora da verdade. Por mais perto que estejamos do nosso objectivo, ainda não o atingimos plenamente.”
“Como não?” perguntou a criatura. “Não mandei eliminar os seres supérfluos, a escumalha da humanidade?”
“Aqui, no nosso bunker, sim. Mas agora é o mundo lá fora que espera por nós!
“O mundo lá fora?” repetiu o clone.
Fixou o português durante vários segundos em silêncio... com o mesmo olhar vazio que ostentava quando acordou pela primeira vez. O que aliás não tinha um aspecto nada saudável. Chegara a oportunidade de lhe dar a injecção? Quando me preparava para falar, porém, falou o clone:
“O senhor pretende por acaso dizer que existe um mundo lá fora?”