Janela Indiscreta

Este blogue foi recomendado pelo Pedro Rolo Duarte no seu programa Janela Indiscreta, da Antena 1, a 28-07-2010.
A história chegou ao fim, foram 42 episódios ao longo de meio ano. Mas ela está cá toda, é só consultar o arquivo do blogue, começando em Julho de 2010. Ou escolha o episódio que quiser, utilizando a caixa de pesquisa, aqui ao lado.
À laia de motivação, aqui fica a republicação do 1º Episódio.

29 de setembro de 2010

23º Episódio

Assim nos encontrávamos os três na manhã seguinte à cabeceira da cama do clone. Escusado será referir a nossa ansiedade, causada aliás por motivos diferentes. O Sr. Kornflock, por exemplo, pálido e teso como nunca, esperava o ressuscitar do seu Führer, na companhia do qual ele tencionava dominar o mundo. Para mim e a Dra. Luninski, aquele momento significava o culminar de uma experiência científica única.
Administrei-lhe a injecção que o faria despertar do coma. Demoraria apenas dez minutos. Mas todos nós conhecemos situações em que cada minuto se transforma numa eternidade.
Exactamente dez minutos e um segundo depois, os olhos do clone abriram-se. Esperámos suspensos mais uns momentos, mas a criatura não fazia mais nada a não ser fixar o tecto sobre si. O Sr. Kornflock lançou-me um olhar interrogativo e a única solução que se me apresentou foi aproximar-me do clone e perguntar-lhe baixinho:
“Bom dia... Sr. Hitler. Está a ouvir-me?”
Os olhos escuros moveram-se lentamente, até pousarem em mim: um olhar vazio, que não me dizia nada. Aclarei baixo a garganta e acrescentei o que tinha combinado com os nazis:
“Chamo-me Solani e sou o seu médico. Ouve-me? Consegue falar?”
Não se operou qualquer alteração naquele olhar vazio. E a boca por baixo do bigode ridículo manteve-se fechada.
O Sr. Kornflock empurrou-me para o lado e dirigiu-se ele próprio com voz tremente ao clone:
“É para mim uma grande alegria constatar que recuperou a consciência, meu Führer.”
À palavra Führer, as pestanas da criatura tremelicaram, o que também podia ter sido obra do acaso, pois não se seguiu qualquer outra reacção. O Sr. Kornflock acrescentou (dizendo também algo que havíamos combinado previamente):
“O senhor esteve muito doente, quase o perdemos. Mas o Dr. Solani e a sua colega Dra. Luninski conseguiram curá-lo.”
Esperámos longos minutos pelas primeiras palavras do clone... em vão.
O Sr. Kornflock puxou-me irritado para um canto do quarto e sibilou-me:
“Mas que significa isto?” O homem parecia à beira do colapso. “Porque é que o Führer não diz nada? Não nos consegue ouvir?”
“Sinto muito, mas não encontro explicação para tal.”
“E que sugere, então?”
“Continuemos à espera. Ele está vivo. Há-de mexer-se ou dizer alguma coisa.”
Não naquele dia! Observámo-lo o tempo todo, mas a criatura quase se limitou a fixar o tecto. Só deslocava o seu olhar vazio quando alguém se movia a seu lado, mais nada.
Ao fim da tarde, o comandante, que se tinha ausentado por duas horas, surgiu, perguntando por novidades. E como não havia nada para lhe dizer, o homem retorquiu inchado:
“Tudo isto só prova que eu tinha razão!”
Contraiu-se-me o estômago. Estava convencido que o Sr. Kornflock confirmava a sua suposição de que eu era um incompetente, ou seja, dispensável. Já me via a caminho da câmara de gás. O comandante limitava-se a fixar-me através dos óculos redondos, parecia gozar o meu pânico.
O silêncio dele tornou-se-me insuportável. Reuni toda a minha coragem e repliquei, o mais seguro possível:
“Podia fazer o favor de se explicar melhor?”
“O Führer precisa de um ambiente familiar à sua volta.” (Escondi o meu alívio o melhor possível). “É levá-lo à Sala da Presidência, para que possa ser saudado à maneira nazi! Assim se sentirá ele em casa.”
Como não me ocorria mais nada, concordei, mas sugeri ainda:
“Hoje já não. Apesar de ele não ter dito nada, nem sequer se ter mexido, esteve o dia todo acordado e devia dormir.”
“Acha que conseguirá adormecer?”
“É difícil de dizer... O melhor é dar-lhe um calmante.”
“De acordo. E amanhã será guiado bem cedo à nossa presença!”

6 comentários:

antonio - o implume disse...

Dizem que os reis eram tímidos na sua intimidade. Só se soltavam quando estavam reunidos da sua corte. Quem sabe? Gostei do acordar do monstro.

Daniel Santos disse...

Podem até terem clonado o homem, mas parece-me que não consigam clonar a mente.

Pata Negra disse...

Mas o clono-nascido já trazia o bigode aparado e os galões?! Começo a desconfiar que isto é uma história inventada. Á cautela, não e arranjam um ficha de inscrição na gestapo.

Um abraço na fila de leitura

Zé Povinho disse...

Espero que a experiência não dê certo, senão teremos por aí clones de indesejáveis de todas as espécies.
Abraço do Zé

Kássia Kiss disse...

A história é verídica, caro Pata Negra. Só que ainda não aconteceu, tem que se esperar até ao século XXII, onde coisas dessas são possíveis, sim ;)

Rafeiro Perfumado disse...

Na volta sentia era a falta da Eva...