Janela Indiscreta

Este blogue foi recomendado pelo Pedro Rolo Duarte no seu programa Janela Indiscreta, da Antena 1, a 28-07-2010.
A história chegou ao fim, foram 42 episódios ao longo de meio ano. Mas ela está cá toda, é só consultar o arquivo do blogue, começando em Julho de 2010. Ou escolha o episódio que quiser, utilizando a caixa de pesquisa, aqui ao lado.
À laia de motivação, aqui fica a republicação do 1º Episódio.

30 de agosto de 2010

14º Episódio

Estava tão atarantado, que perguntei:
“Você é mesmo a Dra. Luninski?”
“Nem duvide!” lançou a voz de vodka, antecipando-se à visada. Olhou-a com um ar de profunda desaprovação e acrescentou: “Nunca a teríamos raptado, se assim não fosse.”
“Pois agora, solta-a, anda lá!” solicitou o Cebolo. “Afinal, ela tem que se familiarizar o mais depressa possível com o nosso projecto. O melhor, é deixá-la a sós aqui com o Professor.” Piscou-me o olho malandro.
“Está bem, pronto”, rugiu a Olga. Soltou as mãos da Dra. Luninski e disse-lhe: “O seu aposento é aqui mesmo ao lado, a primeira porta à direita. Está tudo preparado.”
Aqui estava a explicação para os ruídos de móveis dos últimos dias.
A russa lançou ainda um olhar crítico à doutora, dizendo:
“Também lá encontrará roupa mais discreta.”
Em seguida, olhou-me amuada e deixou o laboratório fungando. A bola chinesa apressou-se a segui-la e o último a sair foi o Sr. Cebolo, que fechou a porta, não sem antes me lançar mais um sorriso matreiro.
Enquanto a Dra. Luninski massajava os pulsos maltratados, reparei novamente naquelas unhas incríveis e não consegui evitar um comentário atrevido:
“Se essas mãos estão realmente em condições de lidar com instrumentos sensíveis de laboratório, passo a acreditar em clones tirados de máquinas de moedas, com instruções de uso!”
Ela olhou-me estupefacta. Depois, mirou as próprias unhas. E de repente desatou às gargalhadas. O que ainda me enfastiou mais, detesto risadas histéricas.
Assim que conseguiu falar, ela disse:
“Você é o máximo, Professor, ainda melhor do que o seu colega Saturnino.” Abanou a cabeça. “Estes génios da ciência... Sinceramente!” Levantou-se e esticou-me as mãos perante os olhos, com as palavras: “É claro que são postiças.”
“Postiças?”
“Quem é que se pode dar ao luxo de ter unhas destas?”
Dito isto, começou a tirá-las.
Senti-me um pouco pateta, mas a Amanda nunca usara enfeites daqueles. Como se me tivesse lido os pensamentos, a Dra. Luninski acrescentou irónica:
“Aposto que a sua ex-mulher nunca se pinta, usa roupas discretas e nunca lê revistas do jet-set.”
“Acontece que é esse o meu tipo de mulher”, retorqui presunçoso.
Talvez presunçoso demais. O facto é que me tinha lembrado de como me apaixonara pela Amanda à primeira vista. Estava quase formado e andava à procura de um fóssil pré-histórico, um insecto, coisa simples, a fim de o clonar para o meu trabalho de fim de curso. Recomendaram-me um grupo de arqueólogos que trabalhava em pleno deserto norte-africano. Para lá me dirigi e deparei com aquela estudante, que, enfiada numa cova, limpava um caco com um pincel. Os seus cabelos louros, amarrados num rabo-de-cavalo, estavam cobertos de areia e pó, assim como os seus braços, bronzeados naquele tom castanho-claro das louras. Esquecido de mim mesmo, observei-a longos minutos. Até que ela levantou a cabeça e lançou maldisposta:
“Estás a olhar para quê? Nunca viste?”
Foi o encanto total! Que moça tão espontânea, directa e sincera! Casámos três anos mais tarde, na praia brasileira de Recife. Depois, tivemos dois filhos...
Não fazia ideia há quanto tempo ali estava, mergulhado nas minhas lembranças, de cabeça baixa, até que a voz da Dra. Luninski me trouxe de volta à realidade:
“Estou a ver que ainda não a esqueceu.”
Contava com um olhar irónico, quando a encarei, mas ela mirava-me com uma certa compreensão. Depois, puxou uma cadeira, sentou-se em frente a mim, cruzou as longas pernas, pelo que um dos tacões ficou a apontar na minha direcção como um punhal, e acrescentou:
“Ela deve estar bem preocupada consigo.”
“Ora”, resmunguei, “o novo namorado há-de consolá-la.”
“Será? Talvez ela só agora note a falta que o senhor lhe faz. E, assim que seja libertado deste bunker, ela ficará tão feliz, que voltará para si.”

5 comentários:

Rafeiro Perfumado disse...

A Luninsky é um espectáculo! É raptada, colocada num bunker cheio de nazis e a primeira de que fala é sobre a ex-mulher do professor...

E vão arranjar-lhe roupa mais discreta? Protesto!

antonio - o implume disse...

"O facto é que me tinha lembrado de como me apaixonara pela Amanda... andava à procura de um fóssil pré-histórico, um insecto, coisa simples..."

Sim, é verdade. Acontece com todos os homens. Bem nem todos começamos pela busca do fóssil mas acabamos sempre por ficar com um.

Daniel Santos disse...

acredito que em breve o professor vai esquecer a ex-mulher.

Blondewithaphd disse...

Bem, eu sou mesmo uma leitora infiel:) O que isto já andou...

Kássia K. disse...

Blonde, o importante é que vá aparecendo :)

Rafeiro Perfumado, roupa mais discreta não significa necessariamente menos sexy...

antonio, fizeste-me lembrar o Oscar Wilde que disse que todas as jovenzinhas são encantadoras, mas que acabam por ficar iguais às mães. Então e os homens não envelhecem também? Enfim, é sempre agradável ser comparado a um grande da Literatura ;)

Daniel, como adivinhaste?...