Janela Indiscreta

Este blogue foi recomendado pelo Pedro Rolo Duarte no seu programa Janela Indiscreta, da Antena 1, a 28-07-2010.
A história chegou ao fim, foram 42 episódios ao longo de meio ano. Mas ela está cá toda, é só consultar o arquivo do blogue, começando em Julho de 2010. Ou escolha o episódio que quiser, utilizando a caixa de pesquisa, aqui ao lado.
À laia de motivação, aqui fica a republicação do 1º Episódio.

28 de novembro de 2010

40º Episódio

O clone suicidou-se com um tiro na cabeça (o verdadeiro Hitler, antes de dar o tiro, colocou uma cápsula de cianeto na boca, a fim de se assegurar de que morria mesmo, tanto era o medo de sofrer às mãos do inimigo). O seu corpo foi reduzido a cinzas no crematório, para que dele não sobrasse nem um... prometo que o digo pela última vez: “nem um carvãozinho”.
            Ninguém pode prever o futuro, mas de uma coisa eu tinha a certeza: não mais haveria clones do Hitler... ou haveria? Afinal eu estou convencido de que um dia poderemos viajar no tempo. Cientistas meus amigos que se dedicam a esse tipo de projecto têm feito progressos, muitos dizem mesmo que o princípio que permitirá essas viagens é muito mais simples do que o que se imagina. Conclusão: o futuro ficará para sempre uma incógnita, ou, para usar uma expressão velhinha: o futuro a Deus pertence!
            Mas agora, qual era a minha situação e a da Chanel? Estávamos livres? O que pretendiam fazer os restantes nazis? Perante o mundo, eram inofensivos, mas era bem possível que endoidecessem de vez naquele bunker. Considerámos ir ter com o Sr. Cebolo e lembrá-lo de que ele e os seus compinchas já não precisavam de nós. Mas hesitávamos, pois aqueles que não eram de utilidade para os nazis eram, por princípio, executados.
            Meu Deus, mas quando acabaria aquele pesadelo? Comecei a sofrer de claustrofobia no maldito bunker. Sentia a falta das árvores, da erva, das plantas, do barulho das crianças a brincar, do ladrar dos cães, do zumbir das abelhas, do vento, da chuva, da cidade, do stress, de carros em excesso de velocidade, da poluição, de engarrafamentos, de programas de televisão estúpidos, de discussões com os vizinhos... de tudo! Tudo era preferível àquela catacumba! Apesar de lá ter sido tão feliz com a Chanel. Mas nós desejávamos uma vida em liberdade, livre de medos.
            Talvez devêssemos apenas partir. Sabíamos onde estavam os carros e chegaríamos lá depressa, nem sequer precisávamos de levar bagagem. Se o fizéssemos, alguém tentaria evitar que o conseguíssemos? Alguém nos daria um tiro?

26 de novembro de 2010

Intermezzo # 15



- Eh pá! Tens assim tanto frio?
- Frio? Eu tenho é calor, pr'áqui enchouriçado, puxa daqui, arrepenha dali... Um inferno!
- E porque não te rebelas contra esse colete-de-forças?
- Que queres? A dona tricotou-o, ela própria, cheia de amor e carinho...
- (suspiro) O que não se faz para agradar à família...

24 de novembro de 2010

39º Episódio

Durante dois dias o clone não saiu do seu quarto, nem recebeu qualquer visita, pelo que ninguém, nem mesmo o Sr. Cebolo, sabia em que estado ele se encontrava e o que a cabeça dele congeminava. Até que convocou uma reunião da Presidência.
            Surgiu ainda com pior aspecto e a tremer mais. Depois de se sentar na sua cadeira, declarou:
            “A situação é grave, meus senhores, muito grave.”
            Bem, aquilo já ele tinha dito, por isso continuávamos a aguardar ansiosamente pelo resto. Até que ele informou, muito dramático:
            “Os russos chegaram a Berlim. A guerra está perdida!”
            Olhámo-nos estupefactos, mas ninguém se atrevia a falar. Só o Führer:
            “Vivo, ou morto, não cairei nas mãos do inimigo. Farei aquilo que me resta fazer e desejo que o meu corpo seja cremado.” Fez uma pausa, o silêncio era absoluto. Depois, acrescentou: “É esta a vossa missão meus senhores: Cuidem para que de mim não reste um carvãozinho que seja!”
            Apesar da gravidade do momento, tive que cerrar os dentes, a fim de não desatar às gargalhadas. Ao contrário de mim, muitos dos outros choravam. Mas será que eles não notavam que a criatura descrevia uma situação que não se verificava? Uma situação acontecida há mais de 150 anos?
            O Sr. Cebolo soluçava como uma criança:
            “Não vamos então dominar o mundo?”
            “Não”, respondeu o clone. “Fomos traídos!” Nisto, bradou furioso, de punho cerrado: “Fui traído pelas minhas próprias tropas!”
            “Ai credo, meu Führer!”
            “É a verdade, homem! Tivessem os soldados dado o seu melhor e cumprido todas as minhas ordens, não sofreríamos nós esta derrota humilhante. Traíram-me!”
            Era eu realmente o único que sabia que o clone só dizia disparates?
            Assim que se acalmou, disse ainda:
            “Conto com os senhores para cumprirem o meu último desejo.”
            “Sim, meu Führer, fique descansado”, respondeu o Sr. Cebolo.
            O clone levantou-se com muito esforço e alguns dos presentes aproximaram-se dele, a fim de o ajudarem. Mas ele impediu-os com um gesto e saiu sozinho da sala.
            Encontrava-me como no início desta história: rodeado de nazis chorosos. Mas não pensava em chamar-lhes a atenção para o facto de que a situação desesperante descrita pelo Führer só existia na cabeça dele. Afinal, os nazis aceitavam a sua decisão de pôr fim à própria vida, o que me libertava de lhe dar a injecção ou de tentar encontrar outro caminho para terminar aquela loucura.
            A criatura destruir-se-ia a ela própria... pela segunda vez! Acabei por ganhar sentimentos de culpa. Tinha clonado aquele homem apenas para que ele tornasse a tomar aquela decisão difícil, vivendo novamente momentos tão angustiosos. Mesmo tendo em conta que se fizeram tantas barbaridades em seu nome, não chegava suicidar-se uma vez?
            E qual é a moral de toda esta história? Que é irresponsável e perigoso clonar seres humanos? Que nenhum de nós deve desempenhar um papel que só a Deus pertence? Bem, para dizer a verdade, isso seria moral a mais para o meu gosto. Como cientista, a minha ambição principal é a evolução da Ciência. No fundo, acho uma pena que o meu clone apenas tenha vivido algumas semanas e que o mundo não chegue nunca a tomar conhecimento daquele meu toque de génio.
            Ora, que se dane! Já não tinha ganho um prémio Nobel? O que é que eu queria mais? Apenas ser feliz com a Chanel e tornar a ver os meus filhos...
            Alto lá, que a história ainda não acabou!

21 de novembro de 2010

38º Episódio


Os membros da Presidência olhavam-se mais confusos do que nunca. Eu, pelo contrário, sentia a esperança crescer dentro de mim. O Sr. Cebolo respondeu:
            “Mas é claro que existe um mundo lá fora, meu Führer! Um mundo enorme, gigantesco, à nossa disposição. Não devemos perder mais tempo e...”
            “Então, onde estamos nós?”
            “No bunker, meu Führer! Quantas vezes já lhe dissemos? Encontramo-nos no bunker.”
            “No bunker!” repetiu a criatura, como se tivesse de repente encontrado o sentido da vida. “No bunker! Pois claro!”
            O que se passou a seguir, superou todas as minhas expectativas. Começou-se a operar uma transformação incrível no meu clone! Numa questão de segundos, rugas profundas cravaram-se no seu rosto, os olhos raiaram-se-lhe de vermelho e a repa descolou-se, caindo como que esgotada. Só com esforço a criatura conseguiu pousar as mãos em cima da mesa, tanto elas tremiam.
            “Mas que se passa consigo, meu Führer?” inquiriu o português consternado.
            Também eu não fazia ideia do que lhe tinha acontecido, mas a minha oportunidade havia finalmente surgido:
            “Eu sabia que era um grande erro prescindir do exame de rotina. O Führer precisa urgentemente de um medicamento, que eu, por acaso, trago…”
            “Cebolo!” Era a criatura que me interrompia, de voz tremente: “Ajude-me a regressar ao meu aposento!”
            “Sim... claro.”
            Lá se levantou, com a ajuda do português, mas aguentava-se tão mal nas pernas, que eu me preparei para também o ajudar. Era conveniente que ficasse junto dele, mas o Sr. Lacucaracha foi mais rápido. Apoiado no português e no mexicano, e sob o olhar consternado dos restantes, o clone deixou a sala. Eu segui os três. Chegados à porta do quarto, a criatura declarou:
            “Quero ficar sozinho. A situação é muito grave, meus senhores. Preciso de reflectir.”
            O Sr. Cebolo trocou um olhar comigo e propôs finalmente:
            “Não seria melhor que o seu médico o examinasse, meu Führer?”
            “Não! Ninguém ficará comigo, preciso de sossego absoluto. Trancarei a porta por dentro. E você, Cebolo, velará para que esteja sempre alguém a vigiá-la do lado de fora!”
            “Às suas ordens, meu Führer.”
            Ao contar à Chanel o sucedido, lamentei não lhe ter dado a injecção, mesmo contra a vontade dos outros, mas ela disse:
            “Foi melhor assim. Desconfio que se a injecção o matasse, tu não te perdoarias nunca.”
            “Pois sim, mas no fundo não estamos muito melhor do que o que estávamos. Mantém-se a imprevisibilidade da criatura, continuamos a recear o futuro.”
            “Bem, ela agora está realmente doente, o que fortalece a tua posição de médico perante os membros da Presidência.”
            Havia uma certa razão nas suas palavras. Mas a verdade é que, nem eu, nem ninguém, fazia a mais pequena ideia do que teria provocado a mudança no clone.

19 de novembro de 2010

Intermezzo # 14

Já é do conhecimento de muita gente, mas nunca é demais insistir!

E agora, eu pergunto: como é que pessoas ligadas à Medicina Veterinária podem pactuar com coisas destas?! Eu sei que não é fácil lidar com os montes de cães abandonados todos os dias em Portugal. Por outro lado, sempre pensei que se escolhia essa área por se gostar de animais e por se desejar proporcionar-lhes uma vida melhor! Que Professores são estes? Que Veterinários são estes?

Que vergonha para a Universidade de Évora! E para o País! E para todos nós!

Protestemos! Um telefonema, um fax, um email, tudo conta, quantos mais, melhor:

Universidade de Évora
Morada: Largo dos Colegiais 2, 7004-516 Évora
Telefone: +351 266 740 800
FAX: +351 266 740 831
Email: uevora@uevora.pt

Reitor: Carlos Alberto dos Santos Braumann
Morada: Largo dos Colegiais 2, 7004-516 Évora
Telefone: +351 266 740 800
FAX: +351 266 740 804
Email: gabreit@uevora.pt

Entretanto, a bastonária da Ordem dos Médicos Veterinários reagiu: ler aqui e aqui.

Laurentina Pedroso diz que "Tudo deve ser feito com grande rigor e com respeito pelo animal". Mas, "não existe regulamentação específica para a utilização destes animais no ensino. O que existe é a consciência de cada um, disse a responsável, para quem seria fundamental a matéria estar legislada".

Como se vê, ainda há muito a fazer. Protestemos!

17 de novembro de 2010

37º Episódio

Eu tinha um aspecto totalmente diferente! Meu Deus, dava muito nas vistas? Atacado por um pânico repentino, tentei encolher-me na minha cadeira. O meu receio era infundado? O meu comportamento ridículo? Estava completamente fora de mim, incapaz de pensar claro. Além disso, senti-me muito fraco. Tinha a ver com o facto de não ter tomado o pequeno-almoço? Ou estes malucos já me tinham posto doido?
Deu-me uma dor de barriga e, ao massajá-la, senti a seringa no meu bolso. A injecção redentora! Tinha que arranjar oportunidade de a dar à criatura. Porque é que o clone não era atingido por alguma fraqueza? Porque é que não lhe dava um ataque de tosse, ou de espirros, ou de caspa... sei lá, qualquer coisa. Imploro-te meu Deus!
“Estamos agora prontos para...”, lançou o Cebolo e eu assustei-me tanto, que aconteceu exactamente aquilo que eu procurava evitar: estremeci, atraindo todas as atenções! Fixavam-me, aqueles neuróticos, aqueles fanáticos, haveriam de me...
“Mas que diabo se passa hoje consigo?”
O clone olhava-me irritado. Acrescentou irónico:
“E está o senhor preocupado com o meu estado de saúde? Quer-me parecer que você, doutor, é que precisa de ajuda médica!”
Desataram todos às gargalhadas, eu limitei-me a um sorriso amarelo.
Assim que sossegaram, o clone virou-se para o Cebolo:
“O que é que o senhor se preparava para dizer?”
“Ah sim. Bem, meu Führer, estamos finalmente em condições de dominar o mundo, não é verdade?”
Todos os membros da Presidência fixaram olhares ansiosos no seu Führer. Mas este olhava-os siderado e declarou:
“Estamos em condições, não: nós já dominamos o mundo!”
Os nazis olharam-se confusos. Até que o português desatou novamente às gargalhadas. Todos o imitaram, excepto eu... e o clone.
“Mas que piada”, disse o Sr. Cebolo. “Uma boa piada, meu Führer, que só alguém que está prestes a atingir o seu objectivo supremo se pode dar ao luxo de fazer. Acho, contudo, que não nos devíamos precipitar e, sim, começarmos a ocupar-nos das coisas práticas. Não acham, meus senhores?”
Todos acenaram com a cabeça, excepto eu... e o clone.
O português prosseguiu, muito solene:
“Chegou a hora da verdade. Por mais perto que estejamos do nosso objectivo, ainda não o atingimos plenamente.”
“Como não?” perguntou a criatura. “Não mandei eliminar os seres supérfluos, a escumalha da humanidade?”
“Aqui, no nosso bunker, sim. Mas agora é o mundo lá fora que espera por nós!
“O mundo lá fora?” repetiu o clone.
Fixou o português durante vários segundos em silêncio... com o mesmo olhar vazio que ostentava quando acordou pela primeira vez. O que aliás não tinha um aspecto nada saudável. Chegara a oportunidade de lhe dar a injecção? Quando me preparava para falar, porém, falou o clone:
“O senhor pretende por acaso dizer que existe um mundo lá fora?”

14 de novembro de 2010

36 º Episódio

Não dormi quase nada, nem tão pouco consegui engolir o pequeno-almoço. Agora, que havia tomado a minha resolução, mal podia esperar para agir. Dirigi-me ao quarto da criatura, quanto mais cedo lá chegasse, melhor. Tinha a injecção pronta no bolso da minha bata.
O coração batia-me desenfreado, as pernas tremiam-me e, antes de bater à porta do quarto, coisa que fazia automaticamente todos os dias, respirei fundo.
Depois de bater, ouvi um enérgico: “Entre!”
Hesitei.
Normalmente, como o clone ainda se encontrava deitado quando eu lá chegava, não havia reacção à minha batida e eu limitava-me a entrar no quarto.
Mais uma vez respirei fundo. Abri a porta, entrei e... paralisei estupefacto! A cama estava vazia. O clone já se tinha arranjado e vestido, apertava o último botão do seu casaco em frente do espelho.
“Bom dia, doutor.”
“Meu... Führer, porque se levantou antes do exame de rotina?”
“Hoje não preciso dele. Nunca me senti tão bem na minha vida!”
Depois de mais um momento de estupefacção, repliquei:
“Nunca se sabe... Permita-me lembrar-lhe que o senhor esteve gravemente doente. Insisto em que se faça o exame de rotina!”
“Hoje não, doutor. Mal posso esperar para chegar à Sala da Presidência.”
Encarou-me e apercebeu-se da angústia no meu rosto, a que, no entanto, e felizmente, deu uma interpretação errada:
“Venha lá comigo e tome conta de mim, se fica mais descansado.”
Enquanto nos dirigíamos à Sala da Presidência, eu perguntava-me como arranjaria um pretexto para lhe dar a injecção. Talvez se me apresentasse uma oportunidade de dizer ao Sr. Cebolo que o Führer prescindira do seu exame matinal e se encontrava em grande perigo.
Chegados à sala, fomos saudados com o habitual Heil Hitler e sentámo-nos nos nossos lugares.
“Como se sente hoje, meu Führer?” perguntou logo o Sr. Cebolo e, a fim de não perder aquela oportunidade, antecipei-me ao interrogado:
“O Führer prescindiu hoje do seu exame de rotina, o que eu considero extremamente...”
“Acabe com esse disparate, doutor!” interrompeu-me a criatura. “Já lhe disse que me sinto melhor do que nunca.”
“De qualquer maneira, acho imprudente que...”
“Chega! O senhor ainda me estraga a boa disposição. Mas o que será que o apoquenta tanto hoje?”
Olhava-me desconfiado. Felizmente, o Sr. Cebolo resolveu intervir:
“Alegra-me sabê-lo em tão bom estado, meu Führer.”
“Melhor do que nunca, meu caro. Não sei se os senhores já se aperceberam, mas hoje é um dia especial! Um dia glorioso!”
Com mil milhões de divisões celulares! O que é que lhe passava agora pela cabeça? O meu receio e a minha ansiedade aumentavam e, apesar de dever manter a boca calada, não me aguentei:
“Um dia especial?”
“Mas claro, doutor. Olhe à sua volta! Não é esta uma visão divina?”
Não percebi logo onde é que ele queria chegar. Olhei à minha volta, mas via a mesma sala de sempre, a mesma mesa, as mesmas cadeiras, a mesma iluminação, as mesmas pessoas... Bem, não era bem assim: faltavam os alemães e as mulheres...
De repente, entendi! A Presidência estava agora bem ao gosto do clone! O que se resumia numa ironia suprema: todos os arianos haviam sido eliminados e esta nova versão do Adolfo Hitler sorria orgulhoso no meio de tipos morenos. Um dos novos membros da Presidência era até indiano e um outro de raça cigana. Os últimos nazis do mundo eram todos baixos e morenos e usavam aquele bigodito...

10 de novembro de 2010

35º Episódio

A Olga sorriu triste e acrescentou baixo:
“Depois veio a Dra. Luninski...”
“Para lhe ser franco, eu no início nem gostei dela.”
“Gostou sim, só não o queria admitir. Pois eu, ainda antes de a raptarmos, soube logo que ela era a mulher certa para si.”
“É mesmo? Mas porquê?”
Ela encolheu os ombros:
“Chamemos-lhe intuição feminina. Vi logo que acabariam nos braços um do outro e até tentei convencer os meus colegas a raptar outra pessoa, um dos colaboradores do seu laboratório, por exemplo. A Presidência, porém, rejeitou qualquer proposta nesse sentido. Como a Dra. Luninski se tinha acabado de demitir do seu lugar de prestígio no laboratório do Professor Saturnino, a fim de emigrar, não iria ser tão procurada e o seu rapto não seria tão notado no mundo científico.”
Os nossos raptos tinham sido planeados ao pormenor! Aquilo lembrou-me de que toda esta gente era criminosa e psicologicamente instável. Não havia dúvida de que a Olga, neste dia, estava atractiva, possuía um certo carisma e tinha acabado de me fazer uma espécie de declaração de amor. Porém, ela própria me conduziria ao meu local de execução, se fosse esse o desejo da criatura!
De qualquer maneira, eu tinha vindo ter com ela a fim de lhe dar algum consolo, nesta hora difícil. Por isso a abracei e lhe beijei a face. Ela tornou a sorrir e disse:
“Desejo-lhe sorte, Professor. Sei que será feliz com a Dra. Luninski. E que estará ao lado do nosso Führer, quando este dominar o mundo!”
“Sim... com certeza...”

No dia das execuções, a Chanel e eu abstivemo-nos de deixar o nosso aposento. À noite, sentíamo-nos esgotados e vazios, como se tivéssemos cumprido com as nossas próprias mãos aquele horrível acto. Deitámo-nos, mas ficámos quase uma hora imóveis, sem adormecer. A cabeça dela pousava sobre o meu peito. Comecei a afagar os cabelos de seda e murmurei:
“Acabarei amanhã com este absurdo!”
Ela não reagiu logo, mas eu sentia-lhe a ansiedade. Finalmente, perguntou:
“Qual é a tua ideia?”
“Então eu não examino todas as manhãs o estado de saúde do clone? Amanhã, digo-lhe que ele não está nada bem, que precisa de um medicamento e dou-lhe a injecção que o devolve ao estado de coma artificial!”
Ela levantou a cabeça e pousou os seus olhos nos meus:
“A substância é perigosa. Pode até mandá-lo desta para melhor.”
“E depois?”
“Como reagirão os outros?”
“Digo-lhes que encontrei o clone naquele estado, quando entrei no quarto.”
“Mesmo que eles acreditem em ti, o que sucede depois?”
“Não sei. Só sei que não aguento mais esta situação. E pergunto-me que tipo de disparates a criatura ainda vai inventar. Vivemos à beira do precipício. Mas mesmo que ele poupe a tua vida e a minha até ao fim, eu não aguento mais um dia de execuções como este.”
Ela tornou a pousar a cabeça no meu peito e exalou:
“Nem eu.”

7 de novembro de 2010

34º Episódio

Suspirei conformado, mas pedi ainda:
“Só mais um favor, Sr. Cebolo: deixe-me falar uma última vez com a Olga!”
“Impossível. A nenhum preso é permitido receber visitas.”
“Peço-lhe, em nome da nossa amizade! Sabe, é que ela na Sala da Presidência lançou-me um olhar tão angustiado, que não me sai da cabeça.”
“Mas não foi por saber que ia ser executada. A Olga não teme a morte.”
“Então porque foi?”
Ele suspirou:
“Por causa da maneira com que o senhor implorou pela vida da Dra. Luninski.”
“O quê? Tem a certeza?”
O Sr. Cebolo não respondeu. Depois de uma curta reflexão, disse:
“Vou abrir uma excepção e levá-lo à presença da Olga. Sinto vontade de dar uma última alegria à rapariga.”

A Olga dividia uma cela com a Sra. Relot, pelo que tive que tolerar todo o tempo aquele olhar idiota através dos óculos quadrados pousado em nós.
Não sei se era a força das circunstâncias, ou por eu estar mais sensível à sua pessoa, o certo é que a russa se me apresentava sob um ponto de vista totalmente diferente. Tinha os cabelos soltos pelos ombros e a severidade desaparecera do seu rosto, dando lugar a um olhar melancólico, mas inteligente. Apercebi-me de que ela era dotada de uma beleza e de uma dignidade especiais. Tornei a pensar nos filmes antigos que tinha visto em casa do meu colega, pois a Olga fazia-me lembrar a protagonista de um filme noir, assim uma... Lauren Bacall. E também me fez lembrar que eu preferia as louras, antes de me apaixonar pela Chanel.
Ela sorriu:
“Sempre veio, Professor.”
Agora, até a sua voz rouca se me soava sensual. Peguei-lhe nas mãos e os seus olhos castanho-claros brilharam.
“Admiro a sua coragem, Olga. Você mais parece uma diva do que uma mulher condenada à morte.”
“Só para ouvi-lo dizer isso, já valeu a pena vir parar a esta cela.”
“Eu... sinto-me em parte responsável pela situação. Sinto muito...”
“Não, Professor. O senhor trabalhou para nós e fez um serviço excepcional: devolveu-nos o nosso Führer.”
“Sim”, piou a Sra. Relot e eu estremeci, pois tinha-me esquecido dela. “Morremos para salvar o mundo! Nunca mais ninguém falará de Cristo!”
Meu Deus, que mais absurdos eu teria ainda que ouvir? Fixei de novo a minha atenção na Olga:
“O Sr. Cebolo disse-me que você não temia a morte.”
Ela suspirou:
“Há anos que ando cansada desta vida, só me trouxe tristezas e desilusões... Foi por isso que me liguei a esta comunidade. Mas quem verdadeiramente deu um novo sentido à minha vida, foi o senhor, Professor.”
“Eu?!”
“Sim... e no entanto...” Largou as minhas mãos, sentou-se sobre a sua cama e exalou: “Nunca me mandou chamar.”
“Chamar?”
“Logo no primeiro dia lhe disse que me podia chamar a qualquer hora, se precisasse de mim. Sabe, nós, os seus raptores, tínhamo-lo observado dias a fio. E eu acabei por não resistir ao seu charme...”
“Oh!” Sentei-me ao lado dela. “Naquela altura eu estava confuso demais para me aperceber de uma coisa dessas.”

5 de novembro de 2010

Intermezzo # 13



O meu novo blogue não tem nada a ver com clones. Nem tão-pouco com visões (mais ou menos sinistras) de futuro. Aliás, como o seu próprio nome revela, é dedicado ao passado:





3 de novembro de 2010

33º Episódio

Naquele momento, só pensei em poupar a vida da Chanel. Afinal, nós ainda possuíamos um trunfo e chegara a hora de o jogar. Levantei-me de um salto, puxei a Chanel para mim e bradei:
“A Dra. Luninski só será eliminada por cima do meu cadáver! E, sem médicos, não lhe restará muito tempo de vida. O senhor padece de uma doença gravíssima!”
O clone fixou-me angustiado. Depois, virou-se para o Sr. Cebolo:
“Ele está a falar a sério?”
O português trocou um olhar breve comigo e replicou:
“Bem, eu cá confiava na palavra do Dr. Solani. Afinal, ele até já ganhou um prémio Nobel.”
“É mesmo?”
“Oh, sim. Além disso, está muito habituado a trabalhar em conjunto com a sua colega. Prescindir dos dois seria realmente arriscado, meu Führer.”
O clone compôs a repa e declarou:
“Acalme-se, doutor! A sua colega será poupada.”
Suspirei aliviado. Mas depois deparei com o olhar amargurado da Olga pousado em mim. Era a primeira vez que ela me encarava, havia várias semanas.
O clone ordenou a prisão de todas as mulheres e a reunião terminou.
A Chanel e eu regressámos completamente deprimidos aos nossos aposentos. O olhar da Olga tinha-se cravado a ferros na minha cabeça e resolvi ir ter com o Sr. Cebolo, que, além de ser aquele que estava mais próximo do Führer, pelos vistos ainda simpatizava comigo.
“Peço-lhe, Sr. Cebolo, evite esta tragédia!”
“Perante o Führer sou impotente, meu caro Professor.”
“Mas… as mulheres! O Sr. gosta delas, não tinha um caso com a Olga?”
Ele fez um gesto de impaciência com a mão:
“Isso já acabou.”
“Mesmo assim. Consegue imaginar um mundo sem mulheres?”
“É realmente uma pena”, suspirou. “Mas se o Führer assim o deseja…”
“Talvez ele esteja apenas... fatigado.”
“Acha?”
Naquele momento, surgiu-me uma ideia: porque não experimentar nele a estratégia que tinha falhado com o Kornflock? O Sr. Cebolo parecia mais receptivo. Acrescentei:
“Sim, afinal ele esteve, digamos, morto quase 200 anos e tem, de repente, que tomar todo o tipo de resoluções. Eu podia tomar providências para que ele repousasse durante alguns dias.”
“Pensa mesmo que lhe faria bem?”
O homem estava quase convencido. Aquilo animou-me:
“Tenho a certeza que sim. O Führer acordaria um outro homem e…”
“Um outro homem?! O senhor causa-me calafrios, Professor. Ora diga-me: estaria esse outro homem em condições de dominar o mundo?”
Aquela pergunta era-me tão inesperada, que eu, assim a quente, acabei a balbuciar:
“Não sei… talvez… Sim, claro…”
“Está a ver, Professor? Nem sequer o senhor tem a certeza.” Abanou a cabeça. “Acredite que me custa muito ver desaparecer todas estas minhas companheiras. Mas tenho que agarrar esta oportunidade única com unhas e dentes.”
“Oportunidade?”
“Tornei-me no conselheiro mais íntimo do Führer e tenciono estar ao lado dele, quando ele se tornar no homem mais poderoso do mundo!”
Com mil milhões de pipetas, aquela gente devia mesmo ser toda internada! O Sr. Cebolo deve ter-se apercebido do desespero no meu olhar, pois abriu os braços num gesto de impotência, com as palavras:
“Sinto muito, Professor.”