Janela Indiscreta

Este blogue foi recomendado pelo Pedro Rolo Duarte no seu programa Janela Indiscreta, da Antena 1, a 28-07-2010.
A história chegou ao fim, foram 42 episódios ao longo de meio ano. Mas ela está cá toda, é só consultar o arquivo do blogue, começando em Julho de 2010. Ou escolha o episódio que quiser, utilizando a caixa de pesquisa, aqui ao lado.
À laia de motivação, aqui fica a republicação do 1º Episódio.

13 de outubro de 2010

27 º Episódio

Estávamos perdidos!
Porém, depois de me lançar um olhar, a Olga intrometeu-se:
“Deixemos o Führer decidir!”
Tentava ela ajudar-nos? De qualquer maneira, deu-me coragem e tornei a dirigir-me à criatura:
“Lembre-se que fomos nós os dois que lhe salvámos a vida e...”
“Acabou-se!” berrou o Sr. Kornflock. “Meu Führer, por favor, diga alguma coisa, seja o que for! Cumpriremos imediatamente a sua ordem.”
O clone, que, pelo menos assim me pareceu, começava a encarar-me com simpatia, tornou a endurecer as feições. Convenci-me de que o nosso fim estava próximo. Deveria revelar os meus sentimentos à Dra. Luninski? Era a minha última oportunidade, esperaríamos com certeza em celas separadas pela nossa execução.
Estava prestes a cair-lhe aos pés, quando a criatura lançou:
“A minha ordem é... um espelho!”
Ãh?! Teria ouvido bem?
Pelos vistos, sim. Todos os outros pareciam tão perplexos quanto eu.
Passaram-se vários segundos sem que ninguém abrisse a boca, até que o Sr. Kornflock se decidiu:
“Um... espelho, meu Führer?”
“Exactamente.”
“Mas... que significa isso?”
“Parece impossível”, retorquiu o clone naquela sua maneira tesa de balançar, que lhe punha a repa fora de controlo. “Então o senhor não sabe o que é um espelho? Contava com mais perspicácia da sua parte, não tem cara de burro.”
Achei piada à expressão ofendida do Sr. Kornflock e ao facto de ser ele, o comandante, a levar o primeiro raspanete do seu amado Führer.
Continuávamos todos, porém, sem saber o que dizer ou fazer e o clone bradou:
“De que estão à espera?” Apontou para a Sra. Relot: “Você aí! Arranje-me já um espelho! Despache-se!”
“Às suas ordens, meu Führer!”
A francesa saiu da sala, a criatura sentou-se na sua cadeira e todos nós esperámos. Até que a Sra. Relot surgiu com um espelho redondo de cabo, que depositou com uma pequena vénia nas mãos do Führer. O clone examinou o seu reflexo deveras interessado. Depois, virou-se para a Dra. Luninski:
“Uma destas, a senhora tem razão! Tenho um aspecto bem diferente!”
Ela encolheu os ombros, sorrindo um pouco embaraçada. O clone tornou a mirar-se no espelho e acrescentou:
“Mas que perspicácia! A Dra. Luninski é uma pessoa extremamente inteligente. Ainda bem que fui parar às suas mãos, quando adoeci.”
A minha adorável colega presenteou-me com um piscar de olho... o mais bonito que eu já vira em toda a minha vida. Em seguida, disse:
“No fundo, não fiz mais do que seguir as orientações do Dr. Solani.”
A criatura virou-se para mim:
“Ah, Dr. Solani! Os senhores são os dois óptimos médicos. Os meus parabéns.”
“Obrigado”, balbuciei.
O clone depositou o espelho em cima da mesa e confessou com uma sinceridade desarmante:
“Pois eu agora não sei que ordens hei-de dar!”
Os nazis trocaram olhares desolados. Até que o português, ensaiando o seu sorriso mais largo, propôs ao seu Führer:
“Do que o senhor precisa é de encher essas peles!”
Os outros nazis fixaram-no perplexos, o comandante repetiu abespinhado:
“Encher as peles?!“
“Deixa-te dessas coisas, Zé”, lançou-lhe a Olga. “Fala de maneira a que a gente te entenda!”
“Ora, o que eu quis dizer foi que o nosso Führer precisa de se fortalecer, com uma boa refeição. Está magrinho e amarelo, pelos vistos, ainda não recuperou totalmente da sua doença. Um bifinho com um ovo a cavalo, acompanhado de uns copos de tinto, vinha mesmo a calhar.”
“É precisamente isso”, lançou o clone impressionado. “Dou agora conta que estou cheio de fome. O senhor leu-me os pensamentos, Sr. …”
“José Cebolo, um seu criado.”
“Seguirei o seu conselho e reflectirei sobre o meu próximo passo.” Acrescentou, em voz de comando: “Dra. Luninski e Dr. Solani, acompanhem-me ao meu aposento! Sr. Cebolo, arranje-me lá o bife e esse tinto!”
“Às suas ordens, meu Führer.”
A caminho do seu quarto, a estranha criatura confessou-nos:
“Manterei médicos tão bons como os senhores a meu lado.”

9 comentários:

antonio - o implume disse...

Este Hitler tem uma costela portuguesa... antes de decidir qualquer coisa vai aos morfes.

jota disse...

Estão safos os nossos heróis. Agora que venha o rapasto e com o tintol o clone ainda vai mandar extreminar o povo ariano, que na realidade não existe. :)

Kássia disse...

Implume, sim, o Zé Cebolo ensina umas coisas ao Hitler...

Jota, realmente não há um povo ariano, como não há um povo germânico.

antonio - o implume disse...

Tu ainda vais revelar que o Hitler foge do bunker, faz um plástica e muda o nome para Sócrates.

Daniel Santos disse...

estou desconfiado que... é melhor esperar para ler.

Rafeiro Perfumado disse...

Acho que a primeira ordem dele vai ser inviabilizar o Orçamento de Estado para 2011...

fallorca disse...

«“Do que o senhor precisa é de encher essas peles!”»
Claro, comer uma boa tibornada... já agora, onde é a horta dele, por mor das couves? ;)

Há.dias.assim disse...

passei para desejar bom fim-de-semana.
Ando com muito pouco tempo para escrever e responder aos comentários...
As minhas desculpas.

fallorca disse...

Há dias assim, às vezes, lá calha...