Janela Indiscreta

Este blogue foi recomendado pelo Pedro Rolo Duarte no seu programa Janela Indiscreta, da Antena 1, a 28-07-2010.
A história chegou ao fim, foram 42 episódios ao longo de meio ano. Mas ela está cá toda, é só consultar o arquivo do blogue, começando em Julho de 2010. Ou escolha o episódio que quiser, utilizando a caixa de pesquisa, aqui ao lado.
À laia de motivação, aqui fica a republicação do 1º Episódio.

17 de outubro de 2010

28 º Episódio

Escusado será dizer que o Sr. Cebolo logo aproveitou a oportunidade para “forrar o estômagozinho”. Enquanto enfiava a ponta do guardanapo desdobrado no colarinho, a fim de o usar como babete, dizia, satisfeito:
“O segredo deste prato é o ovo a cavalo! O ovinho estrelado é que lhe dá o sainete!”
Assim deixámos o clone em amena cavaqueira com o português e eu suspirei de alívio ao chegar ao laboratório. Contudo, o stress das últimas horas estava longe de ser superado e eu só conseguia pensar no medo que tive em perder a Dra. Luninski. Adoptei, por isso, um tom muito mais censório do que tencionava, assim como um adulto ralha a uma criança:
“Quantas vezes já lhe disse que tivesse cuidado com aquilo que diz?”
“Ora, não querem ver?” replicou ela irritada. “Já cá faltava o seu lado machista.”
“Quando é que se vai convencer de que eu não sou nenhum machista?”
“Ai é! Finge é muito bem!”
“Fingir, eu? Sempre fui muito sincero, minha senhora, nunca precisei de artifícios desses, graças a Deus.”
“Pois saiba que o senhor foi a primeira pessoa na minha vida que me apelidou de sirigaita. Aliás, se bem me lembro, também já me chamou de tipa. Desculpar-se, seria o mínimo que revelaria um pouco de educação da sua parte.”
“Deverei por acaso desculpar-me por lhe ter salvo a vida?”
“Como pode ter tanta certeza disso?”
“Então já não se lembra de como enfureceu a criatura?”
“A criatura está completamente confusa!”
“O que a torna ainda mais imprevisível.”
“Seja como for. Não era razão para me chamar de sirigaita!”
Aquela mulher fazia-me perder as estribeiras. Logo me havia eu de apaixonar por uma feminista orgulhosa, que nem sequer correspondia ao meu tipo!
“Como queira”, lancei irritado. “A partir de agora, deixarei de tomar conta de si!”
“Como se eu precisasse! Desde os dezoito anos que vivo a minha vida, não preciso que ninguém tome conta de mim! Que alívio, o nosso trabalho em conjunto ter terminado!”
“O que está ainda aqui a fazer no meu laboratório? Foi um dia esgotante e preciso de descanso.”
“Oh, peço desculpa por ter perturbado a sua alma sensível, Sr. Professor!”
“Desapareça de vez!”
“Não vejo a hora de lhe virar costas”, replicou ela, dirigindo-se à porta.
Naquele ponto, perguntei-me como fora possível deixar-me enredar em tal discussão, quando, ainda há minutos, ponderava fazer-lhe uma declaração de amor. Mas era melhor assim, éramos demasiado diferentes um do outro. E ela com certeza ainda pensava no canalha do Karl.
Observei, cheio de arrependimento, os caracóis negros sobre a bata branca, enquanto ela se aproximava da porta.
Antes de a abrir, porém, ela tornou a virar-se. Enfiou as mãos nos bolsos da bata, mas logo as tornou a tirar e começou a esfregá-las uma na outra, enquanto lançava um olhar embaraçado pelo laboratório. Depois, aclarou a garganta e disse, sem me encarar:
“Bem... se a sua principal intenção foi a de me salvar a vida... é claro que lhe agradeço.”
Senti-me de repente tão emocionado, que a voz me saiu rouca:
“Ora, não foi nada...”
“Foi sim. O senhor tem razão: a criatura é imprevisível. E, por mais absurdas que forem as ordens que saírem da sua boca, os malucos dos nazis apressar-se-ão a cumpri-las.”
“Sim”, suspirei, “temos que contar com isso.”
“Vendo as coisas por esse lado, foi uma atitude corajosa da sua parte, que lhe poderia ter custado a própria vida.”
“O melhor é esquecermos toda esta...”
“Porque o fez?”
Só havia uma resposta àquela pergunta. E, apesar de aquela situação não ser a mais apropriada para fazer uma declaração de amor, e esta poder arruinar a nossa amizade, confessei:
“Porque... a amo, Dra. Luninski.”
“O quê?!”
A estupefacção dela superou as minhas piores suspeitas. Mas agora nada mais me restava do que abrir o jogo:
“A verdade é que me apaixonei por si... Sinto muito.”
“Mas porquê?”
“Ai, isso não sei... São coisas que acontecem, não é verdade?” Adoptei um sorriso patético, numa tentativa de soar engraçado: “Até nós, os génios da Ciência, não conseguimos explicar o amor.” Meu Deus, que saída tão gasta!
“Não, o que eu queria dizer é: porque é que sente muito?”
“Ai isso... Bem, porque você ainda não esqueceu o karnalh... o canalha... oh, desculpe... esse Karl.”
“Karl?” repetiu ela e eu notei como os olhos lhe brilhavam à mera menção daquele nome.
Malditas reacções químicas! Porque tinha eu tocado no assunto? Porque me sujeitava àquilo?

4 comentários:

O Guardião disse...

As fraquezas (?) humanas também atigem os génios...
Cumps

antonio - o implume disse...

Com efeito os homens sofrem. E confirmo, nós, os génios, também temos as nossas fraquezas.

Kássia Kiss disse...

Claro ;)

Daniel Santos disse...

avançou e em força... deixou de analisar e seguiu o coração... gostei.