Janela Indiscreta

Este blogue foi recomendado pelo Pedro Rolo Duarte no seu programa Janela Indiscreta, da Antena 1, a 28-07-2010.
A história chegou ao fim, foram 42 episódios ao longo de meio ano. Mas ela está cá toda, é só consultar o arquivo do blogue, começando em Julho de 2010. Ou escolha o episódio que quiser, utilizando a caixa de pesquisa, aqui ao lado.
À laia de motivação, aqui fica a republicação do 1º Episódio.

14 de dezembro de 2010

Natal

Agora, que esta saga chegou ao fim, resta-me desejar-vos Boas Festas! E não sobrecarreguem o Pai Natal, que ele, quando entra em stress, adopta um comportamento, digamos, menos ortodoxo:

Para chegar à origem desta imagem, basta seguir o Cheiro

Sugestão de prenda ;-)



Não se esqueçam de entrar em 2011 com o pé direito!

A propósito, 2011 é o ano do 750º aniversário de D. Dinis...

5 de dezembro de 2010

42º e último Episódio

Não vimos mais nenhum dos nazis, que permaneceram nos seus quartos, pelos vistos, a fim de se suicidarem. Não estávamos com vontade de o confirmar. Éramos finalmente livres! Apressámo-nos a alcançar a garagem, onde se encontravam mais de vinte automóveis à nossa disposição.
            Combinámos irmos directos à polícia, esclarecer a nossa situação e acalmar todos aqueles que há quatro meses nos procuravam. Mas não revelaríamos toda a verdade. Não havia o mínimo vestígio do clone, podíamos por isso dizer que não tínhamos conseguido concluir o projecto com êxito. Revelássemos nós que havíamos clonado um ser humano a partir de vestígios encontrados num carvãozinho com mais de 150 anos, poríamos o mundo em convulsão e todos iriam exercer uma enorme pressão sobre nós, a fim de que repetíssemos a experiência. E não nos achávamos capazes de o fazer, pelo menos, por agora.
            Combinámos então dizer que os nazis tinham passado o tempo em discussões e disputas, eliminando-se mutuamente, enquanto nós fazíamos os possíveis por concluir o projecto. A polícia que fosse verificar se eles estavam realmente todos mortos.
            Ainda escolhíamos um carro, quando eu reparei que algo inquietava a Chanel e perguntei-lhe:
            “O que te preocupa?”
            Depois de uma curta hesitação, ela respondeu:
            “Será que a nossa relação também irá funcionar lá fora, no mundo verdadeiro?”
            “Porque não?”
            “Eu até nem sou supersticiosa. Mas às vezes pergunto-me se realmente poderá dar certo. Já pensaste em que circunstâncias nos conhecemos? Essa ideia não nos irá perseguir e apoquentar todo o tempo? Ou simplesmente trazer azar?”
            Reflecti um pouco e repliquei:
            “Tínhamo-nos conhecido de qualquer maneira, mesmo que não tivéssemos sido raptados.”
            “Achas?”
            “Claro. Não te tinhas demitido? E já não tinhas sido contactada pelo Fabrício? Ora, quando estes malucos me sequestraram, a vaga que o nosso colaborador deixara livre ainda não estava preenchida.”
            “Esqueces-te de que eu tencionava pôr fim à minha vida?”
            “Nunca o terias feito. Na altura, estavas ferida, desesperada, mas terias superado a crise. Tu não és do tipo que se suicida.”
            Ela respirou fundo.
            “Tens razão. Eu tinha dado a volta por cima, nem que fosse só por causa do meu trabalho. Como tu agora sabes, tenho inúmeros projectos na cabeça.”
            “É quase certo que cedo resolverias procurar outro emprego e que, entre outras pessoas, tornarias a contactar o Fabrício. E ele não perderia a oportunidade de te ganhar para o nosso laboratório.”
            A Chanel abraçou-me e disse:
            “A esta hora, já estávamos juntos. Quer isso dizer que fomos feitos um para o outro?”
            “Claro que sim.”
            Beijámo-nos e quando a Chanel me tornou a encarar, tinha aquele olhar que eu já tão bem conhecia. Mas declarei:
            “Oh querida, tem que ser agora? Não me apetece nada voltar ao nosso quarto, queria deixar o maldito deste bunker o mais depressa possível. Pensas que tem alguma piada fazer amor numa catacumba cheia de cadáveres? Além disso, quem sabe se esses doidos estão realmente todos mortos? Quem nos diz que algum deles não muda de ideias e, ao ver-nos...”
            “Mas que estás para aí a dizer? Quem é que falou em regressar ao quarto? Não me disseste que não fazes questão em conduzir?”
            “Disse.”
            “Eu também não. Além disso, demora uns quinze minutos a percorrer o túnel que nos leva lá fora. Por isso...”
            “Ligamos o piloto automático e...”
            “E aproveitamos o tempo da melhor maneira que eu conheço!”
            Entrámos no primeiro carro que vimos à nossa frente. Assim que ligámos o piloto automático e programámos a rota, mudámos para o banco de trás, aos guinchos, como dois teenagers. O automóvel arrancou, enquanto eu despia a blusa à Chanel. Com o soutien eu já não tinha problemas e ela nunca os tivera com o cinto das minhas calças. Assim, ela...
            Não, não vou descrever mais este momento íntimo.
            É pena?
            Bem, eu presumo que você, cara leitora ou caro leitor, está familiarizado com procedimentos deste tipo e que possui um mínimo de imaginação.
            Não lhe chega imaginar?
            Nesse caso, só há uma solução: passar à acção! E é já!

1 de dezembro de 2010

41º Episódio

O Sr. Cebolo veio ter connosco, antes que puséssemos em prática qualquer tipo de plano. O homem, que normalmente era caracterizado pela boa disposição, vinha triste, entrou no laboratório cabisbaixo e sentou-se sem dizer palavra. Tentei animá-lo. E não só por ele, pois a sua melancolia ainda nos punha mais receosos.
            “Mas que é isso, Sr. Cebolo? A vida continua!”
            “Para nós, não.”
            “Ora essa!”
            “Não adianta viver sem o Führer. Esperámos por ele tanto tempo e agora ele desapareceu para sempre. Para nós, não faz sentido continuar a viver.”
            Eu e a Chanel trocámos um olhar apreensivo. Será que o resto dos nazis tencionava eliminar-nos a todos, fazendo explodir o bunker, ou coisa parecida? Pois eu não deixaria acontecer uma coisa dessas sem oferecer resistência:
            “Compreendo que estejam desiludidos. Mas acontece que a Dra. Luninski e eu conseguimos imaginar uma vida fora deste bunker. Afinal, eu tenho dois filhos.”
            “Eu sei, Professor.”
            “Tenho muitas saudades deles e anseio vê-los. O senhor consegue compreender isso?”
            Ele olhou-me espantado:
            “Mas claro que sim! Por isso mesmo resolvemos não ficar zangados se os senhores não se juntarem a nós, agora que decidimos seguir o exemplo do nosso Führer.”
            “Que quer dizer com isso?”
            “Acabaremos com as nossas vidas. Mas os senhores são livres de escolher o vosso próprio caminho.”
            A Chanel e eu olhámo-nos aliviados, mas também emocionados. Entre mim e o Sr. Cebolo tinha havido bons momentos, em que a simpatia era mútua, e eu sentia-me na obrigação de fazer alguma coisa por ele:
            “O senhor tem a certeza que não há nada que o faça mudar de ideias?”
            “Neste mundo, tal e qual como é, não quero viver.”
            “Mas porquê?”
            “Ai, Professor, é tanta confusão, tanto stress!” O homem estava mesmo angustiado. “Se uma pessoa não se adapta à barafunda, ou sobrevive à base de drogas, ou se torna num marginal. Mas, mesmo em caso de adaptação, cada um de nós mais não é do que um grão de areia no deserto.”
            “Ora”, retorqui, “o mais importante é descobrir algo que nos dê prazer e alegria. Até os mais excêntricos têm possibilidades de serem felizes, encontra-se sempre gente que partilha os mesmos interesses, que possui as mesmas preferências...”
            O Sr. Cebolo abanou a cabeça e replicou:
            “Entre os nazis, tudo tinha a sua ordem, cada um de nós sabia exactamente o que fazer, tinha a sua função. Era isso que eu admirava nesta comunidade, Professor, havia um objectivo a alcançar, algo por que lutar. Não precisávamos de nos martirizar todas as manhãs com a pergunta: mas como é que hei-de passar mais este dia? Ninguém andava perdido, sem orientação. O Führer ordenava e a gente cumpria. Reinava a disciplina!” Acrescentou desesperado: “Eu não sei viver sem essa disciplina, sem essa orientação, sinto-me tão perdido!”
            O pobre do homem precisava de ajuda psicológica, precisava de quem lhe mostrasse que não é preciso eliminar outros seres humanos, nem tão pouco prejudicá-los, para encontrar a própria felicidade. Mas eu não sou nenhum psiquiatra, a única coisa que me ocorreu, foi:
            “Tenho a certeza que também o senhor conseguiria encontrar o seu lugar fora deste bunker. Só precisa de entrar em contacto com as pessoas certas. Se nos quiser acompanhar, a Chanel e eu faríamos os possíveis por...”
            Tornou a abanar a cabeça:
            “Não adianta, Professor, eu seria sempre um zero, uma formiguinha minúscula no meio da floresta. Como poderia eu aguentar uma coisa dessas, ainda por cima agora, depois de saber o que é bom, depois de ter conhecido a glória?”
            A Chanel e eu ficámos sem compreender bem onde ele queria chegar, mas o homem acabou por acrescentar:
            “Não era eu o elemento mais importante desta comunidade, logo a seguir ao Führer? Tivéssemos nós chegado a dominar o mundo, eu seria o segundo homem mais poderoso do planeta! Os senhores fazem ideia do que isso significa para um português?” Os olhos brilharam-lhe. “Os meus compatriotas é que ficariam espantados, haviam de se orgulhar de mim! E eu nem sou jogador de futebol!”
            Não adiantava. Tínhamos que deixar o Sr. Cebolo entregue ao seu destino.