Janela Indiscreta

Este blogue foi recomendado pelo Pedro Rolo Duarte no seu programa Janela Indiscreta, da Antena 1, a 28-07-2010.
A história chegou ao fim, foram 42 episódios ao longo de meio ano. Mas ela está cá toda, é só consultar o arquivo do blogue, começando em Julho de 2010. Ou escolha o episódio que quiser, utilizando a caixa de pesquisa, aqui ao lado.
À laia de motivação, aqui fica a republicação do 1º Episódio.

12 de julho de 2010

2º Episódio

Ali estava eu, em frente daquele anfiteatro, todos aqueles olhos postos em mim… Na minha aflição, virei-me para a voz de vodka e deparei com uma mulher elegante, mas severa, à volta dos quarenta anos, com os cabelos louros apanhados numa banana, usando naturalmente um fato de saia e casaco cinzento e com a suástica na manga. Eu tinha, porém, a impressão que os seus olhos castanho-claros não me olhavam com a frieza de todos os outros e atrevi-me a murmurar:
“Onde estou?”
Ela aproximou-se de mim e desatou-me as mãos, enquanto me sussurrava com a sua voz intrigante:
“Fale alemão, Professor! Aqui não é admitida qualquer outra língua.”
Eu tinha-me naturalmente expressado na minha língua materna, mas não me incomodava treinar um pouco de alemão. No entanto, antes que pudesse repetir a pergunta no idioma certo, aproximou-se de mim um homem louro de óculos redondos. Tinha o cabelo bem curto, como aliás todos os homens presentes. Ao contrário de mim. Escusado será dizer que me esqueço de ir ao barbeiro. E como os meus cabelos castanhos são ondulados e quase nunca estão penteados, as pontas reviram-se em todas as direcções.
O homem louro estendeu-me a mão com as palavras:
“Bem-vindo ao nosso bunker, Professor Solani! Chamo-me Kornflock e sou o comandante desta nossa comunidade. Sinta-se em sua casa!”
Teria ouvido bem? Já me preparava para exprimir a minha fúria contra palavras que se me assomavam extremamente irónicas, mas segurei-me. Algo me dizia que entrasse no jogo dele. Apertei-lhe a mão e retorqui:
“Obrigado, Sr. Kornflock. Posso perguntar-lhe onde me encontro?”
“Está no maior bunker que jamais foi construído. Tenha porém compreensão para o facto de eu não lhe indicar o local exacto. Somos uma comunidade ilegal e não pretendemos correr riscos desnecessários.”
Naquele ponto, perguntei-me se não teria adormecido no laboratório e estaria a sonhar tudo aquilo. O Sr. Kornflock, no entanto, parecia-me muito real e eu resolvi continuar a cooperar:
“De que comunidade se trata?”
“Somos os últimos nazis que há no mundo.”
“Eu pensei que já não havia nenhum.”
Por um momento, receei que tivesse sido inconveniente, mas o Sr. Kornflock replicou com um sorriso:
“Assim é por nós desejado. Como o nosso número ia diminuindo e o mundo se nos tornava cada vez mais hostil, resolvemos mergulhar na clandestinidade. Estes”, fez um gesto largo e orgulhoso na direcção do anfiteatro, “são os últimos 200 nazis. Nazis dos quatro cantos do globo!”
Examinei a multidão mais atentamente e constatei realmente que se compunha de gente de várias origens. O Sr. Kornflock acrescentou:
“Além de nós alemães, temos nazis americanos, nazis ingleses, franceses, espanhóis, suecos, russos, canadianos, australianos, indianos, chineses, mexicanos...“
“Credo, já chega!”
O Sr. Kornflock olhou-me desagradado, por isso logo acrescentei:
“Desculpe, mas isto assim duma vez é demais para mim. Afinal, encontramo-nos a meio da noite e eu estive o dia inteiro a trabalhar.”
“Ah sim, claro.” Soava novamente amigável. “Apreciamos muito o seu trabalho, Professor, e depositamos muitas esperanças em si.”
“Esperanças?!“ Olhei em volta e declarei, no tom mais simpático que me foi possível: “Não quero ser desmancha-prazeres, Sr. Kornflock, mas receio que apanharam a pessoa errada. É um facto que falo muito bem alemão, mas não me interesso minimamente por política. Além disso, não faço ideia onde se situa o vosso admirável bunker. Se tivessem a amabilidade de me cobrir novamente com a serapilheira das salsichas, enfiar-me no carro e despejar-me no meio de Los Angeles, prometia esquecer toda esta história. Nem me custava nada. Acredite que, depois de dois dias de trabalho intensivo, eu...“
“Acredito, Professor Solani. Mas acontece que precisamos de si!”
“Mas eu não sirvo para nada. Se exceptuarmos as minhas pesquisas e as minhas experiências...“
“É precisamente isso que nos interessa.”
“Células e organismos? Clones de animais extintos?”
“Antes que continuemos a nossa conversa, Professor, permita-me que lhe apresente o Sr. Obskur.”
“O Sr. Obskur?“
Dirigido a um dos meus raptores, um chinês baixote e redondo como uma bola, o Sr. Kornflock berrou:
“Sr. Mao Tsé Tinho! Mande entrar o Sr. Obskur! “
“Às ordens, comandante!”
Depois de bater os tacões, a bola chinesa dirigiu-se a uma das portas do salão. A atmosfera entre os presentes tornou-se muito cerimoniosa. Pouco depois, esse Sr. Mao... qualquer coisa regressou, seguido por um outro louro de constituição atlética, provavelmente o tal Obskur. Notei a veneração que toda a comunidade lhe reservava e realmente o homem possuía todos os traços da raça ariana, sacralizada pelos nazis.
Constatei, porém, que os companheiros não o veneravam a ele, mas sim o objecto que ele trazia nas mãos. Àquela distância, vi apenas uma pequena caixa transparente. O Sr. Obskur movia-se devagar, cheio de cuidados, como se caminhasse por cima de uma película que receasse danificar. Mantinha, como todos os outros, o olhar fixo no objecto que transportava.
Parou em frente à mesa que se encontrava entre mim e a assistência do anfiteatro e depositou lá a caixa de vidro. Vi qualquer coisa escura lá dentro, parecia um pedaço de carvão. A veneração que o senhor Obskur lhe reservava humedecia-lhe os olhos e também muitos dos outros tinham dificuldades em controlar as lágrimas.
Observámos o carvãozinho durante minutos. Os nazis, enlevados, eu, no início curioso, depois, aborrecido. Ninguém se dava ao trabalho de me explicar que raio era aquilo. Muitos levavam um lenço aos olhos lacrimosos e cheguei a recear que o Sr. Obskur, aquele atleta, se atirasse para o chão em pranto.
Quando já não aguentava mais, virei-me para a voz de vodka. Apesar de ela parecer severa e de ter sido o Sr. Kornflock que falara comigo tão educadamente, eu sentia que aquela mulher simpatizava comigo. Perguntei-lhe:
“O que é aquilo?”
Ela fixou-me com o seu olhar emocionado, depois soluçou:
“Como é que o senhor pode falar assim dele?”
“Dele? Mas de quem?”
“Professor Solani!” Era novamente o Sr. Kornflock. “Prepare-se para ouvir a história do Sr. Obskur!”

9 comentários:

antonio - o implume disse...

Obscuro. Mas fiquei mais optimista. Se para clonarmos Sócrates o precisarmos de reduzir a um pedaço de carvão...

Estes nazis evoluíram ao ponto de aceitarem mexicanos...

Mas o meu protesto vai mesmo para o facto de só daqui a 7 dias termos a continuação. Isto não pode passar a bisemanal?

Kássia Kiss disse...

Sim, estes nazis aceitam todos e mais alguns. Como já são poucos... Aí é que está o absurdo da situação.

Se formos muitos, talvez consigamos reduzir o Sócrates a um pedaço de carvão ;)

Bisemanal era realmente uma hipótese...

mdsol disse...

Prontosssss. Já li o segundo episódio. Isto promete!
Kássia, uma sugestão a partir da sugestão do antónio: publique a mesma quantidade de texto dividida em dois.

Continuação de boa escrita.

:)))

Daniel Santos disse...

gostei do segundo momento. A ideia está muito bem conseguida.

Kássia disse...

Obrigada a todos, pelos elogios e as sugestões. Ficam registadas e reflectirei nelas.

Bjnhos

Henrik disse...

Só li os dois episódio agora, estou a gostar do sentido em que vai. Só tenho é uma pequena nota: no século XXII as pen-drives serão tão antigas como a Lili Caneças. Eu gosto muito da ideia, que é menos ficcional do que parece, de haver nazis (metafóricos ou não) multinacionais, é um contrasenso que o ódio não clarifica. Tal como em Portugal, com as nossas raízes célticas e árabes, se venerar o Adolfo austríaco que governou a Alemanha em busca da pureza racial que era loira e espadaúda à semelhança do profeta. Aliás, a minha teoria há largos anos é a de que o Adolfo queria era ser o último judeu à face da terra.

Kássia disse...

Sim, essa ideia dos nazis multinacionais é a base da história e também haverá um português (mais não digo, para não estragar a surpresa).
Terá razão quanto às pen-drives, mas a minha imaginação não deu para mais. Quando um dia esta "saga" passar ao cinema, há-de haver alguém que dê uma ideia melhor ;)

mdsol disse...

[Kássia: vim aqui para dizer que os quadros "valem" o dobro se os ampliar. Para isso basta clicar em cima deles. A sério, a maior parte das pessoas com a falta de tempo, suponho eu, não o faz, mas nem sabe o que perde. E outra coisa: eu tento que a música se ligue ao quadro. Nem sempre consigo (também tenho limitações de tempo e de conhecimentos). A ligação é que pode ser por afinidade ou contraste...

Gosto muito de a ver por lá!
:))))

Gosto muito de a ver por lá.

:)))

Rafeiro Perfumado disse...

Lá se foi a teoria da pureza ariana, com indianos, chineses e mexicanos...