Janela Indiscreta

Este blogue foi recomendado pelo Pedro Rolo Duarte no seu programa Janela Indiscreta, da Antena 1, a 28-07-2010.
A história chegou ao fim, foram 42 episódios ao longo de meio ano. Mas ela está cá toda, é só consultar o arquivo do blogue, começando em Julho de 2010. Ou escolha o episódio que quiser, utilizando a caixa de pesquisa, aqui ao lado.
À laia de motivação, aqui fica a republicação do 1º Episódio.

24 de novembro de 2010

39º Episódio

Durante dois dias o clone não saiu do seu quarto, nem recebeu qualquer visita, pelo que ninguém, nem mesmo o Sr. Cebolo, sabia em que estado ele se encontrava e o que a cabeça dele congeminava. Até que convocou uma reunião da Presidência.
            Surgiu ainda com pior aspecto e a tremer mais. Depois de se sentar na sua cadeira, declarou:
            “A situação é grave, meus senhores, muito grave.”
            Bem, aquilo já ele tinha dito, por isso continuávamos a aguardar ansiosamente pelo resto. Até que ele informou, muito dramático:
            “Os russos chegaram a Berlim. A guerra está perdida!”
            Olhámo-nos estupefactos, mas ninguém se atrevia a falar. Só o Führer:
            “Vivo, ou morto, não cairei nas mãos do inimigo. Farei aquilo que me resta fazer e desejo que o meu corpo seja cremado.” Fez uma pausa, o silêncio era absoluto. Depois, acrescentou: “É esta a vossa missão meus senhores: Cuidem para que de mim não reste um carvãozinho que seja!”
            Apesar da gravidade do momento, tive que cerrar os dentes, a fim de não desatar às gargalhadas. Ao contrário de mim, muitos dos outros choravam. Mas será que eles não notavam que a criatura descrevia uma situação que não se verificava? Uma situação acontecida há mais de 150 anos?
            O Sr. Cebolo soluçava como uma criança:
            “Não vamos então dominar o mundo?”
            “Não”, respondeu o clone. “Fomos traídos!” Nisto, bradou furioso, de punho cerrado: “Fui traído pelas minhas próprias tropas!”
            “Ai credo, meu Führer!”
            “É a verdade, homem! Tivessem os soldados dado o seu melhor e cumprido todas as minhas ordens, não sofreríamos nós esta derrota humilhante. Traíram-me!”
            Era eu realmente o único que sabia que o clone só dizia disparates?
            Assim que se acalmou, disse ainda:
            “Conto com os senhores para cumprirem o meu último desejo.”
            “Sim, meu Führer, fique descansado”, respondeu o Sr. Cebolo.
            O clone levantou-se com muito esforço e alguns dos presentes aproximaram-se dele, a fim de o ajudarem. Mas ele impediu-os com um gesto e saiu sozinho da sala.
            Encontrava-me como no início desta história: rodeado de nazis chorosos. Mas não pensava em chamar-lhes a atenção para o facto de que a situação desesperante descrita pelo Führer só existia na cabeça dele. Afinal, os nazis aceitavam a sua decisão de pôr fim à própria vida, o que me libertava de lhe dar a injecção ou de tentar encontrar outro caminho para terminar aquela loucura.
            A criatura destruir-se-ia a ela própria... pela segunda vez! Acabei por ganhar sentimentos de culpa. Tinha clonado aquele homem apenas para que ele tornasse a tomar aquela decisão difícil, vivendo novamente momentos tão angustiosos. Mesmo tendo em conta que se fizeram tantas barbaridades em seu nome, não chegava suicidar-se uma vez?
            E qual é a moral de toda esta história? Que é irresponsável e perigoso clonar seres humanos? Que nenhum de nós deve desempenhar um papel que só a Deus pertence? Bem, para dizer a verdade, isso seria moral a mais para o meu gosto. Como cientista, a minha ambição principal é a evolução da Ciência. No fundo, acho uma pena que o meu clone apenas tenha vivido algumas semanas e que o mundo não chegue nunca a tomar conhecimento daquele meu toque de génio.
            Ora, que se dane! Já não tinha ganho um prémio Nobel? O que é que eu queria mais? Apenas ser feliz com a Chanel e tornar a ver os meus filhos...
            Alto lá, que a história ainda não acabou!

7 comentários:

antonio - o implume disse...

Suprema ironia do génio! Mesmo clonados não escapamos ao nosso destino, será a moral desta história?

Kássia Kiss disse...

Não sei, neste caso, foi uma boa solução ;)

Mas isto de clones é complicado. Fica a pergunta: um clone terá a mesma personalidade do original? E o que forma a personalidade? Os genes? O ambiente?

Para responder quando houver seres humanos clonados... ;)

Daniel Santos disse...

acho bem que não tenha terminado.

jota disse...

E nestes dias por onde anda a Chanel?

A mim, parece-me que o cientista está a deitar foguetes antes do tempo. O nosso clone pode querer que o bunker o siga no seu triste fim...

Kássia Kiss disse...

Mas falta pouco para terminar, Daniel, não chega ao Natal...

Jota, sim, ainda há umas dúvidas para esclarecer.

Rafeiro Perfumado disse...

O pior é se a história entra em looping, com o professor raptado para clonar o novo carvãozinho...

Pata Negra disse...

Então o Hitler não é a personagem principal? Como sobreviverá uma história sem a sua personagem principal? Como pode o Hitler ser centro duma história e não ser a personagem principal? Afinal de contas a personagem principal desta história é quem? Estou a tremer porque não sei ler uma história sem personagem principal! Arranja-me Kassia uma personagem principal!

Contudo, mesmo sem personagem principal continuarei preso à história

Um abraço principalmente