Janela Indiscreta

Este blogue foi recomendado pelo Pedro Rolo Duarte no seu programa Janela Indiscreta, da Antena 1, a 28-07-2010.
A história chegou ao fim, foram 42 episódios ao longo de meio ano. Mas ela está cá toda, é só consultar o arquivo do blogue, começando em Julho de 2010. Ou escolha o episódio que quiser, utilizando a caixa de pesquisa, aqui ao lado.
À laia de motivação, aqui fica a republicação do 1º Episódio.

19 de setembro de 2010

20º Episódio

Tudo corria bem, para ser mais exacto, melhor do que eu esperara, graças à colaboração da Dra. Luninski. Mas falarei sobre isso mais adiante. Também não vou perder tempo a descrever o projecto científico em detalhe, com montes de palavras técnicas, que só especialistas entendem. Bastará dizer que conseguimos extrair a informação genética do carvãozinho, criando células que na incubadora logo se começaram a multiplicar. Fiquei entusiasmado, afinal podia dar azo à minha criatividade, sem limites, clonando um ser humano que morrera há quase 200 anos, ou seja, vivia a realização de um sonho de qualquer cientista que se preze. Num caso desses, não há lugar para pesos de consciência.
Falarei agora da Dra. Luninski. Ela tivera razão: era o melhor que me podia ter acontecido! Até era mal-empregada como assistente, devia ser cientista por conta própria, desenvolvendo as suas ideias e criando os seus projectos. A ideia base para este procedimento, que me surgiu ainda antes de acabar o curso e que só era conhecida no meu laboratório, também ela a tinha tido e quase disso havia informado o Professor Saturnino. Apenas os problemas do seu foro privado a impediram de o fazer, principalmente a partir do momento em que já desconfiava que não ficaria muito tempo a trabalhar para o meu prestigiado colega.
Passaram-se quatro semanas. No início de Março, estando eu a examinar a holografia da multiplicação das células... Bem, interrompo este relato e ponho a minha modéstia de parte, afirmando que me sentia um verdadeiro génio! Era simplesmente fascinante observar como a minha invenção possibilitava de facto o surgimento de um ser humano adulto. Apesar de a imagem que se desenrolava à minha frente se assomar horrível para um leigo, aos meus olhos ela era linda como um poema.
Estando a observar a holografia, dizia eu, entrou a Dra. Luninski no laboratório. Vinha a abanar a cabeça. Eu sabia que ela regressava de uma reunião com o Sr. Kornflock, onde o havia informado dos nossos progressos. Como vinha com cara de caso e como eu sabia quão imprevisível o homem era, perguntei:
“O comandante não está satisfeito?”
“Está... Eu é que tenho dificuldades no meio disto tudo.”
Oh diabo, pensei. Pelos vistos, a consciência começava a pesar-lhe. Normalmente, quando nós cientistas não conseguimos pôr a razão à frente da emoção, ficamos deprimidos, o que nos impede de trabalhar. No ponto em que se encontrava o nosso projecto, isso seria catastrófico, por isso retorqui:
“Descontraia-se! Neste bunker ninguém quer ouvir falar de ética e...”
“Não é isso.” Sentou-se a meu lado, em frente à imagem. “Esta gente não pode ser nazi.”
“Ora essa!”
“Pertencem a grupos étnicos diferentes, enquanto o Hitler pregava a supremacia da raça ariana. Não é preciso ter ganho o prémio Nobel para perceber que não dá a bota com a perdigota.”
Ergui os ombros e retorqui:
“A verdade é que a ideologia hitleriana arranjou adeptos no mundo inteiro, logo a seguir à morte do sujeito. Até nos países que sofreram os horrores do nazismo.”
“Mas isso não faz sentido.”
“O que prova que só gente psicologicamente afectada, ou numa extravagância da juventude, se pode entusiasmar por uma aberração dessas.” Baixei a voz: “Estes nossos compinchas são já bem crescidotes, por isso, nunca se esqueça que todos eles, por mais simpáticos que alguns nos pareçam, devem padecer de um bloqueio psicológico qualquer, que os impede de distinguir o absurdo do razoável. Tenha muito cuidado com tudo aquilo que diz!”

6 comentários:

antonio - o implume disse...

Ah. Bem agora fiquei na espectativa. Já estava habituado a esta ideia dos nazis...

Zé Povinho disse...

É óbvio que algo está muito errado na doutrina nazi, começando pelo facto de proliferar entre diversos grupos étnicos, mas a estupidez é algo de muito errado, também.
Abraço do Zé

Daniel Santos disse...

interessante curva... gostei.

Pata Negra disse...

Estou a ler. Vou por o marcador.
Até

Kássia disse...

Para todos: um big kiss da Kássia ;)

Rafeiro Perfumado disse...

Eu topei isso no primeiro episódio e não sou cientista! :D