Janela Indiscreta

Este blogue foi recomendado pelo Pedro Rolo Duarte no seu programa Janela Indiscreta, da Antena 1, a 28-07-2010.
A história chegou ao fim, foram 42 episódios ao longo de meio ano. Mas ela está cá toda, é só consultar o arquivo do blogue, começando em Julho de 2010. Ou escolha o episódio que quiser, utilizando a caixa de pesquisa, aqui ao lado.
À laia de motivação, aqui fica a republicação do 1º Episódio.

30 de julho de 2010

Intermezzo # 3


Já estou no ar?

Então, aqui vai:

Claro que isto não chega para que eternizem a minha dona numa estátua (esta introdução tem a ver com o Intermezzo # 1 deste blogue, que também se encontra aqui).
Mas ouvir o simpático Pedro Rolo Duarte fazer a divulgação desta "saga" na "Janela Indiscreta" da Antena 1 encheu a minha dona de orgulho.

Também vocês o podem ouvir aqui.

Resta-me dizer que o link para o blogue do Pedro Rolo Duarte está ali na barra lateral.

E não se esqueçam: no Domingo há mais "Cloning"!

Um big kiss, desta vez da vossa

Lucy

28 de julho de 2010

5º Episódio

Suspirando de resignação, segui os meus raptores e o Sr. Obskur, que transportava a sua amada caixa com o carvãozinho. O laboratório parecia ser adequado, até lá havia duas incubadoras de tamanhos diferentes. Perante tão bons instrumentos e computadores, tive que perguntar:
“Mas como podiam os senhores saber exactamente do que é que eu precisava?”
O Sr. Cebolo dirigiu-se-me cheio de bonomia:
“Isso foi cá o nosso Dieguito, o homem é um crânio! Não desfazendo, Professor.”
“O nosso Dieguito?”
“Ele refere-se ao Diego Lacucaracha”, esclareceu a Sra. Tortinova e, dirigindo-se ao Sr. Obskur: “Vai buscá-lo, para que o Professor fique já a saber de tudo!”
O atleta louro, no entanto, mantinha-se paralisado, com a caixa nas mãos. Parecia de novo prestes a romper em pranto. A voz de vodka insistiu:
“Então, não me ouviste?”
“Custa-me tanto separar-me dele!”
“Acaba lá com as lamúrias”, exigiu a russa, “já chorámos que chegue. E, quanto mais depressa o Professor começar com o seu trabalho, melhor.”
“Para ti é mais fácil”, protestou o Sr. Obskur, enquanto punha a caixa em cima de uma mesa. “Tu não viveste todos estes anos a seu lado.” Afastou-se a fungar, procurando um lenço pelos bolsos.
Os meus aposentos pareciam confortáveis e estavam limpos. O Sr. Cebolo foi tratar do meu pequeno-almoço e eu sentei-me finalmente. O meu cansaço e o peso que sentia sobre os ombros deviam ser perceptíveis no meu rosto, pois a Sra. Tortinova sorriu e disse-me:
“Anime-se, caro Professor! Depois de um bom sono, sentir-se-á melhor. No armário do seu quarto encontrará roupa lavada, coisas práticas, bem ao seu gosto. Aconselho-o a tomar um banho e a pentear bem o cabelo. É que o nosso comandante dá muito valor a um aspecto cuidado.”
Enfiei a mão pelos cabelos em desordem. Estavam sem dúvida compridos demais, mas eu esperava que ninguém me obrigasse a cortá-los curtos, à maneira dos nazis.
“Além disso”, prosseguiu a Sra. Tortinova, “oferecemos-lhe a possibilidade com a qual com certeza sonhava. Diga lá: do ponto de vista científico, não é um regalo, este projecto?”
Realmente, havia uma parte em mim que se regozijava. Mas sentia-me cansado demais para me ocupar com os meus sentimentos contraditórios e limitei-me a um sorriso amarelo.
O Sr. Cebolo surgiu, empurrando um carrinho de servir e, ao deparar com o homem que o acompanhava, quase caí da cadeira. Apesar de também ter o cabelo curto penteado com gel e de usar um daqueles fatos cinzentos e a braçadeira com a cruz suástica, eu reconheci o empregado de limpeza mexicano que trabalhava há meses no meu laboratório de Los Angeles:
“Pedro!”
“Qual Pedro, qual carapuça”, retorquiu o Sr. Cebolo. “Ele chama-se mas é Diego Lacucaracha e trabalhava como guarda-livros em laboratórios científicos, antes de se juntar a nós.”
“O quê?!”
“Perante si, apresentou-se como empregado de limpeza. Por isso, sabíamos exactamente do que o senhor precisava.”
Pousei um olhar assombrado no Sr. Lacucaracha. Ele abriu os braços num gesto de impotência e disse:
“Sinto muito, Professor, mas eu era o único que conhecia este género de parafernália. Fiz, anos a fio, inventário para os mais famosos laboratórios de Nova Iorque. Juro, porém, que enquanto estive no seu, não espionei para nenhum dos seus rivais. O meu único objectivo era montar este seu laboratório. Espero que esteja satisfeito.”
Só consegui acenar com a cabeça.

25 de julho de 2010

4º Episódio

Todo o anfiteatro rebentou em tal orgia de sieg heils, que me começaram a doer os ouvidos. Nunca tinha visto tantos fanáticos juntos e, mais do que nunca, senti a falta do recolhimento e da solidão do meu amado laboratório.
Possuía, porém, ainda alguns trunfos. Assim que a multidão se acalmou, perguntei:
“Vossas senhorias já pensaram na possibilidade de esse pedaço de carvão nem sequer ter pertencido a Hitler? O corpo da companheira não foi cremado junto com o dele? E quem nos diz que isso terá origem orgânica? Quem sabe, não se trata de uma qualquer pedrita? Ou de um botão do sobretudo do Führer? Ou até de...”
“Tenho a certeza”, interrompeu-me o Sr. Kornflock (sorria, mas o seu tom era indubitavelmente ameaçador), “que o senhor estará em condições de esclarecer essa questão em pouco tempo.”
“Sim, claro”, respondi e atrevi-me a questionar: “Se o... carvãozinho não tiver utilidade para o nosso projecto, eu... poderei ir à minha vida?”
“Ir à sua vida?!”
O comandante desatou às gargalhadas. Logo todo o anfiteatro escancarou as goelas e eu resisti à tentação de tapar os ouvidos, não queria enfurecer ainda mais aquela gente.
O Sr. Kornflock acabou de rir de repente, como se alguém tivesse carregado numa tecla que lhe desligasse tal função, e, a um sinal seu, todos os outros fizeram o mesmo. Depois, dirigiu-se-me cheio de ironia:
“No seu lugar, eu rezaria para que o carvãozinho seja aquilo que esperamos, Professor Solani, e que esteja em condições de ser trabalhado.”
Quase fiz nas calças, mas retorqui-lhe o sorriso com as palavras:
“Acha então que eu não devia recusar este projecto?”
“Aconselho-o a que não o faça. Sabe, é que nós estamos bem apetrechados. Temos, neste bunker, uma câmara de gás e um crematório.” Controlou o riso, para poder acabar: “De si, meu caro Professor, nem um carvãozinho sobrava!”
Todos gargalharam de novo, fazendo vibrar as paredes de pedra. Na minha náusea, dei-me conta de quão fraco estava. A noite já tinha com certeza passado, o que queria dizer que eu já não dormia há 24 horas e há pelo menos sete que não comia. Referi isso, afinal eles precisavam de mim em bom estado.
O Sr. Kornflock tornou-se automaticamente amável, como se fôssemos grandes amigos e tivéssemos passado a noite em amena cavaqueira:
“Junto com os senhores Mao Tsé Tinho e José Cebolo, a Sra. Olga Tortinova irá levá-lo aos seus aposentos, ao lado do laboratório, e tratará do seu pequeno-almoço.”
Eram estes os meus três raptores: a Olga Tortinova era a voz de vodka, naturalmente de origem russa; o Mao Tsé Tinho era a tal bola chinesa e o José Cebolo devia ser português, a julgar pelo nome e pelo bigode farfalhudo. Além disso, era o único habitante daquele bunker que apresentava umas faces bem coradinhas.
Eu perguntava-me se o laboratório deles estaria apetrechado em condições. Mas de nada me adiantaria esperar o contrário. Não tinha a mínima possibilidade de recusar a tarefa. Se me tornasse inútil para aqueles fanáticos, e citando o Sr. Kornflock: “de mim não sobraria nem um carvãozinho”.

23 de julho de 2010

Intermezzo # 2



Nada como fazer uma pequena pausa e beber um copo em boa companhia!


Todos nós nos debatemos com falta de tempo. Resolvi, por isso, aceitar a sugestão de alguns dos simpáticos visitantes deste blogue e reduzir o tamanho dos episódios, publicando-os ao ritmo de dois por semana, passando esta “saga” a ser biebdomadária (palavrão que significa bissemanal).
Os episódios sairão ao domingo e à quarta-feira.

Uma outra novidade será a inclusão, no cabeçalho, de um pequeno resumo dos episódios anteriores. Para refrescar a memória. Ou informar quem aqui chegue pela primeira vez.

Agradecida pelas vossas sugestões!

Um big kiss da vossa

Kássia

19 de julho de 2010

3º Episódio

Virei-me para o atleta louro, mas este parecia incapaz de falar e o comandante pediu-lhe:
“Faça um esforço! O Professor precisa de ficar a saber de tudo.”
O Sr. Obskur recompôs-se e começou o seu relato:
“Um dos meus antepassados, chamado Erwin Obskur, vivia em Berlim e assistiu, em criança, à 2ª Guerra Mundial, no século XX. O seu pai manteve-se fiel ao Führer até ao último momento e transmitiu ao seu único filho a sua convicção inabalável pela ideologia nazi. Quando os russos se começaram a aproximar de Berlim e o Führer se confinou ao seu bunker, o pequeno Erwin acompanhava o pai todos os dias até à entrada da construção subterrânea. Nem bombas, nem rajadas de metralhadoras os impediam de fazer aquela peregrinação. Além da sua, o pai arriscava a vida do próprio filho, na esperança de lhe mostrar o Führer e, quiçá, tivessem oportunidade de lhe transmitir coragem e apoio na sua hora mais difícil. Lá chegados, abrigavam-se na trincheira construída à volta da entrada do bunker e observavam os acontecimentos. Infelizmente, não chegaram a ver o Führer, apenas as sentinelas ou alguns dos seus íntimos, que vinham apanhar ar fresco ou fumar os seus cigarros. Até àquele dia...“
A voz falhou-lhe. Mas, depois de o comandante lhe transmitir mais um pouco de ânimo, ele prosseguiu:
“Estava tudo perdido, os russos tomavam conta das ruas da nossa capital. O pai de Erwin não podia perder a oportunidade de tentar saber o que aconteceria ao Führer. Como sempre, tomou o filho pela mão e dirigiu-se ao local habitual. Era, porém, tarde demais…“
O atleta louro levou um lenço aos olhos e recomeçou a soluçar. A maior parte dos seus compinchas fez o mesmo, o Sr. Kornflock até teve que tirar os óculos redondos, a fim de limpar as lágrimas.
Eu ali permanecia, deslocado de tudo e de todos, o homem errado na cena errada... como antigamente, nas festas da Amanda. Bem, justiça seja feita! Os nossos convidados, como arqueólogos, colegas da minha ex-mulher, eram pessoas inteligentes. E não surgiam de fatos cinzentos.
De repente, receei que os nazis ficassem irritados pelo facto de eu não ver razões para chorar. Felizmente, nenhum deles fixou a sua atenção em mim, naquele momento.
O Sr. Obskur lá acalmou e prosseguiu com o seu relato:
“O Führer já tinha dado aquele passo de grande coragem, pondo um fim à sua vida, e o seu corpo foi trazido à entrada do bunker, a fim de ser queimado junto com o da sua companheira, como era seu desejo. Assim que o fogo se apagou e dos dois nada mais restava senão cinzas, afastaram-se aqueles que tinham participado nesta espécie de cerimónia fúnebre. Não se via mais ninguém nas redondezas e o pai de Erwin atreveu-se a aproximar-se do local com o pequeno. Fixaram as cinzas respeitosamente. Até que o miúdo teve a ideia de levar algumas como recordação. Aquilo agradou ao pai, que logo agarrou em duas mãos cheias e as enfiou no bolso do casaco.”
O Sr. Obskur fez uma pausa. Os seus camaradas pareciam recompostos das emoções fortes, a maior parte deles guardava os seus lenços. E o louro continuou:
“Assim que chegaram a casa, o pai deu conta que não tinha apenas trazido cinzas. Um pequeno pedaço encarvoado encontrava-se no meio delas.” O Sr. Obskur pousou os seus olhos azuis metálicos em mim. Depois, estendeu o braço em direcção à caixa em cima da mesa e anunciou triunfal: “Aquele carvãozinho!”
“O quê?!“ atirei eu, na minha estupefacção. “O senhor está a dizer-me que aquilo é o carvãozinho que o tal homem tirou da fogueira extinta, onde o corpo de Hitler foi queimado há quase duzentos anos?”
“Assim é, sem tirar nem pôr!”
Senti suores frios ao adivinhar para que é que aqueles fanáticos me tinham raptado. O Sr. Kornflock lançou impiedosamente:
“O senhor, Professor Solani, irá ressuscitar o nosso Führer! E, junto com ele, dominaremos o mundo!”
Tentei dizer algo, mas não consegui. Nunca me tinha sentido tão desesperado em toda a minha vida, nem quando a Amanda me disse que se queria divorciar. Tinha que haver uma saída daquele inferno, eu tinha que inventar uma forma...
De repente, lembrei-me de vários motivos que poderiam impossibilitar a concretização do projecto. Respirei fundo e anunciei:
“Minhas senhoras e meus senhores! Sinto muito desiludir-vos, mas esta é, até para mim, uma tarefa impossível de realizar!”
Um silêncio perplexo rodeou-me. Até que o Sr. Kornflock falou, cheio de fúria contida:
“Que quer o senhor dizer com isso? Afinal, já clonou animais extintos há centenas, ou até milhares de anos!”
“Tratava-se de fósseis petrificados, meu caro. Certas espécies de pedras e minerais desenvolvem condições que permitem a esses achados conservar informações sobre o ADN das criaturas. Há vários processos que possibilitam tal conservação, mas estar aqui a enumerá-los demoraria demasiado tempo e não nos levaria a lado nenhum. Mas duma coisa estou certo: esse pedaço de carvão é inútil!”
“Será mesmo, Professor?” O Sr. Obskur falava com uma frieza espantosa, para quem tinha acabado de chorar como uma criança. “E se eu lhe disser que o pai do pequeno Erwin era biólogo?”
Com mil tubos de ensaio! Senti os cabelos do cachaço eriçarem-se-me e o louro acrescentou triunfal:
“O homem, inteligente como era, logo arranjou maneira de criar um vácuo nessa caixa que vê à sua frente, a fim de evitar que também esse pedaço de carvão se transformasse em cinza.”
Engoli em seco. O vácuo podia realmente ter conservado informações genéticas. Mas retorqui ainda:
“E o senhor tem a certeza que esta é a mesma caixa? Não poderia a verdadeira ter sido perdida, ou...“
“Esta caixa, Professor Solani, foi guardada por Erwin Obskur, depois da morte do pai. E também se formou em Biologia. Estava quase a reformar-se, quando, em fins do século XX, o primeiro animal foi clonado, salvo erro, uma ovelha... Polly ou Molly...”
“Dolly”, lançou o comandante, “por causa das...“
Ia a fazer um gesto por sobre o peito, mas interrompeu-se e pigarreou embaraçado. Indiferente, o Sr. Obskur prosseguiu:
“Erwin apercebeu-se logo em que direcção a ciência se desenvolvia e informou um seu sobrinho que se interessava pela ideologia nazi, pois sabia que nenhum dos seus filhos seria receptivo à questão. Assim, a caixa foi transmitida em segredo, de geração em geração. Felizmente houve sempre alguém que se comprometia a guardá-la, como se do mais precioso dos tesouros se tratasse, enquanto se esperava pelo grande momento.”
“E esse momento chegou”, bradou o Sr. Kornflock. “Brevemente dominaremos o mundo!” Dirigiu-se à assistência, de braço direito esticado, como eu tinha visto nos filmes, e berrou: “Sieg heil!"

15 de julho de 2010

Intermezzo # 1



- Eh pá, diz-me lá! O que preciso eu de fazer para que me eternizem assim numa estátua?




- Não há pachorra! Uma vez famosos, deixam de comunicar com os mortais comuns!




Publicidade
(tlim tlão)

Não perca o 3º Episódio da saga "Cloning", na próxima segunda-feira!
Num blogue perto de si...

(tlim tlão)

12 de julho de 2010

2º Episódio

Ali estava eu, em frente daquele anfiteatro, todos aqueles olhos postos em mim… Na minha aflição, virei-me para a voz de vodka e deparei com uma mulher elegante, mas severa, à volta dos quarenta anos, com os cabelos louros apanhados numa banana, usando naturalmente um fato de saia e casaco cinzento e com a suástica na manga. Eu tinha, porém, a impressão que os seus olhos castanho-claros não me olhavam com a frieza de todos os outros e atrevi-me a murmurar:
“Onde estou?”
Ela aproximou-se de mim e desatou-me as mãos, enquanto me sussurrava com a sua voz intrigante:
“Fale alemão, Professor! Aqui não é admitida qualquer outra língua.”
Eu tinha-me naturalmente expressado na minha língua materna, mas não me incomodava treinar um pouco de alemão. No entanto, antes que pudesse repetir a pergunta no idioma certo, aproximou-se de mim um homem louro de óculos redondos. Tinha o cabelo bem curto, como aliás todos os homens presentes. Ao contrário de mim. Escusado será dizer que me esqueço de ir ao barbeiro. E como os meus cabelos castanhos são ondulados e quase nunca estão penteados, as pontas reviram-se em todas as direcções.
O homem louro estendeu-me a mão com as palavras:
“Bem-vindo ao nosso bunker, Professor Solani! Chamo-me Kornflock e sou o comandante desta nossa comunidade. Sinta-se em sua casa!”
Teria ouvido bem? Já me preparava para exprimir a minha fúria contra palavras que se me assomavam extremamente irónicas, mas segurei-me. Algo me dizia que entrasse no jogo dele. Apertei-lhe a mão e retorqui:
“Obrigado, Sr. Kornflock. Posso perguntar-lhe onde me encontro?”
“Está no maior bunker que jamais foi construído. Tenha porém compreensão para o facto de eu não lhe indicar o local exacto. Somos uma comunidade ilegal e não pretendemos correr riscos desnecessários.”
Naquele ponto, perguntei-me se não teria adormecido no laboratório e estaria a sonhar tudo aquilo. O Sr. Kornflock, no entanto, parecia-me muito real e eu resolvi continuar a cooperar:
“De que comunidade se trata?”
“Somos os últimos nazis que há no mundo.”
“Eu pensei que já não havia nenhum.”
Por um momento, receei que tivesse sido inconveniente, mas o Sr. Kornflock replicou com um sorriso:
“Assim é por nós desejado. Como o nosso número ia diminuindo e o mundo se nos tornava cada vez mais hostil, resolvemos mergulhar na clandestinidade. Estes”, fez um gesto largo e orgulhoso na direcção do anfiteatro, “são os últimos 200 nazis. Nazis dos quatro cantos do globo!”
Examinei a multidão mais atentamente e constatei realmente que se compunha de gente de várias origens. O Sr. Kornflock acrescentou:
“Além de nós alemães, temos nazis americanos, nazis ingleses, franceses, espanhóis, suecos, russos, canadianos, australianos, indianos, chineses, mexicanos...“
“Credo, já chega!”
O Sr. Kornflock olhou-me desagradado, por isso logo acrescentei:
“Desculpe, mas isto assim duma vez é demais para mim. Afinal, encontramo-nos a meio da noite e eu estive o dia inteiro a trabalhar.”
“Ah sim, claro.” Soava novamente amigável. “Apreciamos muito o seu trabalho, Professor, e depositamos muitas esperanças em si.”
“Esperanças?!“ Olhei em volta e declarei, no tom mais simpático que me foi possível: “Não quero ser desmancha-prazeres, Sr. Kornflock, mas receio que apanharam a pessoa errada. É um facto que falo muito bem alemão, mas não me interesso minimamente por política. Além disso, não faço ideia onde se situa o vosso admirável bunker. Se tivessem a amabilidade de me cobrir novamente com a serapilheira das salsichas, enfiar-me no carro e despejar-me no meio de Los Angeles, prometia esquecer toda esta história. Nem me custava nada. Acredite que, depois de dois dias de trabalho intensivo, eu...“
“Acredito, Professor Solani. Mas acontece que precisamos de si!”
“Mas eu não sirvo para nada. Se exceptuarmos as minhas pesquisas e as minhas experiências...“
“É precisamente isso que nos interessa.”
“Células e organismos? Clones de animais extintos?”
“Antes que continuemos a nossa conversa, Professor, permita-me que lhe apresente o Sr. Obskur.”
“O Sr. Obskur?“
Dirigido a um dos meus raptores, um chinês baixote e redondo como uma bola, o Sr. Kornflock berrou:
“Sr. Mao Tsé Tinho! Mande entrar o Sr. Obskur! “
“Às ordens, comandante!”
Depois de bater os tacões, a bola chinesa dirigiu-se a uma das portas do salão. A atmosfera entre os presentes tornou-se muito cerimoniosa. Pouco depois, esse Sr. Mao... qualquer coisa regressou, seguido por um outro louro de constituição atlética, provavelmente o tal Obskur. Notei a veneração que toda a comunidade lhe reservava e realmente o homem possuía todos os traços da raça ariana, sacralizada pelos nazis.
Constatei, porém, que os companheiros não o veneravam a ele, mas sim o objecto que ele trazia nas mãos. Àquela distância, vi apenas uma pequena caixa transparente. O Sr. Obskur movia-se devagar, cheio de cuidados, como se caminhasse por cima de uma película que receasse danificar. Mantinha, como todos os outros, o olhar fixo no objecto que transportava.
Parou em frente à mesa que se encontrava entre mim e a assistência do anfiteatro e depositou lá a caixa de vidro. Vi qualquer coisa escura lá dentro, parecia um pedaço de carvão. A veneração que o senhor Obskur lhe reservava humedecia-lhe os olhos e também muitos dos outros tinham dificuldades em controlar as lágrimas.
Observámos o carvãozinho durante minutos. Os nazis, enlevados, eu, no início curioso, depois, aborrecido. Ninguém se dava ao trabalho de me explicar que raio era aquilo. Muitos levavam um lenço aos olhos lacrimosos e cheguei a recear que o Sr. Obskur, aquele atleta, se atirasse para o chão em pranto.
Quando já não aguentava mais, virei-me para a voz de vodka. Apesar de ela parecer severa e de ter sido o Sr. Kornflock que falara comigo tão educadamente, eu sentia que aquela mulher simpatizava comigo. Perguntei-lhe:
“O que é aquilo?”
Ela fixou-me com o seu olhar emocionado, depois soluçou:
“Como é que o senhor pode falar assim dele?”
“Dele? Mas de quem?”
“Professor Solani!” Era novamente o Sr. Kornflock. “Prepare-se para ouvir a história do Sr. Obskur!”

5 de julho de 2010

1º Episódio

Fui raptado a 21 de Janeiro de 2112, o dia do meu 42º aniversário.
Admito que um cientista vencedor de um prémio Nobel represente um alvo apetecível para terroristas ou caçadores de resgates. Mas nem nas minhas fantasias mais loucas eu me teria lembrado de tais raptores.
Chamo-me Jason Solani, sou americano, vivo e trabalho em Los Angeles e recebi o Nobel por ter criado uma incubadora que permite a clonagem de animais extintos, nela se desenvolvendo o novo ser em algumas semanas.
Era quase meia-noite e encontrava-me sozinho no laboratório, envolvido no meu trabalho. Nada de anormal, nem mesmo no dia do meu aniversário. Hábitos deste tipo deram cabo do meu casamento, nem sei como a Amanda aguentou dez anos a meu lado.
Observava a holografia das células de uma espécie marinha descoberta há pouco tempo (uma estrutura fascinante!) quando ouvi a porta abrir-se atrás de mim. Pensei que fosse o Fabrício. Esse meu colega é quase tão obcecado quanto eu, surge-me muitas vezes no laboratório a meio da noite, a fim de pôr em prática uma ideia que teve em sonhos.
Preparava-me para me virar e perguntar: "Então, o que é desta vez?", quando me enfiaram uma serapilheira na cabeça.
Foi isso mesmo: uma serapilheira. Que cheirava a salsichas tipo Frankfurt!
Quedei-me tão embasbacado, que os meus raptores não precisaram de esforço para me atarem as mãos atrás das costas. Só caí em mim, quando alguém me segredou algo através do saco. Hoje sei que se tratava de uma mulher, na altura cheguei a duvidar, ao ouvir aquela voz de quem esvazia uma garrafa de vodka ao pequeno-almoço:
"Seja cooperativo, Professor! Não me obrigue a usar de violência contra si!"
Arrastaram-me para fora do prédio e eu nem me lembrei de gritar por socorro, tão ocupado estava a perguntar-me porque cargas de água a criatura falara comigo em alemão! Por outro lado, o prédio estava vazio àquela hora, de nada me adiantaria berrar.
Bem, o meu
faible por línguas é conhecido, falo fluentemente alemão e francês. Vejo-me assim mais preparado para assistir a conferências europeias. Não me dou com traduções feitas por computador, por mais que as aperfeiçoem, estão longe de fazer jus aos extintos tradutores simultâneos. E aprendo línguas estrangeiras com tanta facilidade, que aulas desse tipo se me tornaram numa maneira de vencer o stress. Até sei um pouco de português, o que me dava imenso jeito quando eu e a Amanda passávamos férias no Brasil... Em dez anos, dispus-me duas vezes a tirar férias.
Assim que chegámos à rua, fui empurrado para dentro de um carro, que logo arrancou e me deu a impressão de ser um modelo flutuante perfeitamente normal. Agora, se ele flutuava a 20 ou a 30 cm do solo, ou se atingia uma velocidade máxima de 450 ou 500 km/h, não sei dizer. Não pertenço ao género de criaturas a quem o ronco do motor tudo revela sobre o bólide. Nem sequer gosto de conduzir, mal entro no meu carro, ligo logo o piloto automático. Quero lá saber que assim a velocidade não ultrapasse os 150 km/h! Aproveito para dar uma olhadela no meu trabalho... Escusado será dizer que o meu portátil está ligado a todos os computadores do laboratório, para que possa acompanhar as minhas experiências 24 horas por dia. Sim, também isso irritava a Amanda...
A propósito, o meu ex-cunhado sabe tudo sobre carros. Adora velocidades. Quando se me assomou difícil assinar os papéis do divórcio, só precisei de pensar nas viagens que fiz ao lado daquele maluco, que ignora que é possível andar a menos de 350 km/h!
Regressemos ao meu rapto: apesar de tapado pela serapilheira a cheirar a salsichas, tentei falar com os meus sequestradores, mas eles mantinham-se mudos. Nem sequer a voz de vodka, sentada a meu lado, se deixou enredar na minha conversa.
Perdi a noção do tempo e não faço ideia quanto demorou a viagem. Só sei que, a determinada altura, notei que tínhamos entrado a grande velocidade num túnel que parecia não ter fim. Confesso que cheguei a dar graças a Deus pela serapilheira enfiada na cabeça.
Quando o carro finalmente parou, arrancaram-me de lá e a voz de vodka guiou-me através do que me parecia ser um longo corredor. Atrás de nós vinham os outros dois raptores, cujas botas ecoavam no chão de pedra num ritmo sincronizado. Com os meus ténis, o meu andar era, como sempre, silencioso. Gosto de usar coisas práticas, por isso, também naquela noite estava vestido com uns
jeans e uma t-shirt por baixo da bata branca.
Entrámos num compartimento que me parecia ser um grande salão e senti a presença de muita gente. Bem podiam ser mais de cem. Que estranho! Sempre pensara que raptores se limitassem a um pequeno grupo de terroristas, que fechassem a sua vítima numa cave apertada.
Estabeleceu-se silêncio à nossa chegada. Aquilo revolveu-me as entranhas, nem no carro do meu ex-cunhado eu sentia tanto cagaço.
Sem qualquer pré-aviso, arrancaram-me a serapilheira da cabeça e eu vi...
Na verdade, não vi nada! Os meus olhos precisaram de um certo tempo para se habituarem à iluminação.
Fui-me dando conta que me encontrava num salão abobadado, em frente de uma assistência sentada em anfiteatro, todos os seus olhos postos em mim.
Odeio ser o motivo das atenções. Com excepção das minhas palestras na Universidade Científica de Los Angeles. Mas neste caso, em vez de estudantes e cientistas, via à minha frente homens e mulheres de fatos cinzentos e pretos, o que dava um aspecto fantasmagórico à palidez dos seus rostos. As paredes da sala eram brancas, o chão e o tecto de pedra cinzenta, as cadeiras pretas... Meu Deus, teria eu aterrado num mundo virtual a preto e branco?
Não! Cada uma daquelas criatura usava uma braçadeira vermelha. No seu centro, uma cruz suástica preta, sobre fundo branco. Por acaso, eu conhecia aquele símbolo... De filmes antiquíssimos.
Tive um colega na
high-school fascinado por aparelhos antigos de ecrã, como televisores e demais apetrechos, do tempo em que ainda não havia imagens flutuantes, ou holografias. Ele possuía uma caixa extremamente primitiva: um leitor de DVDs, que, por mais incrível que pareça, ainda precisava de fios para funcionar!
Esse indivíduo era bem mais louco do que eu. Via fascinado filmes gravados em discos grosseiros, os tais DVDs. Nunca me disse onde arranjava material tão arcaico. E eu nunca entendi o que é que ele tinha contra as normais
pen-drives, onde cabem 40 a 50 filmes. Adiante! Como eu também sempre tive uma pancada, deixei-me convencer a ver aquelas relíquias, muitas delas tinham sido rodadas no século XX!
Não foi tempo perdido. Fiquei, por exemplo, a saber que tinha havido nazis. Muitas das películas eram sobre uma guerra mundial, acontecida há quase duzentos anos, uma guerra despoletada por um psicopata alemão... ou austríaco, sei lá!
O que eu nunca pensei foi ver, em pleno século XXII, nazis ao vivo! Quase nenhum dos meus amigos e conhecidos ouviu falar deles.

(continua)