Janela Indiscreta

Este blogue foi recomendado pelo Pedro Rolo Duarte no seu programa Janela Indiscreta, da Antena 1, a 28-07-2010.
A história chegou ao fim, foram 42 episódios ao longo de meio ano. Mas ela está cá toda, é só consultar o arquivo do blogue, começando em Julho de 2010. Ou escolha o episódio que quiser, utilizando a caixa de pesquisa, aqui ao lado.
À laia de motivação, aqui fica a republicação do 1º Episódio.

19 de julho de 2010

3º Episódio

Virei-me para o atleta louro, mas este parecia incapaz de falar e o comandante pediu-lhe:
“Faça um esforço! O Professor precisa de ficar a saber de tudo.”
O Sr. Obskur recompôs-se e começou o seu relato:
“Um dos meus antepassados, chamado Erwin Obskur, vivia em Berlim e assistiu, em criança, à 2ª Guerra Mundial, no século XX. O seu pai manteve-se fiel ao Führer até ao último momento e transmitiu ao seu único filho a sua convicção inabalável pela ideologia nazi. Quando os russos se começaram a aproximar de Berlim e o Führer se confinou ao seu bunker, o pequeno Erwin acompanhava o pai todos os dias até à entrada da construção subterrânea. Nem bombas, nem rajadas de metralhadoras os impediam de fazer aquela peregrinação. Além da sua, o pai arriscava a vida do próprio filho, na esperança de lhe mostrar o Führer e, quiçá, tivessem oportunidade de lhe transmitir coragem e apoio na sua hora mais difícil. Lá chegados, abrigavam-se na trincheira construída à volta da entrada do bunker e observavam os acontecimentos. Infelizmente, não chegaram a ver o Führer, apenas as sentinelas ou alguns dos seus íntimos, que vinham apanhar ar fresco ou fumar os seus cigarros. Até àquele dia...“
A voz falhou-lhe. Mas, depois de o comandante lhe transmitir mais um pouco de ânimo, ele prosseguiu:
“Estava tudo perdido, os russos tomavam conta das ruas da nossa capital. O pai de Erwin não podia perder a oportunidade de tentar saber o que aconteceria ao Führer. Como sempre, tomou o filho pela mão e dirigiu-se ao local habitual. Era, porém, tarde demais…“
O atleta louro levou um lenço aos olhos e recomeçou a soluçar. A maior parte dos seus compinchas fez o mesmo, o Sr. Kornflock até teve que tirar os óculos redondos, a fim de limpar as lágrimas.
Eu ali permanecia, deslocado de tudo e de todos, o homem errado na cena errada... como antigamente, nas festas da Amanda. Bem, justiça seja feita! Os nossos convidados, como arqueólogos, colegas da minha ex-mulher, eram pessoas inteligentes. E não surgiam de fatos cinzentos.
De repente, receei que os nazis ficassem irritados pelo facto de eu não ver razões para chorar. Felizmente, nenhum deles fixou a sua atenção em mim, naquele momento.
O Sr. Obskur lá acalmou e prosseguiu com o seu relato:
“O Führer já tinha dado aquele passo de grande coragem, pondo um fim à sua vida, e o seu corpo foi trazido à entrada do bunker, a fim de ser queimado junto com o da sua companheira, como era seu desejo. Assim que o fogo se apagou e dos dois nada mais restava senão cinzas, afastaram-se aqueles que tinham participado nesta espécie de cerimónia fúnebre. Não se via mais ninguém nas redondezas e o pai de Erwin atreveu-se a aproximar-se do local com o pequeno. Fixaram as cinzas respeitosamente. Até que o miúdo teve a ideia de levar algumas como recordação. Aquilo agradou ao pai, que logo agarrou em duas mãos cheias e as enfiou no bolso do casaco.”
O Sr. Obskur fez uma pausa. Os seus camaradas pareciam recompostos das emoções fortes, a maior parte deles guardava os seus lenços. E o louro continuou:
“Assim que chegaram a casa, o pai deu conta que não tinha apenas trazido cinzas. Um pequeno pedaço encarvoado encontrava-se no meio delas.” O Sr. Obskur pousou os seus olhos azuis metálicos em mim. Depois, estendeu o braço em direcção à caixa em cima da mesa e anunciou triunfal: “Aquele carvãozinho!”
“O quê?!“ atirei eu, na minha estupefacção. “O senhor está a dizer-me que aquilo é o carvãozinho que o tal homem tirou da fogueira extinta, onde o corpo de Hitler foi queimado há quase duzentos anos?”
“Assim é, sem tirar nem pôr!”
Senti suores frios ao adivinhar para que é que aqueles fanáticos me tinham raptado. O Sr. Kornflock lançou impiedosamente:
“O senhor, Professor Solani, irá ressuscitar o nosso Führer! E, junto com ele, dominaremos o mundo!”
Tentei dizer algo, mas não consegui. Nunca me tinha sentido tão desesperado em toda a minha vida, nem quando a Amanda me disse que se queria divorciar. Tinha que haver uma saída daquele inferno, eu tinha que inventar uma forma...
De repente, lembrei-me de vários motivos que poderiam impossibilitar a concretização do projecto. Respirei fundo e anunciei:
“Minhas senhoras e meus senhores! Sinto muito desiludir-vos, mas esta é, até para mim, uma tarefa impossível de realizar!”
Um silêncio perplexo rodeou-me. Até que o Sr. Kornflock falou, cheio de fúria contida:
“Que quer o senhor dizer com isso? Afinal, já clonou animais extintos há centenas, ou até milhares de anos!”
“Tratava-se de fósseis petrificados, meu caro. Certas espécies de pedras e minerais desenvolvem condições que permitem a esses achados conservar informações sobre o ADN das criaturas. Há vários processos que possibilitam tal conservação, mas estar aqui a enumerá-los demoraria demasiado tempo e não nos levaria a lado nenhum. Mas duma coisa estou certo: esse pedaço de carvão é inútil!”
“Será mesmo, Professor?” O Sr. Obskur falava com uma frieza espantosa, para quem tinha acabado de chorar como uma criança. “E se eu lhe disser que o pai do pequeno Erwin era biólogo?”
Com mil tubos de ensaio! Senti os cabelos do cachaço eriçarem-se-me e o louro acrescentou triunfal:
“O homem, inteligente como era, logo arranjou maneira de criar um vácuo nessa caixa que vê à sua frente, a fim de evitar que também esse pedaço de carvão se transformasse em cinza.”
Engoli em seco. O vácuo podia realmente ter conservado informações genéticas. Mas retorqui ainda:
“E o senhor tem a certeza que esta é a mesma caixa? Não poderia a verdadeira ter sido perdida, ou...“
“Esta caixa, Professor Solani, foi guardada por Erwin Obskur, depois da morte do pai. E também se formou em Biologia. Estava quase a reformar-se, quando, em fins do século XX, o primeiro animal foi clonado, salvo erro, uma ovelha... Polly ou Molly...”
“Dolly”, lançou o comandante, “por causa das...“
Ia a fazer um gesto por sobre o peito, mas interrompeu-se e pigarreou embaraçado. Indiferente, o Sr. Obskur prosseguiu:
“Erwin apercebeu-se logo em que direcção a ciência se desenvolvia e informou um seu sobrinho que se interessava pela ideologia nazi, pois sabia que nenhum dos seus filhos seria receptivo à questão. Assim, a caixa foi transmitida em segredo, de geração em geração. Felizmente houve sempre alguém que se comprometia a guardá-la, como se do mais precioso dos tesouros se tratasse, enquanto se esperava pelo grande momento.”
“E esse momento chegou”, bradou o Sr. Kornflock. “Brevemente dominaremos o mundo!” Dirigiu-se à assistência, de braço direito esticado, como eu tinha visto nos filmes, e berrou: “Sieg heil!"

8 comentários:

Rafeiro Perfumado disse...

Hummm, o clone arrisca-se a ser um misto do Hitler e da Eva Braun. Quer dizer, um Hitler louro e com mamas era capaz de ser curioso!

antonio - o implume disse...

Os sonhos renascem das cinzas. Sieg Heil!

Aguardemos o próximo episódio.

Daniel Santos disse...

mais do que clonar a pessoa, será necessário clonar o pensamento... a ver vamos... gostei.

antonio - o implume disse...

Profundo Daniel...

Kássia disse...

E muito a propósito!
Aproveitando todos os comentários destes seres tão inteligentes, levantam-se duas questões:
A criatura renascida das cinzas terá o aspecto da original?
E pensará como a original?

Daniel Santos disse...

seres inteligentes... até corei.

mdsol disse...

Cá estou a seguir a saga. Fico à espera...

:)))

Há.dias.assim disse...

Estou a ler um livro sobre o tempo do Hitler...
Espero que este Hitler seja bem melhor