Não dormi quase nada, nem tão pouco consegui engolir o pequeno-almoço. Agora, que havia tomado a minha resolução, mal podia esperar para agir. Dirigi-me ao quarto da criatura, quanto mais cedo lá chegasse, melhor. Tinha a injecção pronta no bolso da minha bata.
O coração batia-me desenfreado, as pernas tremiam-me e, antes de bater à porta do quarto, coisa que fazia automaticamente todos os dias, respirei fundo.
Depois de bater, ouvi um enérgico: “Entre!”
Hesitei.
Normalmente, como o clone ainda se encontrava deitado quando eu lá chegava, não havia reacção à minha batida e eu limitava-me a entrar no quarto.
Mais uma vez respirei fundo. Abri a porta, entrei e... paralisei estupefacto! A cama estava vazia. O clone já se tinha arranjado e vestido, apertava o último botão do seu casaco em frente do espelho.
“Bom dia, doutor.”
“Meu... Führer, porque se levantou antes do exame de rotina?”
“Hoje não preciso dele. Nunca me senti tão bem na minha vida!”
Depois de mais um momento de estupefacção, repliquei:
“Nunca se sabe... Permita-me lembrar-lhe que o senhor esteve gravemente doente. Insisto em que se faça o exame de rotina!”
“Hoje não, doutor. Mal posso esperar para chegar à Sala da Presidência.”
Encarou-me e apercebeu-se da angústia no meu rosto, a que, no entanto, e felizmente, deu uma interpretação errada:
“Venha lá comigo e tome conta de mim, se fica mais descansado.”
Enquanto nos dirigíamos à Sala da Presidência, eu perguntava-me como arranjaria um pretexto para lhe dar a injecção. Talvez se me apresentasse uma oportunidade de dizer ao Sr. Cebolo que o Führer prescindira do seu exame matinal e se encontrava em grande perigo.
Chegados à sala, fomos saudados com o habitual Heil Hitler e sentámo-nos nos nossos lugares.
“Como se sente hoje, meu Führer?” perguntou logo o Sr. Cebolo e, a fim de não perder aquela oportunidade, antecipei-me ao interrogado:
“O Führer prescindiu hoje do seu exame de rotina, o que eu considero extremamente...”
“Acabe com esse disparate, doutor!” interrompeu-me a criatura. “Já lhe disse que me sinto melhor do que nunca.”
“De qualquer maneira, acho imprudente que...”
“Chega! O senhor ainda me estraga a boa disposição. Mas o que será que o apoquenta tanto hoje?”
Olhava-me desconfiado. Felizmente, o Sr. Cebolo resolveu intervir:
“Alegra-me sabê-lo em tão bom estado, meu Führer.”
“Melhor do que nunca, meu caro. Não sei se os senhores já se aperceberam, mas hoje é um dia especial! Um dia glorioso!”
Com mil milhões de divisões celulares! O que é que lhe passava agora pela cabeça? O meu receio e a minha ansiedade aumentavam e, apesar de dever manter a boca calada, não me aguentei:
“Um dia especial?”
“Mas claro, doutor. Olhe à sua volta! Não é esta uma visão divina?”
Não percebi logo onde é que ele queria chegar. Olhei à minha volta, mas via a mesma sala de sempre, a mesma mesa, as mesmas cadeiras, a mesma iluminação, as mesmas pessoas... Bem, não era bem assim: faltavam os alemães e as mulheres...
De repente, entendi! A Presidência estava agora bem ao gosto do clone! O que se resumia numa ironia suprema: todos os arianos haviam sido eliminados e esta nova versão do Adolfo Hitler sorria orgulhoso no meio de tipos morenos. Um dos novos membros da Presidência era até indiano e um outro de raça cigana. Os últimos nazis do mundo eram todos baixos e morenos e usavam aquele bigodito...
Folhetim biebdomadário, todos os domingos e quartas-feiras! Estamos na América do ano 2112. Um cientista especializado em clonar animais extintos é raptado por uma comunidade de nazis vindos dos quatro cantos do globo, cujo objectivo é dominar o mundo. Metido num bunker, ele deverá clonar o Hitler a partir de um carvãozinho surripiado do local em que o corpo do dito cujo foi cremado.
Janela Indiscreta
Blogue recomendado por Pedro Rolo Duarte no seu programa Janela Indiscreta, da Antena 1, a 28-07-2010.
14 de novembro de 2010
10 de novembro de 2010
35º Episódio
A Olga sorriu triste e acrescentou baixo:
“Depois veio a Dra. Luninski...”
“Para lhe ser franco, eu no início nem gostei dela.”
“Gostou sim, só não o queria admitir. Pois eu, ainda antes de a raptarmos, soube logo que ela era a mulher certa para si.”
“É mesmo? Mas porquê?”
Ela encolheu os ombros:
“Chamemos-lhe intuição feminina. Vi logo que acabariam nos braços um do outro e até tentei convencer os meus colegas a raptar outra pessoa, um dos colaboradores do seu laboratório, por exemplo. A Presidência, porém, rejeitou qualquer proposta nesse sentido. Como a Dra. Luninski se tinha acabado de demitir do seu lugar de prestígio no laboratório do Professor Saturnino, a fim de emigrar, não iria ser tão procurada e o seu rapto não seria tão notado no mundo científico.”
Os nossos raptos tinham sido planeados ao pormenor! Aquilo lembrou-me de que toda esta gente era criminosa e psicologicamente instável. Não havia dúvida de que a Olga, neste dia, estava atractiva, possuía um certo carisma e tinha acabado de me fazer uma espécie de declaração de amor. Porém, ela própria me conduziria ao meu local de execução, se fosse esse o desejo da criatura!
De qualquer maneira, eu tinha vindo ter com ela a fim de lhe dar algum consolo, nesta hora difícil. Por isso a abracei e lhe beijei a face. Ela tornou a sorrir e disse:
“Desejo-lhe sorte, Professor. Sei que será feliz com a Dra. Luninski. E que estará ao lado do nosso Führer, quando este dominar o mundo!”
“Sim... com certeza...”
No dia das execuções, a Chanel e eu abstivemo-nos de deixar o nosso aposento. À noite, sentíamo-nos esgotados e vazios, como se tivéssemos cumprido com as nossas próprias mãos aquele horrível acto. Deitámo-nos, mas ficámos quase uma hora imóveis, sem adormecer. A cabeça dela pousava sobre o meu peito. Comecei a afagar os cabelos de seda e murmurei:
“Acabarei amanhã com este absurdo!”
Ela não reagiu logo, mas eu sentia-lhe a ansiedade. Finalmente, perguntou:
“Qual é a tua ideia?”
“Então eu não examino todas as manhãs o estado de saúde do clone? Amanhã, digo-lhe que ele não está nada bem, que precisa de um medicamento e dou-lhe a injecção que o devolve ao estado de coma artificial!”
Ela levantou a cabeça e pousou os seus olhos nos meus:
“A substância é perigosa. Pode até mandá-lo desta para melhor.”
“E depois?”
“Como reagirão os outros?”
“Digo-lhes que encontrei o clone naquele estado, quando entrei no quarto.”
“Mesmo que eles acreditem em ti, o que sucede depois?”
“Não sei. Só sei que não aguento mais esta situação. E pergunto-me que tipo de disparates a criatura ainda vai inventar. Vivemos à beira do precipício. Mas mesmo que ele poupe a tua vida e a minha até ao fim, eu não aguento mais um dia de execuções como este.”
Ela tornou a pousar a cabeça no meu peito e exalou:
“Nem eu.”
“Depois veio a Dra. Luninski...”
“Para lhe ser franco, eu no início nem gostei dela.”
“Gostou sim, só não o queria admitir. Pois eu, ainda antes de a raptarmos, soube logo que ela era a mulher certa para si.”
“É mesmo? Mas porquê?”
Ela encolheu os ombros:
“Chamemos-lhe intuição feminina. Vi logo que acabariam nos braços um do outro e até tentei convencer os meus colegas a raptar outra pessoa, um dos colaboradores do seu laboratório, por exemplo. A Presidência, porém, rejeitou qualquer proposta nesse sentido. Como a Dra. Luninski se tinha acabado de demitir do seu lugar de prestígio no laboratório do Professor Saturnino, a fim de emigrar, não iria ser tão procurada e o seu rapto não seria tão notado no mundo científico.”
Os nossos raptos tinham sido planeados ao pormenor! Aquilo lembrou-me de que toda esta gente era criminosa e psicologicamente instável. Não havia dúvida de que a Olga, neste dia, estava atractiva, possuía um certo carisma e tinha acabado de me fazer uma espécie de declaração de amor. Porém, ela própria me conduziria ao meu local de execução, se fosse esse o desejo da criatura!
De qualquer maneira, eu tinha vindo ter com ela a fim de lhe dar algum consolo, nesta hora difícil. Por isso a abracei e lhe beijei a face. Ela tornou a sorrir e disse:
“Desejo-lhe sorte, Professor. Sei que será feliz com a Dra. Luninski. E que estará ao lado do nosso Führer, quando este dominar o mundo!”
“Sim... com certeza...”
No dia das execuções, a Chanel e eu abstivemo-nos de deixar o nosso aposento. À noite, sentíamo-nos esgotados e vazios, como se tivéssemos cumprido com as nossas próprias mãos aquele horrível acto. Deitámo-nos, mas ficámos quase uma hora imóveis, sem adormecer. A cabeça dela pousava sobre o meu peito. Comecei a afagar os cabelos de seda e murmurei:
“Acabarei amanhã com este absurdo!”
Ela não reagiu logo, mas eu sentia-lhe a ansiedade. Finalmente, perguntou:
“Qual é a tua ideia?”
“Então eu não examino todas as manhãs o estado de saúde do clone? Amanhã, digo-lhe que ele não está nada bem, que precisa de um medicamento e dou-lhe a injecção que o devolve ao estado de coma artificial!”
Ela levantou a cabeça e pousou os seus olhos nos meus:
“A substância é perigosa. Pode até mandá-lo desta para melhor.”
“E depois?”
“Como reagirão os outros?”
“Digo-lhes que encontrei o clone naquele estado, quando entrei no quarto.”
“Mesmo que eles acreditem em ti, o que sucede depois?”
“Não sei. Só sei que não aguento mais esta situação. E pergunto-me que tipo de disparates a criatura ainda vai inventar. Vivemos à beira do precipício. Mas mesmo que ele poupe a tua vida e a minha até ao fim, eu não aguento mais um dia de execuções como este.”
Ela tornou a pousar a cabeça no meu peito e exalou:
“Nem eu.”
7 de novembro de 2010
34º Episódio
Suspirei conformado, mas pedi ainda:
“Só mais um favor, Sr. Cebolo: deixe-me falar uma última vez com a Olga!”
“Impossível. A nenhum preso é permitido receber visitas.”
“Peço-lhe, em nome da nossa amizade! Sabe, é que ela na Sala da Presidência lançou-me um olhar tão angustiado, que não me sai da cabeça.”
“Mas não foi por saber que ia ser executada. A Olga não teme a morte.”
“Então porque foi?”
Ele suspirou:
“Por causa da maneira com que o senhor implorou pela vida da Dra. Luninski.”
“O quê? Tem a certeza?”
O Sr. Cebolo não respondeu. Depois de uma curta reflexão, disse:
“Vou abrir uma excepção e levá-lo à presença da Olga. Sinto vontade de dar uma última alegria à rapariga.”
A Olga dividia uma cela com a Sra. Relot, pelo que tive que tolerar todo o tempo aquele olhar idiota através dos óculos quadrados pousado em nós.
Não sei se era a força das circunstâncias, ou por eu estar mais sensível à sua pessoa, o certo é que a russa se me apresentava sob um ponto de vista totalmente diferente. Tinha os cabelos soltos pelos ombros e a severidade desaparecera do seu rosto, dando lugar a um olhar melancólico, mas inteligente. Apercebi-me de que ela era dotada de uma beleza e de uma dignidade especiais. Tornei a pensar nos filmes antigos que tinha visto em casa do meu colega, pois a Olga fazia-me lembrar a protagonista de um filme noir, assim uma... Lauren Bacall. E também me fez lembrar que eu preferia as louras, antes de me apaixonar pela Chanel.
Ela sorriu:
“Sempre veio, Professor.”
Agora, até a sua voz rouca se me soava sensual. Peguei-lhe nas mãos e os seus olhos castanho-claros brilharam.
“Admiro a sua coragem, Olga. Você mais parece uma diva do que uma mulher condenada à morte.”
“Só para ouvi-lo dizer isso, já valeu a pena vir parar a esta cela.”
“Eu... sinto-me em parte responsável pela situação. Sinto muito...”
“Não, Professor. O senhor trabalhou para nós e fez um serviço excepcional: devolveu-nos o nosso Führer.”
“Sim”, piou a Sra. Relot e eu estremeci, pois tinha-me esquecido dela. “Morremos para salvar o mundo! Nunca mais ninguém falará de Cristo!”
Meu Deus, que mais absurdos eu teria ainda que ouvir? Fixei de novo a minha atenção na Olga:
“O Sr. Cebolo disse-me que você não temia a morte.”
Ela suspirou:
“Há anos que ando cansada desta vida, só me trouxe tristezas e desilusões... Foi por isso que me liguei a esta comunidade. Mas quem verdadeiramente deu um novo sentido à minha vida, foi o senhor, Professor.”
“Eu?!”
“Sim... e no entanto...” Largou as minhas mãos, sentou-se sobre a sua cama e exalou: “Nunca me mandou chamar.”
“Chamar?”
“Logo no primeiro dia lhe disse que me podia chamar a qualquer hora, se precisasse de mim. Sabe, nós, os seus raptores, tínhamo-lo observado dias a fio. E eu acabei por não resistir ao seu charme...”
“Oh!” Sentei-me ao lado dela. “Naquela altura eu estava confuso demais para me aperceber de uma coisa dessas.”
“Só mais um favor, Sr. Cebolo: deixe-me falar uma última vez com a Olga!”
“Impossível. A nenhum preso é permitido receber visitas.”
“Peço-lhe, em nome da nossa amizade! Sabe, é que ela na Sala da Presidência lançou-me um olhar tão angustiado, que não me sai da cabeça.”
“Mas não foi por saber que ia ser executada. A Olga não teme a morte.”
“Então porque foi?”
Ele suspirou:
“Por causa da maneira com que o senhor implorou pela vida da Dra. Luninski.”
“O quê? Tem a certeza?”
O Sr. Cebolo não respondeu. Depois de uma curta reflexão, disse:
“Vou abrir uma excepção e levá-lo à presença da Olga. Sinto vontade de dar uma última alegria à rapariga.”
A Olga dividia uma cela com a Sra. Relot, pelo que tive que tolerar todo o tempo aquele olhar idiota através dos óculos quadrados pousado em nós.
Não sei se era a força das circunstâncias, ou por eu estar mais sensível à sua pessoa, o certo é que a russa se me apresentava sob um ponto de vista totalmente diferente. Tinha os cabelos soltos pelos ombros e a severidade desaparecera do seu rosto, dando lugar a um olhar melancólico, mas inteligente. Apercebi-me de que ela era dotada de uma beleza e de uma dignidade especiais. Tornei a pensar nos filmes antigos que tinha visto em casa do meu colega, pois a Olga fazia-me lembrar a protagonista de um filme noir, assim uma... Lauren Bacall. E também me fez lembrar que eu preferia as louras, antes de me apaixonar pela Chanel.
Ela sorriu:
“Sempre veio, Professor.”
Agora, até a sua voz rouca se me soava sensual. Peguei-lhe nas mãos e os seus olhos castanho-claros brilharam.
“Admiro a sua coragem, Olga. Você mais parece uma diva do que uma mulher condenada à morte.”
“Só para ouvi-lo dizer isso, já valeu a pena vir parar a esta cela.”
“Eu... sinto-me em parte responsável pela situação. Sinto muito...”
“Não, Professor. O senhor trabalhou para nós e fez um serviço excepcional: devolveu-nos o nosso Führer.”
“Sim”, piou a Sra. Relot e eu estremeci, pois tinha-me esquecido dela. “Morremos para salvar o mundo! Nunca mais ninguém falará de Cristo!”
Meu Deus, que mais absurdos eu teria ainda que ouvir? Fixei de novo a minha atenção na Olga:
“O Sr. Cebolo disse-me que você não temia a morte.”
Ela suspirou:
“Há anos que ando cansada desta vida, só me trouxe tristezas e desilusões... Foi por isso que me liguei a esta comunidade. Mas quem verdadeiramente deu um novo sentido à minha vida, foi o senhor, Professor.”
“Eu?!”
“Sim... e no entanto...” Largou as minhas mãos, sentou-se sobre a sua cama e exalou: “Nunca me mandou chamar.”
“Chamar?”
“Logo no primeiro dia lhe disse que me podia chamar a qualquer hora, se precisasse de mim. Sabe, nós, os seus raptores, tínhamo-lo observado dias a fio. E eu acabei por não resistir ao seu charme...”
“Oh!” Sentei-me ao lado dela. “Naquela altura eu estava confuso demais para me aperceber de uma coisa dessas.”
5 de novembro de 2010
Intermezzo # 13
O meu novo blogue não tem nada a ver com clones. Nem tão-pouco com visões (mais ou menos sinistras) de futuro. Aliás, como o seu próprio nome revela, é dedicado ao passado:
3 de novembro de 2010
33º Episódio
Naquele momento, só pensei em poupar a vida da Chanel. Afinal, nós ainda possuíamos um trunfo e chegara a hora de o jogar. Levantei-me de um salto, puxei a Chanel para mim e bradei:
“A Dra. Luninski só será eliminada por cima do meu cadáver! E, sem médicos, não lhe restará muito tempo de vida. O senhor padece de uma doença gravíssima!”
O clone fixou-me angustiado. Depois, virou-se para o Sr. Cebolo:
“Ele está a falar a sério?”
O português trocou um olhar breve comigo e replicou:
“Bem, eu cá confiava na palavra do Dr. Solani. Afinal, ele até já ganhou um prémio Nobel.”
“É mesmo?”
“Oh, sim. Além disso, está muito habituado a trabalhar em conjunto com a sua colega. Prescindir dos dois seria realmente arriscado, meu Führer.”
O clone compôs a repa e declarou:
“Acalme-se, doutor! A sua colega será poupada.”
Suspirei aliviado. Mas depois deparei com o olhar amargurado da Olga pousado em mim. Era a primeira vez que ela me encarava, havia várias semanas.
O clone ordenou a prisão de todas as mulheres e a reunião terminou.
A Chanel e eu regressámos completamente deprimidos aos nossos aposentos. O olhar da Olga tinha-se cravado a ferros na minha cabeça e resolvi ir ter com o Sr. Cebolo, que, além de ser aquele que estava mais próximo do Führer, pelos vistos ainda simpatizava comigo.
“Peço-lhe, Sr. Cebolo, evite esta tragédia!”
“Perante o Führer sou impotente, meu caro Professor.”
“Mas… as mulheres! O Sr. gosta delas, não tinha um caso com a Olga?”
Ele fez um gesto de impaciência com a mão:
“Isso já acabou.”
“Mesmo assim. Consegue imaginar um mundo sem mulheres?”
“É realmente uma pena”, suspirou. “Mas se o Führer assim o deseja…”
“Talvez ele esteja apenas... fatigado.”
“Acha?”
Naquele momento, surgiu-me uma ideia: porque não experimentar nele a estratégia que tinha falhado com o Kornflock? O Sr. Cebolo parecia mais receptivo. Acrescentei:
“Sim, afinal ele esteve, digamos, morto quase 200 anos e tem, de repente, que tomar todo o tipo de resoluções. Eu podia tomar providências para que ele repousasse durante alguns dias.”
“Pensa mesmo que lhe faria bem?”
O homem estava quase convencido. Aquilo animou-me:
“Tenho a certeza que sim. O Führer acordaria um outro homem e…”
“Um outro homem?! O senhor causa-me calafrios, Professor. Ora diga-me: estaria esse outro homem em condições de dominar o mundo?”
Aquela pergunta era-me tão inesperada, que eu, assim a quente, acabei a balbuciar:
“Não sei… talvez… Sim, claro…”
“Está a ver, Professor? Nem sequer o senhor tem a certeza.” Abanou a cabeça. “Acredite que me custa muito ver desaparecer todas estas minhas companheiras. Mas tenho que agarrar esta oportunidade única com unhas e dentes.”
“Oportunidade?”
“Tornei-me no conselheiro mais íntimo do Führer e tenciono estar ao lado dele, quando ele se tornar no homem mais poderoso do mundo!”
Com mil milhões de pipetas, aquela gente devia mesmo ser toda internada! O Sr. Cebolo deve ter-se apercebido do desespero no meu olhar, pois abriu os braços num gesto de impotência, com as palavras:
“Sinto muito, Professor.”
“A Dra. Luninski só será eliminada por cima do meu cadáver! E, sem médicos, não lhe restará muito tempo de vida. O senhor padece de uma doença gravíssima!”
O clone fixou-me angustiado. Depois, virou-se para o Sr. Cebolo:
“Ele está a falar a sério?”
O português trocou um olhar breve comigo e replicou:
“Bem, eu cá confiava na palavra do Dr. Solani. Afinal, ele até já ganhou um prémio Nobel.”
“É mesmo?”
“Oh, sim. Além disso, está muito habituado a trabalhar em conjunto com a sua colega. Prescindir dos dois seria realmente arriscado, meu Führer.”
O clone compôs a repa e declarou:
“Acalme-se, doutor! A sua colega será poupada.”
Suspirei aliviado. Mas depois deparei com o olhar amargurado da Olga pousado em mim. Era a primeira vez que ela me encarava, havia várias semanas.
O clone ordenou a prisão de todas as mulheres e a reunião terminou.
A Chanel e eu regressámos completamente deprimidos aos nossos aposentos. O olhar da Olga tinha-se cravado a ferros na minha cabeça e resolvi ir ter com o Sr. Cebolo, que, além de ser aquele que estava mais próximo do Führer, pelos vistos ainda simpatizava comigo.
“Peço-lhe, Sr. Cebolo, evite esta tragédia!”
“Perante o Führer sou impotente, meu caro Professor.”
“Mas… as mulheres! O Sr. gosta delas, não tinha um caso com a Olga?”
Ele fez um gesto de impaciência com a mão:
“Isso já acabou.”
“Mesmo assim. Consegue imaginar um mundo sem mulheres?”
“É realmente uma pena”, suspirou. “Mas se o Führer assim o deseja…”
“Talvez ele esteja apenas... fatigado.”
“Acha?”
Naquele momento, surgiu-me uma ideia: porque não experimentar nele a estratégia que tinha falhado com o Kornflock? O Sr. Cebolo parecia mais receptivo. Acrescentei:
“Sim, afinal ele esteve, digamos, morto quase 200 anos e tem, de repente, que tomar todo o tipo de resoluções. Eu podia tomar providências para que ele repousasse durante alguns dias.”
“Pensa mesmo que lhe faria bem?”
O homem estava quase convencido. Aquilo animou-me:
“Tenho a certeza que sim. O Führer acordaria um outro homem e…”
“Um outro homem?! O senhor causa-me calafrios, Professor. Ora diga-me: estaria esse outro homem em condições de dominar o mundo?”
Aquela pergunta era-me tão inesperada, que eu, assim a quente, acabei a balbuciar:
“Não sei… talvez… Sim, claro…”
“Está a ver, Professor? Nem sequer o senhor tem a certeza.” Abanou a cabeça. “Acredite que me custa muito ver desaparecer todas estas minhas companheiras. Mas tenho que agarrar esta oportunidade única com unhas e dentes.”
“Oportunidade?”
“Tornei-me no conselheiro mais íntimo do Führer e tenciono estar ao lado dele, quando ele se tornar no homem mais poderoso do mundo!”
Com mil milhões de pipetas, aquela gente devia mesmo ser toda internada! O Sr. Cebolo deve ter-se apercebido do desespero no meu olhar, pois abriu os braços num gesto de impotência, com as palavras:
“Sinto muito, Professor.”
31 de outubro de 2010
32º Episódio
Naquele serão, a sós com Chanel, disse-lhe:
“Sinto-me o responsável por toda esta embrulhada.”
“Não te esqueças de que não trabalhaste sozinho. Além disso, obrigaram-nos a isso.”
“Sim, mas, ao mesmo tempo, bem sabes como me agradou levar a cabo uma experiência destas.”
“Por outro lado, se tivesses liberdade de escolha, jamais utilizarias a herança genética do Hitler para esse efeito.”
Apesar de ela ter razão, não conseguia aliviar a minha consciência. A Chanel acrescentou:
“Demais a mais, o clone mandou eliminar uma parte dos seus próprios compinchas, que são de qualquer modo fanáticos e que dificilmente se adaptariam a uma vida fora deste bunker. Enquanto ele se der por satisfeito com isso, deixando o resto do mundo em paz...”
“Fanáticos, ou não, são seres humanos. Sempre me alegrei com o facto de ter nascido num tempo em que a pena de morte já não existe em nenhum estado americano. Além disso, quem sabe o que ainda passará pela cabeça da criatura? Quem me diz que ela amanhã não acorda a detestar médicos?”
“Nós não somos médicos.”
“E depois? Se calhar ele até gosta menos de cientistas!”
Quanto mais voltas dávamos, mais nos enrodilhávamos naquela armadilha. E, por mais difícil que me fosse aceitar o facto, e me é agora escrever sobre ele, um terço daquela comunidade foi mesmo reduzido a cinzas, incluindo os senhores Kornflock e Obskur, o mesmo que guardara o diabo do carvãozinho com tanto amor e dedicação! A maior parte dos executados eram alemães, a raça tão sagrada ao verdadeiro Hitler! Não deixava de ter a sua ironia... Mas, depois de viragem tão trágica nos acontecimentos, quem conseguia rir?
Três dias mais tarde, encontrávamo-nos de novo na Sala da Presidência, quando aquela criatura horrível fez saber que todos deveriam usar bigode! Mas não um bigode qualquer, tinha que ser um bigode ridículo como o dele!
Aquela ordem possuía pelo menos o condão de ser inofensiva. Pedi a palavra e declarei sorridente:
“Para isso, ninguém precisa de ser eliminado, não é verdade? Quem ainda não apresenta tão distinto bigode, só precisa de o deixar crescer. São apenas uns dias de paciência, meu Führer, até que...”
“E as mulheres, meu caro doutor?”
O meu coração disparou, qual atleta ao tiro da partida, suores frios esguichavam-se-me do cachaço. Gaguejei:
“Mas... mas o senhor não se atreveria a...”
“Ai não, que não me atrevo!”
“Mas...”, procurava um argumento forte, “mas isso significaria o fim da humanidade!”
O clone olhava-me sem perceber patavina e eu acrescentei:
“Extinguiríamos a humanidade! Tem que haver homens e mulheres para...”
“Acabou-se!” berrou ele, dando um murro na mesa. Depois, falou em tom de birra, como uma criança que quer fazer prevalecer o seu desejo à força, pelo que a repa se lhe descontrolou: “Não admito a existência de pessoas sem um bigode como o meu. Quem não está em condições de o ter, é por mim declarado como uma aberração. E será eliminado!”
“Sinto-me o responsável por toda esta embrulhada.”
“Não te esqueças de que não trabalhaste sozinho. Além disso, obrigaram-nos a isso.”
“Sim, mas, ao mesmo tempo, bem sabes como me agradou levar a cabo uma experiência destas.”
“Por outro lado, se tivesses liberdade de escolha, jamais utilizarias a herança genética do Hitler para esse efeito.”
Apesar de ela ter razão, não conseguia aliviar a minha consciência. A Chanel acrescentou:
“Demais a mais, o clone mandou eliminar uma parte dos seus próprios compinchas, que são de qualquer modo fanáticos e que dificilmente se adaptariam a uma vida fora deste bunker. Enquanto ele se der por satisfeito com isso, deixando o resto do mundo em paz...”
“Fanáticos, ou não, são seres humanos. Sempre me alegrei com o facto de ter nascido num tempo em que a pena de morte já não existe em nenhum estado americano. Além disso, quem sabe o que ainda passará pela cabeça da criatura? Quem me diz que ela amanhã não acorda a detestar médicos?”
“Nós não somos médicos.”
“E depois? Se calhar ele até gosta menos de cientistas!”
Quanto mais voltas dávamos, mais nos enrodilhávamos naquela armadilha. E, por mais difícil que me fosse aceitar o facto, e me é agora escrever sobre ele, um terço daquela comunidade foi mesmo reduzido a cinzas, incluindo os senhores Kornflock e Obskur, o mesmo que guardara o diabo do carvãozinho com tanto amor e dedicação! A maior parte dos executados eram alemães, a raça tão sagrada ao verdadeiro Hitler! Não deixava de ter a sua ironia... Mas, depois de viragem tão trágica nos acontecimentos, quem conseguia rir?
Três dias mais tarde, encontrávamo-nos de novo na Sala da Presidência, quando aquela criatura horrível fez saber que todos deveriam usar bigode! Mas não um bigode qualquer, tinha que ser um bigode ridículo como o dele!
Aquela ordem possuía pelo menos o condão de ser inofensiva. Pedi a palavra e declarei sorridente:
“Para isso, ninguém precisa de ser eliminado, não é verdade? Quem ainda não apresenta tão distinto bigode, só precisa de o deixar crescer. São apenas uns dias de paciência, meu Führer, até que...”
“E as mulheres, meu caro doutor?”
O meu coração disparou, qual atleta ao tiro da partida, suores frios esguichavam-se-me do cachaço. Gaguejei:
“Mas... mas o senhor não se atreveria a...”
“Ai não, que não me atrevo!”
“Mas...”, procurava um argumento forte, “mas isso significaria o fim da humanidade!”
O clone olhava-me sem perceber patavina e eu acrescentei:
“Extinguiríamos a humanidade! Tem que haver homens e mulheres para...”
“Acabou-se!” berrou ele, dando um murro na mesa. Depois, falou em tom de birra, como uma criança que quer fazer prevalecer o seu desejo à força, pelo que a repa se lhe descontrolou: “Não admito a existência de pessoas sem um bigode como o meu. Quem não está em condições de o ter, é por mim declarado como uma aberração. E será eliminado!”
30 de outubro de 2010
Intermezzo # 12
"E Dâmaso, depois de sorrir, de tossir, de dar um jeito ao bigode, estendeu a mão para acariciar também «Niniche» sobre os joelhos de Carlos. Mas a cadelinha, que havia momentos o espreitava com o olho desconfiado, ergueu-se, rompeu a ladrar furiosa.
- C'est moi, «Niniche»! - dizia Dâmaso, recuando a cadeira. - C'est moi, ami... Alors, «Niniche»...
Foi necessário que Maria Eduarda repreendesse severamente «Niniche». E, aninhada de novo no colo de Carlos, ela continuou a espreitar Dâmaso, rosnando, e com rancor.
- Já não me conhece - dizia ele embaraçado - é curioso...
- Conhece-o perfeitamente - acudiu Maria Eduarda muito séria. - Mas não sei o que o Sr. Dâmaso lhe fez, que ela tem-lhe ódio. É sempre este escândalo.
Dâmaso balbuciava, escarlate:
- Ora essa, minha senhora! O que lhe fiz?... Carícias, sempre carícias..."
Os Maias, Eça de Queiroz
27 de outubro de 2010
31º Episódio
Enquanto eu tentava lembrar-me de um outro subterfúgio, o clone compôs a repa, que, na sua irritação, já se lhe tinha soltado, e acrescentou mais calmo:
“Como eu, porém, o respeito muito doutor, permito-lhe recolher-se a um canto da sala na companhia do Sr. Kornflock. Dois minutos!”
“Obrigado... meu Führer.”
Levantei-me, aproximei-me do Sr. Kornflock, que ainda não se tinha mexido, apontei para o canto atrás dele e pedi-lhe:
“Se não se importa…”
O diabo do homem limitou-se a olhar-me irritado. E não se mexeu. A criatura avisou:
“O tempo já corre!"
Apercebi-me de que Sr. Cebolo fixava atento o seu relógio. Tornei a dirigir-me ao Kornflock:
“Peço-lhe, por favor!”
O alemão levantou-se finalmente. Enquanto nos deslocávamos ao canto em questão, comecei a duvidar que fosse aquela a pessoa mas indicada para expor a minha ideia. Dava-me melhor com o Cebolo ou o Lacucaracha, mas o primeiro era agora o conselheiro mais próximo da criatura e o segundo não se encontrava sob pressão, dado possuir um aspecto que, além da cor da pele, não diferenciava muito do seu Führer. Esperava, por isso, que o Sr. Kornflock, que se encontrava numa situação deveras precária, fosse mais receptivo aos meus argumentos. Além disso, para mim, ele era ainda o comandante.
Chegados ao canto, o homem sibilou-me:
“Mas que circo é este, Professor? Perdeu a consciência de si mesmo?”
“O clone vai longe demais”, sussurrei-lhe. “Ou acha que o devemos deixar eliminar uma grande parte da comunidade que tanto confia nele?”
“Quer o senhor dizer que considera contestar uma ordem do Führer?”
Meu Deus, mas será possível incutir bom senso num fanático? De repente, tive uma ideia:
“Aquele não é o Führer!”
“Como?!”
“É apenas uma cópia... uma cópia mal feita. Trata-se de uma criatura completamente confusa. Possui certamente características do antigo Hitler, mas parece não saber bem como há-de actuar para...”
“Afinal, onde é que o senhor quer chegar, Professor?”
Respirei fundo e resolvi arriscar tudo:
“Eu, na qualidade de criador do clone, sinto-me no direito de o devolver ao estado de coma artificial. Acho mesmo que lhe faria bem... talvez lhe arrumasse as ideias. Entretanto, nós, como pessoas civilizadas que somos, poderíamos reflectir sobre os próximos passos...”
“O Führer foi bem decidido e claro naquilo que disse. Não me apercebi de nenhuma criatura confusa, como o senhor lhe chama. Sendo assim, resta-nos vergarmo-nos aos seus desejos!”
“Mas o senhor não entende que a sua própria vida está em perigo?”
Nisto, o clone berrou:
“O tempo está quase a acabar!”
“Apenas o Führer”, sibilou-me o Sr. Kornflock, “possui o poder de tomar decisões. Não tenho a menor dúvida de que dominará o mundo. E se ele acha que eu, por qualquer motivo, não deverei estar presente nesse momento de glória, lá terá as suas razões.” Os olhos humedeceram-se-lhe, mas não de tristeza e, sim, de orgulho, pois acrescentou firme: “Submeto-me à sua vontade suprema!”
Dito isto, regressou ao seu lugar, deixando-me sozinho naquele canto. Sozinho e totalmente consternado. Depois de uns segundos de perplexidade, em que todos os presentes me observavam, resolvi regressar também à minha cadeira. A Chanel lançou-me um olhar cheio de interrogações e eu limitei-me a passar a mão pelos cabelos, despenteando-os ainda mais.
“Tudo bem consigo, doutor?”
A criatura soava desconfiada e eu balbuciei:
“Sim... tudo em ordem.”
“Ainda bem. Não me agradaria ter que prescindir da minha equipa médica.”
Pelos vistos, e apesar de eu ser maior e mais robusto do que ele, o homem tencionava poupar-me a vida.
“Como eu, porém, o respeito muito doutor, permito-lhe recolher-se a um canto da sala na companhia do Sr. Kornflock. Dois minutos!”
“Obrigado... meu Führer.”
Levantei-me, aproximei-me do Sr. Kornflock, que ainda não se tinha mexido, apontei para o canto atrás dele e pedi-lhe:
“Se não se importa…”
O diabo do homem limitou-se a olhar-me irritado. E não se mexeu. A criatura avisou:
“O tempo já corre!"
Apercebi-me de que Sr. Cebolo fixava atento o seu relógio. Tornei a dirigir-me ao Kornflock:
“Peço-lhe, por favor!”
O alemão levantou-se finalmente. Enquanto nos deslocávamos ao canto em questão, comecei a duvidar que fosse aquela a pessoa mas indicada para expor a minha ideia. Dava-me melhor com o Cebolo ou o Lacucaracha, mas o primeiro era agora o conselheiro mais próximo da criatura e o segundo não se encontrava sob pressão, dado possuir um aspecto que, além da cor da pele, não diferenciava muito do seu Führer. Esperava, por isso, que o Sr. Kornflock, que se encontrava numa situação deveras precária, fosse mais receptivo aos meus argumentos. Além disso, para mim, ele era ainda o comandante.
Chegados ao canto, o homem sibilou-me:
“Mas que circo é este, Professor? Perdeu a consciência de si mesmo?”
“O clone vai longe demais”, sussurrei-lhe. “Ou acha que o devemos deixar eliminar uma grande parte da comunidade que tanto confia nele?”
“Quer o senhor dizer que considera contestar uma ordem do Führer?”
Meu Deus, mas será possível incutir bom senso num fanático? De repente, tive uma ideia:
“Aquele não é o Führer!”
“Como?!”
“É apenas uma cópia... uma cópia mal feita. Trata-se de uma criatura completamente confusa. Possui certamente características do antigo Hitler, mas parece não saber bem como há-de actuar para...”
“Afinal, onde é que o senhor quer chegar, Professor?”
Respirei fundo e resolvi arriscar tudo:
“Eu, na qualidade de criador do clone, sinto-me no direito de o devolver ao estado de coma artificial. Acho mesmo que lhe faria bem... talvez lhe arrumasse as ideias. Entretanto, nós, como pessoas civilizadas que somos, poderíamos reflectir sobre os próximos passos...”
“O Führer foi bem decidido e claro naquilo que disse. Não me apercebi de nenhuma criatura confusa, como o senhor lhe chama. Sendo assim, resta-nos vergarmo-nos aos seus desejos!”
“Mas o senhor não entende que a sua própria vida está em perigo?”
Nisto, o clone berrou:
“O tempo está quase a acabar!”
“Apenas o Führer”, sibilou-me o Sr. Kornflock, “possui o poder de tomar decisões. Não tenho a menor dúvida de que dominará o mundo. E se ele acha que eu, por qualquer motivo, não deverei estar presente nesse momento de glória, lá terá as suas razões.” Os olhos humedeceram-se-lhe, mas não de tristeza e, sim, de orgulho, pois acrescentou firme: “Submeto-me à sua vontade suprema!”
Dito isto, regressou ao seu lugar, deixando-me sozinho naquele canto. Sozinho e totalmente consternado. Depois de uns segundos de perplexidade, em que todos os presentes me observavam, resolvi regressar também à minha cadeira. A Chanel lançou-me um olhar cheio de interrogações e eu limitei-me a passar a mão pelos cabelos, despenteando-os ainda mais.
“Tudo bem consigo, doutor?”
A criatura soava desconfiada e eu balbuciei:
“Sim... tudo em ordem.”
“Ainda bem. Não me agradaria ter que prescindir da minha equipa médica.”
Pelos vistos, e apesar de eu ser maior e mais robusto do que ele, o homem tencionava poupar-me a vida.
24 de outubro de 2010
30º Episódio
Os três dias que se seguiram constam entre os mais felizes da minha vida. Só não digo os mais felizes porque a Dra. Lunin... não, a Chanel e eu continuávamos prisioneiros naquele maldito bunker e eu tinha saudades dos meus filhos.
Só víamos o clone de manhã, por uns momentos. Convencido que recuperava ainda da sua doença grave, a criatura receava uma recaída e insistia em que nós médicos o examinássemos, antes de se levantar. Medíamos-lhe o pulso e a tensão arterial e, assim que o declarávamos estável, éramos dispensados.
Não fazíamos por isso ideia do que é que os fanáticos andavam a congeminar. As refeições eram-nos servidas pela bola chinesa, que, como já referi, mal abria a boca. Só quando nos surgiu o Sr. Lacucaracha, tive ocasião de perguntar porque é que a Olga ou o Cebolo já não vinham ter connosco. O mexicano respondeu:
“A Sra. Tortinova não deseja vê-lo, Professor.”
“Ora essa, porquê?”
A única resposta que recebi foi um encolher de ombros. Depois, o homem acrescentou:
“O José Cebolo manda-lhe muitos cumprimentos, mas anda tão ocupado, que não tem tido tempo de vir falar consigo.”
“Ocupado? Com o quê?”
“O Cebolo tornou-se no segundo homem da nossa comunidade, logo a seguir ao Führer, que não prescinde da sua companhia e dos seus conselhos.”
“Logo a seguir ao Führer? Então e o comandante?”
“Refere-se ao Sr. Kornflock?” inquiriu ele desdenhoso. “O Führer não o aprecia por aí além.”
“Não me diga!”
“Sabe Professor”, aproximou-se de mim e segredou-me, “o Sr. Kornflock anda cheio de ciúmes do Cebolo.”
Aquilo inquietou-me. Era bem possível que o Kornflock se quisesse vingar daquela desconsideração. E, se aqueles doidos começassem a desentender-se uns com os outros, as consequências podiam ser catastróficas. Por isso, apesar do idílio amoroso, a Chanel e eu vivíamos em receio permanente.
Passados os três dias, fomos convocados a assistir a uma reunião da Presidência. Felizmente, ninguém nos obrigou a usar o uniforme oficial dos nazis. O clone fazia mesmo questão que andássemos de bata branca, talvez porque se sentia mais seguro com os seus médicos constantemente prontos a entrar em acção.
Tivemos direito a lugares sentados à mesa da Presidência. O meu era entre a Chanel e a Olga, mas a russa ignorou-me. O clone presidia à reunião com um Cebolo muito risonho do seu lado direito. A criatura levantou-se e afirmou:
“Minhas senhoras e meus senhores, hoje começará a limpeza do mundo!”
Meu Deus, que início! A Chanel e eu trocámos olhares alarmados. O clone prosseguiu:
“Dou assim conhecimento que eu, o vosso Führer, sou a imagem por que todos se devem guiar. Como a Dra. Luninski muito inteligentemente observou, eu não tenho nada de ariano. Absolutamente nada! Acabemos por isso com esse disparate da raça ariana! Ordeno que todos os homens que não se pareçam comigo e que sejam muito mais altos que eu, sejam eliminados!”
Seguiu-se um silêncio perplexo. Depois, ele acrescentou firme:
“Não tolero homens que não se pareçam comigo!”
Aquilo já não era nenhuma brincadeira. Fixei a minha atenção nos senhores Kornflock e Obskur, que, devido ao seu aspecto, se encontravam em grande perigo. Os dois olhavam pálidos e incrédulos para o seu Führer, mas mantinham-se em silêncio.
Eu é que não ia assistir imóvel à execução de pessoas, muito menos devido ao seu aspecto físico. Levantei o braço, pedindo permissão para usar da palavra. O clone dirigiu-se-me:
“Sim, doutor?”
“Meu... Führer”, (custava-me tratá-lo daquela maneira, mas tencionava manter-me nas suas boas graças) “permita-me trocar algumas palavras em particular com o Sr. Kornflock.”
“Em particular?”
Não era só a surpresa que eu descortinava nos seus olhos, também incómodo. Tinha contado com a confiança que ele depositava em mim e na Chanel, confiança ou mesmo dependência, mas agora receava que me tivesse sobrestimado. Além disso, lembrei-me que meço 1,85m e que tenho cabelos castanhos e olhos azuis-escuros.
“A que propósito?” perguntou ele ainda.
“Trata-se de um”, humedeci os lábios secos, “um assunto pessoal.”
“Não permito que ninguém abandone esta sala, antes de dar por terminada esta reunião!”
Aquilo ia de mal a pior!
Só víamos o clone de manhã, por uns momentos. Convencido que recuperava ainda da sua doença grave, a criatura receava uma recaída e insistia em que nós médicos o examinássemos, antes de se levantar. Medíamos-lhe o pulso e a tensão arterial e, assim que o declarávamos estável, éramos dispensados.
Não fazíamos por isso ideia do que é que os fanáticos andavam a congeminar. As refeições eram-nos servidas pela bola chinesa, que, como já referi, mal abria a boca. Só quando nos surgiu o Sr. Lacucaracha, tive ocasião de perguntar porque é que a Olga ou o Cebolo já não vinham ter connosco. O mexicano respondeu:
“A Sra. Tortinova não deseja vê-lo, Professor.”
“Ora essa, porquê?”
A única resposta que recebi foi um encolher de ombros. Depois, o homem acrescentou:
“O José Cebolo manda-lhe muitos cumprimentos, mas anda tão ocupado, que não tem tido tempo de vir falar consigo.”
“Ocupado? Com o quê?”
“O Cebolo tornou-se no segundo homem da nossa comunidade, logo a seguir ao Führer, que não prescinde da sua companhia e dos seus conselhos.”
“Logo a seguir ao Führer? Então e o comandante?”
“Refere-se ao Sr. Kornflock?” inquiriu ele desdenhoso. “O Führer não o aprecia por aí além.”
“Não me diga!”
“Sabe Professor”, aproximou-se de mim e segredou-me, “o Sr. Kornflock anda cheio de ciúmes do Cebolo.”
Aquilo inquietou-me. Era bem possível que o Kornflock se quisesse vingar daquela desconsideração. E, se aqueles doidos começassem a desentender-se uns com os outros, as consequências podiam ser catastróficas. Por isso, apesar do idílio amoroso, a Chanel e eu vivíamos em receio permanente.
Passados os três dias, fomos convocados a assistir a uma reunião da Presidência. Felizmente, ninguém nos obrigou a usar o uniforme oficial dos nazis. O clone fazia mesmo questão que andássemos de bata branca, talvez porque se sentia mais seguro com os seus médicos constantemente prontos a entrar em acção.
Tivemos direito a lugares sentados à mesa da Presidência. O meu era entre a Chanel e a Olga, mas a russa ignorou-me. O clone presidia à reunião com um Cebolo muito risonho do seu lado direito. A criatura levantou-se e afirmou:
“Minhas senhoras e meus senhores, hoje começará a limpeza do mundo!”
Meu Deus, que início! A Chanel e eu trocámos olhares alarmados. O clone prosseguiu:
“Dou assim conhecimento que eu, o vosso Führer, sou a imagem por que todos se devem guiar. Como a Dra. Luninski muito inteligentemente observou, eu não tenho nada de ariano. Absolutamente nada! Acabemos por isso com esse disparate da raça ariana! Ordeno que todos os homens que não se pareçam comigo e que sejam muito mais altos que eu, sejam eliminados!”
Seguiu-se um silêncio perplexo. Depois, ele acrescentou firme:
“Não tolero homens que não se pareçam comigo!”
Aquilo já não era nenhuma brincadeira. Fixei a minha atenção nos senhores Kornflock e Obskur, que, devido ao seu aspecto, se encontravam em grande perigo. Os dois olhavam pálidos e incrédulos para o seu Führer, mas mantinham-se em silêncio.
Eu é que não ia assistir imóvel à execução de pessoas, muito menos devido ao seu aspecto físico. Levantei o braço, pedindo permissão para usar da palavra. O clone dirigiu-se-me:
“Sim, doutor?”
“Meu... Führer”, (custava-me tratá-lo daquela maneira, mas tencionava manter-me nas suas boas graças) “permita-me trocar algumas palavras em particular com o Sr. Kornflock.”
“Em particular?”
Não era só a surpresa que eu descortinava nos seus olhos, também incómodo. Tinha contado com a confiança que ele depositava em mim e na Chanel, confiança ou mesmo dependência, mas agora receava que me tivesse sobrestimado. Além disso, lembrei-me que meço 1,85m e que tenho cabelos castanhos e olhos azuis-escuros.
“A que propósito?” perguntou ele ainda.
“Trata-se de um”, humedeci os lábios secos, “um assunto pessoal.”
“Não permito que ninguém abandone esta sala, antes de dar por terminada esta reunião!”
Aquilo ia de mal a pior!
23 de outubro de 2010
Intermezzo # 11
CÃES DO ALENTEJO
- Já dei a minha volta. Deixem-me entrar, que ninguém aguenta este calorão!
- Quem interrompe a minha sessão de ioga?
- Gosto de observar o movimento. Não percebo é porque os humanos andam sempre cheios de pressa!
- Quem me acorda? Ah, são turistas de máquina fotográfica em punho!
- Parecem inofensivos. Acho que posso continuar a minha soneca.
- Não acham que já tiraram fotografias suficientes?
Estes cães, que fotografámos em Évora, Beja e Vila Viçosa, em Setembro, pareciam bem alimentados e irradiavam paz. Eram dóceis e calmos. Espero que isto signifique uma mudança nas mentalidades. E que continue a melhorar!
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