Janela Indiscreta

Este blogue foi recomendado pelo Pedro Rolo Duarte no seu programa Janela Indiscreta, da Antena 1, a 28-07-2010.
A história chegou ao fim, foram 42 episódios ao longo de meio ano. Mas ela está cá toda, é só consultar o arquivo do blogue, começando em Julho de 2010. Ou escolha o episódio que quiser, utilizando a caixa de pesquisa, aqui ao lado.
À laia de motivação, aqui fica a republicação do 1º Episódio.

6 de outubro de 2010

25º Episódio

De repente, o clone virou-se para a sua esquerda, onde se encontrava a Dra. Luninski, também de pé. Observou-a longos momentos e depois... falou com ela! Sim, o meu clone falou! Eu era um génio!
E quais foram as suas primeiras palavras? Exactamente as mesmas que, tanto eu, como a Dra. Luninski, expressámos, quando nos tiraram a serapilheira das salsichas da cabeça:
“Onde estou?”
Agora, todos fixavam a sua atenção na Dra. Luninski. Ela sorriu embaraçada e acabou por dizer:
“Bom dia, Sr. Hitler... O senhor está... bem... no bunker, não é verdade?”
 “No bunker?”
O Sr. Kornflock pigarreou ruidosamente e declarou:
“Regozijo-me com a sua recuperação, meu Führer. O senhor esteve... doente.” Olhou-o examinador e acrescentou: “Lembra-se de alguma coisa?”
Depois de um momento de silêncio, o clone replicou:
“Doente?”
“Sim... mas já está bom. E nós estamos prontos para ouvir as suas ordens.”
“Ordens?”
O comandante ficou sem palavras. Preparava-me para intervir, quando se elevou o pio da Sra. Relot:
“O senhor é Adolf Hitler, o nosso Führer!”
A criatura fixou-a, a seguir soltou:
“Ai sou?”
Parecia não se lembrar de nada. Quase se podia apalpar a desilusão que os nazis emanavam. Eu sentia alívio. Pelos vistos, a Dra. Luninski e eu tínhamos criado um clone inofensivo. O que aliás podia acarretar más consequências, pois aqueles fanáticos haveriam de descarregar a sua frustração em cima de nós. Talvez conseguíssemos acalmá-los, dizendo-lhes que o seu amado Führer apenas precisava de ser novamente introduzido na ideologia nazi. Com isso, ganharíamos pelo menos algum tempo, enquanto não me surgisse uma nova ideia.
Infelizmente, alegrara-me cedo demais. E afinal eu, melhor do que ninguém, devia saber que a Sra. Relot, apesar de possuir um cérebro inútil, era persistente:
“O senhor precisa de nos dar as suas ordens, meu Führer? Como poderemos nós nazis de outra maneira dominar o mundo?”
O rosto do clone endureceu e ele repetiu:
“Nazis! Dominar o mundo!”
Saltou da cadeira.
Quem já viu os tais filmes antigos, sabe que o Hitler tinha uma maneira muito peculiar de fazer os seus discursos: gesticulava enérgico com o seu braço direito, em movimentos duros, fazendo o corpo balançar-se rígido, descontrolando a repa.
Desta vez, porém, não lhe saía um discurso fluido, limitava-se a lançar as suas palavras de ordem preferidas:
“Dominar o mundo... a nação alemã... os nossos soldados combatem numa guerra gloriosa... eliminar o inimigo!” Neste ponto, elevou o tom: “Eliminar o inimigo... todos os inimigos... a escumalha da humanidade!”
Os nazis explodiram em aplausos. A Dra. Luninski e eu olhámo-nos assustados. O clone prosseguiu:
“Campos de concentração para a escumalha da humanidade! A raça ariana vencerá!”
Reparei que o medo na face da Dra. Luninski se transformava em indignação e raiva.
“Os arianos, descendentes dos antigos germânicos, são uma raça superior!”
Os olhos da Dra. Luninski fulminavam-no furiosos. Eu só rezava para que ela se controlasse e mantivesse a boca fechada. O clone lançou:
“Por isso, ordeno que...”
Que, o quê? Neste preciso momento, a criatura interrompeu-se. Os nazis esperavam suspensos pela fórmula que lhes permitia dominar o mundo. Eu estava à beira do pânico.
A criatura não prosseguia, fixava o vazio. O que me encheu de esperança. Parecia mesmo que estava prestes a tornar a cair na cadeira, adormecendo.

7 comentários:

jota disse...

Espectáculo! Vai falar e... adormece. Bem feito, nazis de segunda! Eh eh eh

antonio - o implume disse...

A contrafacção não compensa... mas a história promete. E se alguém com um discurso desconexo chegar a dominar o mundo? (Não, não é uma piada ao Sócrates)

Zé Povinho disse...

Então o clone já fala? Bem, vamos lá a ver se não vai ser pretexto para mais uma guerra...
Abraço do Zé

Daniel Santos disse...

interessante... terão de facto ter clonado a mente?

Pata Negra disse...

Boa história a caminho dum destino incontornável: Impossível repetir-se a História!

Um abraço escaldado

mdsol disse...

Schöne Kassia:

Eu passo aqui e leio a correr. Confesso. Quando tiver mais tempo lerei com mais cuidado.

:)))

Rafeiro Perfumado disse...

Não sei se os nazis da sala se lembram, mas pelas últimas ordens do Fuher perderam a guerra. Um clone levará o mesmo caminho...