Janela Indiscreta

Este blogue foi recomendado pelo Pedro Rolo Duarte no seu programa Janela Indiscreta, da Antena 1, a 28-07-2010.
A história chegou ao fim, foram 42 episódios ao longo de meio ano. Mas ela está cá toda, é só consultar o arquivo do blogue, começando em Julho de 2010. Ou escolha o episódio que quiser, utilizando a caixa de pesquisa, aqui ao lado.
À laia de motivação, aqui fica a republicação do 1º Episódio.

10 de outubro de 2010

26 º Episódio

Mas, pelos vistos, o Sr. Kornflock achava-se incapaz de aguentar o suspense e encorajou o homem:
“O senhor, meu Führer, ordena que…”
Ele reagiu:
“Ordeno que todos aqueles, que não possuam as características arianas, sejam eliminados!”
Com mil milhões de núcleos celulares, confirmavam-se as minhas piores suspeitas! Mas apercebi-me de uma coisa curiosa: caso aqueles nazis obedecessem a esta ordem, teriam que eliminar muitos deles! O Sr. Lacucaracha, um dos homens mais morenos que eu já vira, parecia atingido pelo mesmo receio, pois atreveu-se a inquirir:
“Tem a certeza, meu Führer?”
“Se tenho a certeza? Naturalmente! Todos aqueles que não sejam louros, altos e...”
“Então, teremos que o eliminar também a si!”
Com triliões de pipetas, a Dra. Luninski não se tinha controlado! Mas o que lhe passara pela cabeça? Como se atrevia ela a provocar aquele psicopata?
“Eliminar-me a mim? Mas que atrevimento é este?”
“Olhe por si abaixo! É louro e alto? Sinceramente!”
Ele fixava-a irado. Apesar de os outros nazis estarem igualmente indignados, não se manifestavam, deixando a resolução do contratempo a cargo do seu Führer.
A Dra. Luninski devolvia o olhar resoluto ao clone. Ao pensar que ela estaria prestes a ser executada, eriçaram-se-me os pelos do cachaço, fui atingido por suores frios, senti falta de ar, tremi como varas verdes e... descobri algo que, numa fracção de segundo, virou a minha vida do avesso: eu estava perdidamente apaixonado por aquela mulher!
Não restava a menor dúvida, amava-a intensamente. Naquele momento, teria sacrificado todo o meu saber científico, para estar com ela e os meus filhos na minha casa de férias. E... não, ela não iria perturbar o idílio familiar, pois a Amanda não teria lá lugar, seria aliás a minha ex-mulher quem estragaria o idílio. Via-me a pescar com o Maddox, enquanto a Dra. Luninski nadava com a Dahlia. Ao serão, faríamos um churrasco de peixe na varanda com vista para o lago. E, quando as crianças já estivessem a dormir, eu e a Dra. Luninski teríamos todo o tempo do mundo para nós...
Este desejo tomou conta de mim, apertou-me o estômago, o peito e a garganta. Tentei falar, mas as palavras não me saíram. Tinha, contudo, que fazer alguma coisa, antes que a criatura expressasse a ordem fatal.
Felizmente, o clone continuava a fixar a Dra. Luninski estupefacto. Fiz um grande esforço para soltar a garganta e, de repente, resultou:
“Não!”
O clone virou-se para mim. O pior é que eu não fazia ideia de como continuar e comecei a gaguejar como um idiota:
“Desculpe, Sr. Hitler... Führer... quero dizer…”
Meu Deus, que fazer? O melhor era tentar intimidar o homem, implorar-lhe podia dar mau resultado. Adoptei a expressão mais arrogante que me era possível e lancei:
“O senhor não pode levar uma sirigaita dessas a sério!”
Aquilo saiu-me: sirigaita. Só esperava que a Dra. Luninski conseguisse encaixar a tirada. Mas até o clone se admirou com o despropósito:
“Sirigaita? É assim que o senhor trata uma médica? A sua própria colega?”
Pigarreei e retorqui:
“Bem... na verdade estamos os dois assim um pouco... como hei-de dizer... fartámo-nos de trabalhar... para lhe salvar a vida... tanto eu como ela...”
“Mas o que é que o senhor está para aí a babujar?” Era a voz do Sr. Kornflock. “Logo agora, que o nosso Führer se preparava para nos transmitir a sua mensagem, tinham vocês os dois que se meter no assunto! Estão a ficar atrevidos demais para o meu gosto.” Olhou-nos ameaçador. “E, ou eu me engano, ou já não precisamos de vocês para nada!”

7 comentários:

antonio - o implume disse...

Um homem apaixonado que pensa em assar peixe no alpendre de uma cabana... que romântico.

Mas realmente concordo com o Sr. Kornflock, eles intrometeram-se na mensagem política e neste momento isso é o mais importante. Fale meu führer. Meu Sócrates (não consegui evitar...)

Kássia disse...

Caro implume, eu sou uma romântica...

Espero não ter desiludido alguns dos leitores deste blog ;)

Enfim, nem tudo estará perdido. Agrada-me esta mistura de paixões assolapadas e, digamos, mensagens políticas dúbias... Por isso, escolhi este momento para que o Professor fizesse a sua descoberta.

Há.dias.assim disse...

Boa semana!

fallorca disse...

Isto vai dar treta da grossa, ai isso vai. Fiufiu...

Daniel Santos disse...

eu apreciei este capitulo. Vamos ver se o casal sobrevive...

Rafeiro Perfumado disse...

Isto ainda vai terminar como aquelas seitas radicais, suicídio colectivo. Sirigatita? O tipo tem mesmo o dom da sedução...

Pata Negra disse...

O conhecimento científico e o trabalho não valem nada ao lado de uma refeição de peixe grelhado no alpendre com vista para o lago! Abaixo a república, vivam as mulheres!