Janela Indiscreta

Este blogue foi recomendado pelo Pedro Rolo Duarte no seu programa Janela Indiscreta, da Antena 1, a 28-07-2010.
A história chegou ao fim, foram 42 episódios ao longo de meio ano. Mas ela está cá toda, é só consultar o arquivo do blogue, começando em Julho de 2010. Ou escolha o episódio que quiser, utilizando a caixa de pesquisa, aqui ao lado.
À laia de motivação, aqui fica a republicação do 1º Episódio.

26 de setembro de 2010

22º Episódio

A criatura ia ganhando forma, na sua incubadora, enquanto as funções vitais eram asseguradas pelo computador. Em meados de Abril, começou a ganhar os traços da figura que eu vira nos filmes. As fases críticas sucediam-se em catadupa, pois nem todos os órgãos estavam ainda completos. Por isso, a mantínhamos num coma controlado. Acordando cedo demais, o pobre sofreria martírios inimagináveis, antes de bater a bota... pela segunda vez!
À medida que o entusiasmo inicial assentava, a nossa consciência enchia-nos de contradições: por um lado, era a criação de um ser humano que tanto mal trouxera ao mundo; por outro, orgulhávamo-nos do nosso trabalho. Um trabalho que se revelava tão harmonioso, que eu já decidira: caso saíssemos dali vivos, a Dra. Luninski teria emprego assegurado no meu laboratório de Los Angeles. As fantasias eróticas, que de vez em quando me atacavam, desapareceriam, assim que eu estivesse novamente com a Amanda e a Dra. Luninski tivesse encontrado um outro namorado que a fizesse esquecer o canalha do Karl.
Apesar da evolução do clone permanecer crítica, nós os dois pouco mais tínhamos que fazer do que observá-lo, a fim de actuarmos com a maior urgência em caso de necessidade. Por isso, conversávamos muito, sobretudo sobre a Primavera a que não assistíamos. Fiquei a saber que a Dra. Luninski gostava muito de nadar, tal e qual como a minha filha. Quando lhe disse que havia de a convidar para a minha casa do lago, os olhos iluminaram-se-lhe. Mas logo a seguir pôs uma expressão contrariada, dizendo que só iria estorvar no idílio familiar.
“É claro que convidarei também o seu namorado”, disse-lhe eu.
Ela abriu muito os lindos olhos:
“O meu namorado?!”
“Uma mulher bonita como você depressa encontrará...”
“Mudemos de assunto, Professor!”
Coitada, ainda não tinha esquecido o canalha.

Em fins de Abril, provocámos grande euforia no bunker ao informar que o projecto estava praticamente concluído. Já tínhamos tirado o clone da incubadora e deitado numa cama, apesar de o mantermos em coma e o computador ainda lhe amparar as funções vitais. Eu injectei-lhe um chip microscópico na veia, como faz o médico: o chip forneceria, durante dois dias, informações sobre todos os órgãos, antes de se degradar biologicamente.
Resultado do exame: tudo em ordem, podíamos desligá-lo da máquina e acordá-lo. A Dra. Luninski e eu reunimo-nos na chamada Sala da Presidência com o Sr. Kornflock e os restantes seis membros que dela faziam parte. O acordar da criatura era um passo deveras arriscado e não podíamos assegurar que sobrevivesse ao choque. Por isso, eu era de opinião que o clone devia ser acordado deitado na sua cama, sem ter muita gente à volta. A minha colega e eu teríamos obviamente que estar presentes, mas, além de nós, apenas o comandante seria aconselhável.
A minha sugestão não agradou ao Sr. Kornflock. Ele achava que o Führer, vestido com o seu uniforme, deveria acordar ali mesmo, na Sala da Presidência, na presença de todos os membros. Assim depararia ele com uma imagem que lhe era familiar: um grupo de nazis, sentados à volta de uma mesa de trabalho, ansioso por ouvir e acatar as suas ordens. Realcei, com cuidado, o facto de que era impossível prever em que estado psicológico esse ser humano acordaria, eu nem sequer podia assegurar que ele se lembrasse da sua vida anterior. O deparar com tanta gente desconhecida à sua volta, poderia ser-lhe fatal. Não seria melhor prepará-lo, com toda a calma, para aquilo que o esperava?
Embora contrariado, o Sr. Kornflock acabou por concordar. E, como o estado de saúde do clone aparentava ser bom, decidimos dar esse passo arriscado no dia seguinte.

12 comentários:

Pata Negra disse...

Bem! Bem! Eu não estou a gostar nada disto! Se o tipo acorda lá se vão as fantasias eróticas! Ainda é cedo para o gajo acordar a não ser que seja para morrer logo a seguir.

Até à próxima estação

Kássia Kiss disse...

Ora, amigo Pata Negra, o verdadeiro amor não se deixa assim apagar, apenas porque o Hitler está prestes a ser "ressuscitado"...
;)

Há.dias.assim disse...

Boa semana!
:)

antonio - o implume disse...

Eis o salvador do mundo, eu já sei como acaba a história. O clonado escapa-se do bunker muda de nome e chega à presidência da França...

Kássia disse...

:) Nada mau, implume!

jota disse...

Eu estava com esperanças que o clonado acaasse por ser o cão, salvo erro ele também teve o mesmo destido dos donos.

Enfim, vamos ver o que vai acontecer a este novo Hitler. Vai ter aquele bigodinho?

Kássia disse...

Realmente, há fotos do Hitler em férias na sua casa da Floresta Negra, na companhia da Eva Braun e de um cão pastor alemão. Talvez ele também tenha tido o destino dos donos, não sei, embora já me tenha perguntado o que foi feito do animal. Há um filme alemão recente (título original "Der Untergang"), que mostra os últimos dias do Hitler e seus acompanhantes no bunker de Berlim. Mas do cão, nem sinal... Trata-se, aliás, de uma ficção, mas muito próxima da realidade, pois foi baseada nas declarações de uma senhora que, ao tempo, era secretária do Hitler e encontrava-se entre os habitantes desse bunker). Pouco antes de morrer, já no nosso século, ela resolveu-se finalmente a relatar essas vivências.

Amigo Jota, o bigodinho até vai ter um certo papel de destaque nesta "saga" ;)

fallorca disse...

«...o bigodinho até vai ter um certo papel de destaque nesta "saga"...»
Mais uma versão de A Origem do Mundo? Fiufiu...

Kássia disse...

;)

Espero que resolva os seus problemas informáticos. De vez em quando, o Blogger também me prega umas partidas...

Daniel Santos disse...

estou bastante interessado em saber como pensa o clone.

Blondewithaphd disse...

"o pobre sofreria martírios inimagináveis, antes de bater a bota... pela segunda vez!", isso é que era! Bem, láteremos de esperar pelo dia seguinte...

Rafeiro Perfumado disse...

Vês o que digo? Dedica mais tempo e engenho ao clone do que a seduzir a assistente, o professor não é normal!