Janela Indiscreta

Este blogue foi recomendado pelo Pedro Rolo Duarte no seu programa Janela Indiscreta, da Antena 1, a 28-07-2010.
A história chegou ao fim, foram 42 episódios ao longo de meio ano. Mas ela está cá toda, é só consultar o arquivo do blogue, começando em Julho de 2010. Ou escolha o episódio que quiser, utilizando a caixa de pesquisa, aqui ao lado.
À laia de motivação, aqui fica a republicação do 1º Episódio.

25 de agosto de 2010

13º Episódio

Depois de amarrar as mãos da criatura, a Olga endireitou-se e anunciou:
“Senhor Professor! Apresento-lhe a Dra. Chanel Luninski!”
Arrancou-lhe a serapilheira da cabeça e eu vi a cascata de caracóis escuros, que enquadravam um rosto muito maquilhado. Mas só me apercebi ao de leve do batom vermelho vivo e das pestanas exageradamente longas, pois o meu cérebro ocupava-se com o nome dela. Onde é que eu já o tinha ouvido?
A boazona guinchou:
“Mas que vem a ser isto? Onde estou?”
“Acalme-se, minha jóia”, retorquiu o Sr. Cebolo, muito paternal. “Não tenha medo, está entre amigos!”
“Entre amigos? Vocês são mas é doidos! Trouxeram-me para um hospital psiquiátrico, ou quê?”
O português continuou bonacheirão e apontou para mim:
“Veja ali, por exemplo: é o Professor Solani, um dos cientistas mais famosos do mundo.”
Os olhos castanhos pousaram em mim. Porém, em vez de cumprimentar a fulana, ou, pelo menos, dizer alguma coisa que a acalmasse, quedei-me mudo, ocupado com um pensamento deveras estranho: eu devia estar com um aspecto horrível! Na sequência da minha depressão, despoletada pelo desespero dos últimos dias, dormia muito mal e não me barbeava, nem me penteava. O estranho em tudo aquilo era que o meu aspecto é, normalmente, a última coisa que me preocupa.
“É mesmo!” declarou a criatura abismada. “É o Professor que desapareceu! O mundo inteiro anda há duas semanas à sua procura.”
Sim, pensei, imagino como se sentirão os meus filhos.
“Mas”, virou-se para a Olga, “porque me trazem para junto dele?”
“Para que você o ajude no seu projecto.”
“No seu projecto?” Olhou em volta e soltou, como uma criança estupefacta: “Um laboratório!”
Isto libertou-me da minha paralisia. Convencido que uma tipa daquelas nunca estaria em condições de me prestar assistência, as primeiras palavras que lhe dirigi foram tudo menos simpáticas:
“Mas que perspicácia! De onde conhece laboratórios? De histórias aos quadradinhos?”
“Com quem pensa que está a falar?” berrou ela. “Não encontraria melhor assistente do que eu, nem que percorresse o país de lés a lés!”
“Não me diga!”
Ela fixou-me furiosa e acabou por guinchar:
“Jamais trabalharei com este machista arrogante!”
Machista, eu? Era a primeira vez que ouvia tal coisa e descontrolei-me:
“E eu jamais permitirei uma tipa destas no meu laboratório!”
“Tipa? Veja lá como fala com uma engenheira química altamente especializada na técnica de clonagem!”
“É mesmo? Então diga-me: onde trabalha?”
“Até há uma semana atrás, era eu o braço direito do Professor Saturnino!”
Ergui as sobrancelhas de espanto. O Professor Saturnino era um dos meus colegas de mais prestígio. E a criatura não parou de me surpreender:
“Não sei porque é que está tão boquiaberto. Afinal, recebi uma proposta de trabalho do seu próprio laboratório!”
“Como?”
“O Dr. Fabrício Megalith entrou em contacto comigo. Ele não lhe disse nada?”
Lembrei-me, enfim, onde tinha ouvido aquele nome. Tínhamos realmente procurado alguém, depois de um dos nossos colaboradores se ter mudado para a costa leste. Fabrício dissera-me que estava prestes a contratar uma das melhores químicas do país: a Dra. Chanel Luninski! Mas... tratar-se-ia realmente daquela boazona? Será que o Fabrício se tinha deixado encantar pelas curvas dela? Não combinaria nada com a sua maneira de ser, no que se referia ao trabalho, Fabrício não se permitia um desvio.

7 comentários:

Rafeiro Perfumado disse...

Por acaso o tipo é machista, basta ver que desde o primeiro momento pensou nela como a "boazona". Fotos, queremos fotos!

antonio - o implume disse...

Curvas que não se adaptam ao perfil de engenheiro. Existe esse preconceito de que na engenharia é tudo rectilíneo. Este bunker começa a encher-se de conflito...

Daniel Santos disse...

Aguado pela faisca que vai dar entre os dois... imagino o incêndio.

Kássia K. disse...

A minha resposta aos três: :))

Há.dias.assim disse...

Kássia,eu admiro a sua imaginação.
parabéns!
Bjocas

Zé Povinho disse...

Vamos lá ver do que é que a Chanel é capaz...
Abraço do Zé

Pata Negra disse...

Estou curios(o)amente insatisfeito, vamos ver se o Fabrício tem estudos suficientes.
Um abraço até à 14ª estação