Janela Indiscreta

Este blogue foi recomendado pelo Pedro Rolo Duarte no seu programa Janela Indiscreta, da Antena 1, a 28-07-2010.
A história chegou ao fim, foram 42 episódios ao longo de meio ano. Mas ela está cá toda, é só consultar o arquivo do blogue, começando em Julho de 2010. Ou escolha o episódio que quiser, utilizando a caixa de pesquisa, aqui ao lado.
À laia de motivação, aqui fica a republicação do 1º Episódio.

31 de outubro de 2010

32º Episódio

Naquele serão, a sós com Chanel, disse-lhe:
“Sinto-me o responsável por toda esta embrulhada.”
“Não te esqueças de que não trabalhaste sozinho. Além disso, obrigaram-nos a isso.”
“Sim, mas, ao mesmo tempo, bem sabes como me agradou levar a cabo uma experiência destas.”
“Por outro lado, se tivesses liberdade de escolha, jamais utilizarias a herança genética do Hitler para esse efeito.”
Apesar de ela ter razão, não conseguia aliviar a minha consciência. A Chanel acrescentou:
“Demais a mais, o clone mandou eliminar uma parte dos seus próprios compinchas, que são de qualquer modo fanáticos e que dificilmente se adaptariam a uma vida fora deste bunker. Enquanto ele se der por satisfeito com isso, deixando o resto do mundo em paz...”
“Fanáticos, ou não, são seres humanos. Sempre me alegrei com o facto de ter nascido num tempo em que a pena de morte já não existe em nenhum estado americano. Além disso, quem sabe o que ainda passará pela cabeça da criatura? Quem me diz que ela amanhã não acorda a detestar médicos?”
“Nós não somos médicos.”
“E depois? Se calhar ele até gosta menos de cientistas!”
Quanto mais voltas dávamos, mais nos enrodilhávamos naquela armadilha. E, por mais difícil que me fosse aceitar o facto, e me é agora escrever sobre ele, um terço daquela comunidade foi mesmo reduzido a cinzas, incluindo os senhores Kornflock e Obskur, o mesmo que guardara o diabo do carvãozinho com tanto amor e dedicação! A maior parte dos executados eram alemães, a raça tão sagrada ao verdadeiro Hitler! Não deixava de ter a sua ironia... Mas, depois de viragem tão trágica nos acontecimentos, quem conseguia rir?

Três dias mais tarde, encontrávamo-nos de novo na Sala da Presidência, quando aquela criatura horrível fez saber que todos deveriam usar bigode! Mas não um bigode qualquer, tinha que ser um bigode ridículo como o dele!
Aquela ordem possuía pelo menos o condão de ser inofensiva. Pedi a palavra e declarei sorridente:
“Para isso, ninguém precisa de ser eliminado, não é verdade? Quem ainda não apresenta tão distinto bigode, só precisa de o deixar crescer. São apenas uns dias de paciência, meu Führer, até que...”
“E as mulheres, meu caro doutor?”
O meu coração disparou, qual atleta ao tiro da partida, suores frios esguichavam-se-me do cachaço. Gaguejei:
“Mas... mas o senhor não se atreveria a...”
“Ai não, que não me atrevo!”
“Mas...”, procurava um argumento forte, “mas isso significaria o fim da humanidade!”
O clone olhava-me sem perceber patavina e eu acrescentei:
“Extinguiríamos a humanidade! Tem que haver homens e mulheres para...”
“Acabou-se!” berrou ele, dando um murro na mesa. Depois, falou em tom de birra, como uma criança que quer fazer prevalecer o seu desejo à força, pelo que a repa se lhe descontrolou: “Não admito a existência de pessoas sem um bigode como o meu. Quem não está em condições de o ter, é por mim declarado como uma aberração. E será eliminado!”

30 de outubro de 2010

Intermezzo # 12



"E Dâmaso, depois de sorrir, de tossir, de dar um jeito ao bigode, estendeu a mão para acariciar também «Niniche» sobre os joelhos de Carlos. Mas a cadelinha, que havia momentos o espreitava com o olho desconfiado, ergueu-se, rompeu a ladrar furiosa.

- C'est moi, «Niniche»! - dizia Dâmaso, recuando a cadeira. - C'est moi, ami... Alors, «Niniche»...

Foi necessário que Maria Eduarda repreendesse severamente «Niniche». E, aninhada de novo no colo de Carlos, ela continuou a espreitar Dâmaso, rosnando, e com rancor.

- Já não me conhece - dizia ele embaraçado - é curioso...

- Conhece-o perfeitamente - acudiu Maria Eduarda muito séria. - Mas não sei o que o Sr. Dâmaso lhe fez, que ela tem-lhe ódio. É sempre este escândalo.

Dâmaso balbuciava, escarlate:

- Ora essa, minha senhora! O que lhe fiz?... Carícias, sempre carícias..."


Os Maias, Eça de Queiroz

27 de outubro de 2010

31º Episódio

Enquanto eu tentava lembrar-me de um outro subterfúgio, o clone compôs a repa, que, na sua irritação, já se lhe tinha soltado, e acrescentou mais calmo:
“Como eu, porém, o respeito muito doutor, permito-lhe recolher-se a um canto da sala na companhia do Sr. Kornflock. Dois minutos!”
“Obrigado... meu Führer.”
Levantei-me, aproximei-me do Sr. Kornflock, que ainda não se tinha mexido, apontei para o canto atrás dele e pedi-lhe:
“Se não se importa…”
O diabo do homem limitou-se a olhar-me irritado. E não se mexeu. A criatura avisou:
“O tempo já corre!"
Apercebi-me de que Sr. Cebolo fixava atento o seu relógio. Tornei a dirigir-me ao Kornflock:
“Peço-lhe, por favor!”
O alemão levantou-se finalmente. Enquanto nos deslocávamos ao canto em questão, comecei a duvidar que fosse aquela a pessoa mas indicada para expor a minha ideia. Dava-me melhor com o Cebolo ou o Lacucaracha, mas o primeiro era agora o conselheiro mais próximo da criatura e o segundo não se encontrava sob pressão, dado possuir um aspecto que, além da cor da pele, não diferenciava muito do seu Führer. Esperava, por isso, que o Sr. Kornflock, que se encontrava numa situação deveras precária, fosse mais receptivo aos meus argumentos. Além disso, para mim, ele era ainda o comandante.
Chegados ao canto, o homem sibilou-me:
“Mas que circo é este, Professor? Perdeu a consciência de si mesmo?”
“O clone vai longe demais”, sussurrei-lhe. “Ou acha que o devemos deixar eliminar uma grande parte da comunidade que tanto confia nele?”
“Quer o senhor dizer que considera contestar uma ordem do Führer?”
Meu Deus, mas será possível incutir bom senso num fanático? De repente, tive uma ideia:
“Aquele não é o Führer!”
“Como?!”
“É apenas uma cópia... uma cópia mal feita. Trata-se de uma criatura completamente confusa. Possui certamente características do antigo Hitler, mas parece não saber bem como há-de actuar para...”
“Afinal, onde é que o senhor quer chegar, Professor?”
Respirei fundo e resolvi arriscar tudo:
“Eu, na qualidade de criador do clone, sinto-me no direito de o devolver ao estado de coma artificial. Acho mesmo que lhe faria bem... talvez lhe arrumasse as ideias. Entretanto, nós, como pessoas civilizadas que somos, poderíamos reflectir sobre os próximos passos...”
“O Führer foi bem decidido e claro naquilo que disse. Não me apercebi de nenhuma criatura confusa, como o senhor lhe chama. Sendo assim, resta-nos vergarmo-nos aos seus desejos!”
“Mas o senhor não entende que a sua própria vida está em perigo?”
Nisto, o clone berrou:
“O tempo está quase a acabar!”
“Apenas o Führer”, sibilou-me o Sr. Kornflock, “possui o poder de tomar decisões. Não tenho a menor dúvida de que dominará o mundo. E se ele acha que eu, por qualquer motivo, não deverei estar presente nesse momento de glória, lá terá as suas razões.” Os olhos humedeceram-se-lhe, mas não de tristeza e, sim, de orgulho, pois acrescentou firme: “Submeto-me à sua vontade suprema!”
Dito isto, regressou ao seu lugar, deixando-me sozinho naquele canto. Sozinho e totalmente consternado. Depois de uns segundos de perplexidade, em que todos os presentes me observavam, resolvi regressar também à minha cadeira. A Chanel lançou-me um olhar cheio de interrogações e eu limitei-me a passar a mão pelos cabelos, despenteando-os ainda mais.
“Tudo bem consigo, doutor?”
A criatura soava desconfiada e eu balbuciei:
“Sim... tudo em ordem.”
“Ainda bem. Não me agradaria ter que prescindir da minha equipa médica.”
Pelos vistos, e apesar de eu ser maior e mais robusto do que ele, o homem tencionava poupar-me a vida.

24 de outubro de 2010

30º Episódio

Os três dias que se seguiram constam entre os mais felizes da minha vida. Só não digo os mais felizes porque a Dra. Lunin... não, a Chanel e eu continuávamos prisioneiros naquele maldito bunker e eu tinha saudades dos meus filhos.
Só víamos o clone de manhã, por uns momentos. Convencido que recuperava ainda da sua doença grave, a criatura receava uma recaída e insistia em que nós médicos o examinássemos, antes de se levantar. Medíamos-lhe o pulso e a tensão arterial e, assim que o declarávamos estável, éramos dispensados.
Não fazíamos por isso ideia do que é que os fanáticos andavam a congeminar. As refeições eram-nos servidas pela bola chinesa, que, como já referi, mal abria a boca. Só quando nos surgiu o Sr. Lacucaracha, tive ocasião de perguntar porque é que a Olga ou o Cebolo já não vinham ter connosco. O mexicano respondeu:
“A Sra. Tortinova não deseja vê-lo, Professor.”
“Ora essa, porquê?”
A única resposta que recebi foi um encolher de ombros. Depois, o homem acrescentou:
“O José Cebolo manda-lhe muitos cumprimentos, mas anda tão ocupado, que não tem tido tempo de vir falar consigo.”
“Ocupado? Com o quê?”
“O Cebolo tornou-se no segundo homem da nossa comunidade, logo a seguir ao Führer, que não prescinde da sua companhia e dos seus conselhos.”
“Logo a seguir ao Führer? Então e o comandante?”
“Refere-se ao Sr. Kornflock?” inquiriu ele desdenhoso. “O Führer não o aprecia por aí além.”
“Não me diga!”
“Sabe Professor”, aproximou-se de mim e segredou-me, “o Sr. Kornflock anda cheio de ciúmes do Cebolo.”
Aquilo inquietou-me. Era bem possível que o Kornflock se quisesse vingar daquela desconsideração. E, se aqueles doidos começassem a desentender-se uns com os outros, as consequências podiam ser catastróficas. Por isso, apesar do idílio amoroso, a Chanel e eu vivíamos em receio permanente.

Passados os três dias, fomos convocados a assistir a uma reunião da Presidência. Felizmente, ninguém nos obrigou a usar o uniforme oficial dos nazis. O clone fazia mesmo questão que andássemos de bata branca, talvez porque se sentia mais seguro com os seus médicos constantemente prontos a entrar em acção.
Tivemos direito a lugares sentados à mesa da Presidência. O meu era entre a Chanel e a Olga, mas a russa ignorou-me. O clone presidia à reunião com um Cebolo muito risonho do seu lado direito. A criatura levantou-se e afirmou:
“Minhas senhoras e meus senhores, hoje começará a limpeza do mundo!”
Meu Deus, que início! A Chanel e eu trocámos olhares alarmados. O clone prosseguiu:
“Dou assim conhecimento que eu, o vosso Führer, sou a imagem por que todos se devem guiar. Como a Dra. Luninski muito inteligentemente observou, eu não tenho nada de ariano. Absolutamente nada! Acabemos por isso com esse disparate da raça ariana! Ordeno que todos os homens que não se pareçam comigo e que sejam muito mais altos que eu, sejam eliminados!”
Seguiu-se um silêncio perplexo. Depois, ele acrescentou firme:
“Não tolero homens que não se pareçam comigo!”
Aquilo já não era nenhuma brincadeira. Fixei a minha atenção nos senhores Kornflock e Obskur, que, devido ao seu aspecto, se encontravam em grande perigo. Os dois olhavam pálidos e incrédulos para o seu Führer, mas mantinham-se em silêncio.
Eu é que não ia assistir imóvel à execução de pessoas, muito menos devido ao seu aspecto físico. Levantei o braço, pedindo permissão para usar da palavra. O clone dirigiu-se-me:
“Sim, doutor?”
“Meu... Führer”, (custava-me tratá-lo daquela maneira, mas tencionava manter-me nas suas boas graças) “permita-me trocar algumas palavras em particular com o Sr. Kornflock.”
“Em particular?”
Não era só a surpresa que eu descortinava nos seus olhos, também incómodo. Tinha contado com a confiança que ele depositava em mim e na Chanel, confiança ou mesmo dependência, mas agora receava que me tivesse sobrestimado. Além disso, lembrei-me que meço 1,85m e que tenho cabelos castanhos e olhos azuis-escuros.
“A que propósito?” perguntou ele ainda.
“Trata-se de um”, humedeci os lábios secos, “um assunto pessoal.”
“Não permito que ninguém abandone esta sala, antes de dar por terminada esta reunião!”
Aquilo ia de mal a pior!

23 de outubro de 2010

Intermezzo # 11

CÃES DO ALENTEJO



- Já dei a minha volta. Deixem-me entrar, que ninguém aguenta este calorão!






- Quem interrompe a minha sessão de ioga?






- Gosto de observar o movimento. Não percebo é porque os humanos andam sempre cheios de pressa!






- Quem me acorda? Ah, são turistas de máquina fotográfica em punho!






- Parecem inofensivos. Acho que posso continuar a minha soneca.






- Não acham que já tiraram fotografias suficientes?



Estes cães, que fotografámos em Évora, Beja e Vila Viçosa, em Setembro, pareciam bem alimentados e irradiavam paz. Eram dóceis e calmos. Espero que isto signifique uma mudança nas mentalidades. E que continue a melhorar!

20 de outubro de 2010

29 º Episódio

Mas nisto, ela sorriu e perguntou:
“Quem é o Karl?”
Teria eu afinal uma hipótese? Àquela ideia, fui atacado por um fogo repentino, que estranhamente parecia ter começado nas minhas solas e me subiu até às pontas despenteadas do cabelo.
“Quer dizer que o esqueceu?”
“Há semanas que os meus pensamentos se ocupam exclusivamente de si.”
“De mim?”
“Sim. E você ocupa muito espaço. Não sobra nada para canalhas.”
“Porque não me disse nada? Ou me deu a entender algo? Esperei todo o tempo por um sinal seu.”
“A sério?”
“Claro. Receava precipitar-me, deitando tudo a...”
“Então e a Amanda?”
“Amanda?”
“Não espera que ela volte para si?”
Sorri:
“Quem é a Amanda?”
A Dra. Luninski fixou-me durante alguns momentos. Depois, sem qualquer pré-aviso, caiu-me em cima.
Foi isso mesmo, não o posso dizer doutra maneira: ela caiu-me em cima de tal maneira, que eu, desprevenido, tropecei à retaguarda e fui de encontro à parede, enquanto abria os braços, numa tentativa espontânea de manter o equilíbrio.
Bem, como já tive ocasião de afirmar, sou do tipo que precisa da atmosfera certa, do ambiente propício. Um laboratório, por exemplo, o meu amado local de trabalho, parece-me extremamente inadequado para actividades românticas. Além disso, nunca gostei que me caíssem em cima, prefiro os gestos suaves e subtis.
E então? Enervei-me? Considerei chamar a Dra. Luninski à razão?
Que ideia! Aquela mulher punha o meu mundo de cabeça para baixo, apagava da minha cabeça todas as regras que eu considerava necessárias para levar uma vida agradável.
Ali estava ela, agarrada ao meu pescoço, a beijar-me como uma possessa e deixando-me tão incendiado, que eu receei que os contornos do meu corpo ficassem marcados na parede. Ao tentar envolvê-la nos meus braços, a minha mão esquerda foi de encontro a uma prateleira, deitando ao chão todos os frascos e boiões que lá se encontravam. Frascos e boiões que continham amostras e substâncias únicas, que eu, cheio de paciência, havia recolhido durante a experiência e que, como sempre, guardara bem ordenadas.
Coisa para me pôr fora de mim... normalmente. Agora, era o corpo da Dra. Luninski que o fazia. Desapertei-lhe a bata e, depois de lhe acariciar o traseiro dentro dos jeans, as minhas mãos enfiaram-se por baixo da sua t-shirt. Sentia-lhe a pele macia e quente e comecei a desapertar-lhe o soutien. Mas, como sou desajeitado nessas coisas, a Dra. Luninski teve entretanto tempo de se libertar da bata e da t-shirt e ainda me desapertou e despiu a camisa.
Calcando os frascos e boiões, já de si arruinados, ela puxou-me consigo, até que embateu de costas numa mesa, onde se encontravam pastas de arquivo, contendo o registo de todos os passos do projecto que eu descrevera ao pormenor. Não reparando nas benditas pastas, ela começou a querer deitar-se sobre a mesa e eu, num gesto rápido, varri aquela papelada para o chão, antes que a Dra. Luninski magoasse as suas lindas costas.
As pastas fizeram barulho ao cair? Estragaram-se muito? Eu não fazia ideia, apenas fiquei eufórico ao constatar que conseguira finalmente desapertar o soutien, enquanto a Dra. Luninski já me atacava o cinto das calças.
Acariciava-lhe os seios fantásticos, quando ela levantou um pouco o tronco e enfiou a mão nas minhas calças. Mas, no calor da refrega, foi um pouco rude. Estremeci com a perna direita e bati com o joelho de encontro à mesa, desequilibrando-me. Tentei segurar-me com a mão sobre o canto da mesa, mas empurrei esta involuntariamente para trás, no preciso momento em que a Dra. se tentava novamente deitar sobre o tampo. Consegui, no último segundo, segurar aquele corpo precioso, antes que caísse estatelado no chão.
Tropeçámos sem rumo por sobre as pastas, estragando o resto que tinha sobrevivido à queda. Mal nos equilibrávamos e conseguimos finalmente aterrar no único tapete existente no laboratório. A Dra. Luninski já libertara uma das suas pernas dos jeans e da cuequinha, eu só consegui descer a minha roupa até aos joelhos, pois, quando dei por mim, já tinha penetrado na minha adorável parceira.
Dir-se-ia que tínhamos apostado em quem conseguia suspirar mais alto. Suspiros e gemidos que eu aliás considero frívolos, a partir de um certo volume. Porém, e como já referi, a minha vida havia sido virada do avesso.
Como hei-de descrever o que se passou depois? Vem-me à ideia um voo de dragão a cuspir fogo, queimando tudo à sua volta...
E, na verdade, deixámos um rastro de destruição atrás de nós.

17 de outubro de 2010

28 º Episódio

Escusado será dizer que o Sr. Cebolo logo aproveitou a oportunidade para “forrar o estômagozinho”. Enquanto enfiava a ponta do guardanapo desdobrado no colarinho, a fim de o usar como babete, dizia, satisfeito:
“O segredo deste prato é o ovo a cavalo! O ovinho estrelado é que lhe dá o sainete!”
Assim deixámos o clone em amena cavaqueira com o português e eu suspirei de alívio ao chegar ao laboratório. Contudo, o stress das últimas horas estava longe de ser superado e eu só conseguia pensar no medo que tive em perder a Dra. Luninski. Adoptei, por isso, um tom muito mais censório do que tencionava, assim como um adulto ralha a uma criança:
“Quantas vezes já lhe disse que tivesse cuidado com aquilo que diz?”
“Ora, não querem ver?” replicou ela irritada. “Já cá faltava o seu lado machista.”
“Quando é que se vai convencer de que eu não sou nenhum machista?”
“Ai é! Finge é muito bem!”
“Fingir, eu? Sempre fui muito sincero, minha senhora, nunca precisei de artifícios desses, graças a Deus.”
“Pois saiba que o senhor foi a primeira pessoa na minha vida que me apelidou de sirigaita. Aliás, se bem me lembro, também já me chamou de tipa. Desculpar-se, seria o mínimo que revelaria um pouco de educação da sua parte.”
“Deverei por acaso desculpar-me por lhe ter salvo a vida?”
“Como pode ter tanta certeza disso?”
“Então já não se lembra de como enfureceu a criatura?”
“A criatura está completamente confusa!”
“O que a torna ainda mais imprevisível.”
“Seja como for. Não era razão para me chamar de sirigaita!”
Aquela mulher fazia-me perder as estribeiras. Logo me havia eu de apaixonar por uma feminista orgulhosa, que nem sequer correspondia ao meu tipo!
“Como queira”, lancei irritado. “A partir de agora, deixarei de tomar conta de si!”
“Como se eu precisasse! Desde os dezoito anos que vivo a minha vida, não preciso que ninguém tome conta de mim! Que alívio, o nosso trabalho em conjunto ter terminado!”
“O que está ainda aqui a fazer no meu laboratório? Foi um dia esgotante e preciso de descanso.”
“Oh, peço desculpa por ter perturbado a sua alma sensível, Sr. Professor!”
“Desapareça de vez!”
“Não vejo a hora de lhe virar costas”, replicou ela, dirigindo-se à porta.
Naquele ponto, perguntei-me como fora possível deixar-me enredar em tal discussão, quando, ainda há minutos, ponderava fazer-lhe uma declaração de amor. Mas era melhor assim, éramos demasiado diferentes um do outro. E ela com certeza ainda pensava no canalha do Karl.
Observei, cheio de arrependimento, os caracóis negros sobre a bata branca, enquanto ela se aproximava da porta.
Antes de a abrir, porém, ela tornou a virar-se. Enfiou as mãos nos bolsos da bata, mas logo as tornou a tirar e começou a esfregá-las uma na outra, enquanto lançava um olhar embaraçado pelo laboratório. Depois, aclarou a garganta e disse, sem me encarar:
“Bem... se a sua principal intenção foi a de me salvar a vida... é claro que lhe agradeço.”
Senti-me de repente tão emocionado, que a voz me saiu rouca:
“Ora, não foi nada...”
“Foi sim. O senhor tem razão: a criatura é imprevisível. E, por mais absurdas que forem as ordens que saírem da sua boca, os malucos dos nazis apressar-se-ão a cumpri-las.”
“Sim”, suspirei, “temos que contar com isso.”
“Vendo as coisas por esse lado, foi uma atitude corajosa da sua parte, que lhe poderia ter custado a própria vida.”
“O melhor é esquecermos toda esta...”
“Porque o fez?”
Só havia uma resposta àquela pergunta. E, apesar de aquela situação não ser a mais apropriada para fazer uma declaração de amor, e esta poder arruinar a nossa amizade, confessei:
“Porque... a amo, Dra. Luninski.”
“O quê?!”
A estupefacção dela superou as minhas piores suspeitas. Mas agora nada mais me restava do que abrir o jogo:
“A verdade é que me apaixonei por si... Sinto muito.”
“Mas porquê?”
“Ai, isso não sei... São coisas que acontecem, não é verdade?” Adoptei um sorriso patético, numa tentativa de soar engraçado: “Até nós, os génios da Ciência, não conseguimos explicar o amor.” Meu Deus, que saída tão gasta!
“Não, o que eu queria dizer é: porque é que sente muito?”
“Ai isso... Bem, porque você ainda não esqueceu o karnalh... o canalha... oh, desculpe... esse Karl.”
“Karl?” repetiu ela e eu notei como os olhos lhe brilhavam à mera menção daquele nome.
Malditas reacções químicas! Porque tinha eu tocado no assunto? Porque me sujeitava àquilo?

16 de outubro de 2010

Intermezzo # 10

A MELHOR NOVELA
por Jota

Vida Política Portuguesa
tele/radio/imprensa/etc. novela



Temos mistério: o Orçamento é aprovado ou não.
Temos romance: a relação dançante entre Sócrates e Passos Coelho.
Temos até um triângulo amoroso: Sócrates e Cavaco com os ciúmes de Passos Coelho.
Temos irreverência: PCP e BE, que encarnam os papéis de rufias simpáticos.
Temos uma personagem desparecida: CDS.
Temos cenários luxuosos e personagens da classe alta: clientelas dos partidos do arco do poder.
Temos vítimas das circunstâncias: nós, que não somos banqueiros, altos gestores públicos e boys do aparelho.
Temos um anti-herói (que é sempre chic numa novela): nós, que não sabemos eleger dirigentes de jeito, nem sabemos criá-los.
Temos a personagem do desgraçadinho: somos nós que levamos porrada de todos os lados e não conseguimos escapar, porque o nosso herói anda deprimido, enredado em crises existenciais.

As cenas dos próximos episódios fazem adivinhar mais desventuras do desgraçadinho: deixa de comer peixe e fruta (cujo IVA passa de 13% para 23%), engorda porque os ginásios ficam ainda mais caros (o IVA passa de 6% para 23%), deixa de saber o que se passa no Benfica (pois os jornais e revistas desportivos passam de 6% para 23%). E vê aumentarem os incêndios à sua volta porque os extintores ficam mais caros (IVA de 6% para 23%). Se tiver uma intoxicação por causa do fumo terá que ter cuidado com o leite que for beber, pois todos com aditivos (chocolate ou cálcio) ficarão mais caros (IVA de 6% para 23%).

E as cenas dos próximos capítulos não param de surgir.

Com tudo isto até começo a desejar que o Orçamento seja chumbado. É só um sentimento...


13 de outubro de 2010

27 º Episódio

Estávamos perdidos!
Porém, depois de me lançar um olhar, a Olga intrometeu-se:
“Deixemos o Führer decidir!”
Tentava ela ajudar-nos? De qualquer maneira, deu-me coragem e tornei a dirigir-me à criatura:
“Lembre-se que fomos nós os dois que lhe salvámos a vida e...”
“Acabou-se!” berrou o Sr. Kornflock. “Meu Führer, por favor, diga alguma coisa, seja o que for! Cumpriremos imediatamente a sua ordem.”
O clone, que, pelo menos assim me pareceu, começava a encarar-me com simpatia, tornou a endurecer as feições. Convenci-me de que o nosso fim estava próximo. Deveria revelar os meus sentimentos à Dra. Luninski? Era a minha última oportunidade, esperaríamos com certeza em celas separadas pela nossa execução.
Estava prestes a cair-lhe aos pés, quando a criatura lançou:
“A minha ordem é... um espelho!”
Ãh?! Teria ouvido bem?
Pelos vistos, sim. Todos os outros pareciam tão perplexos quanto eu.
Passaram-se vários segundos sem que ninguém abrisse a boca, até que o Sr. Kornflock se decidiu:
“Um... espelho, meu Führer?”
“Exactamente.”
“Mas... que significa isso?”
“Parece impossível”, retorquiu o clone naquela sua maneira tesa de balançar, que lhe punha a repa fora de controlo. “Então o senhor não sabe o que é um espelho? Contava com mais perspicácia da sua parte, não tem cara de burro.”
Achei piada à expressão ofendida do Sr. Kornflock e ao facto de ser ele, o comandante, a levar o primeiro raspanete do seu amado Führer.
Continuávamos todos, porém, sem saber o que dizer ou fazer e o clone bradou:
“De que estão à espera?” Apontou para a Sra. Relot: “Você aí! Arranje-me já um espelho! Despache-se!”
“Às suas ordens, meu Führer!”
A francesa saiu da sala, a criatura sentou-se na sua cadeira e todos nós esperámos. Até que a Sra. Relot surgiu com um espelho redondo de cabo, que depositou com uma pequena vénia nas mãos do Führer. O clone examinou o seu reflexo deveras interessado. Depois, virou-se para a Dra. Luninski:
“Uma destas, a senhora tem razão! Tenho um aspecto bem diferente!”
Ela encolheu os ombros, sorrindo um pouco embaraçada. O clone tornou a mirar-se no espelho e acrescentou:
“Mas que perspicácia! A Dra. Luninski é uma pessoa extremamente inteligente. Ainda bem que fui parar às suas mãos, quando adoeci.”
A minha adorável colega presenteou-me com um piscar de olho... o mais bonito que eu já vira em toda a minha vida. Em seguida, disse:
“No fundo, não fiz mais do que seguir as orientações do Dr. Solani.”
A criatura virou-se para mim:
“Ah, Dr. Solani! Os senhores são os dois óptimos médicos. Os meus parabéns.”
“Obrigado”, balbuciei.
O clone depositou o espelho em cima da mesa e confessou com uma sinceridade desarmante:
“Pois eu agora não sei que ordens hei-de dar!”
Os nazis trocaram olhares desolados. Até que o português, ensaiando o seu sorriso mais largo, propôs ao seu Führer:
“Do que o senhor precisa é de encher essas peles!”
Os outros nazis fixaram-no perplexos, o comandante repetiu abespinhado:
“Encher as peles?!“
“Deixa-te dessas coisas, Zé”, lançou-lhe a Olga. “Fala de maneira a que a gente te entenda!”
“Ora, o que eu quis dizer foi que o nosso Führer precisa de se fortalecer, com uma boa refeição. Está magrinho e amarelo, pelos vistos, ainda não recuperou totalmente da sua doença. Um bifinho com um ovo a cavalo, acompanhado de uns copos de tinto, vinha mesmo a calhar.”
“É precisamente isso”, lançou o clone impressionado. “Dou agora conta que estou cheio de fome. O senhor leu-me os pensamentos, Sr. …”
“José Cebolo, um seu criado.”
“Seguirei o seu conselho e reflectirei sobre o meu próximo passo.” Acrescentou, em voz de comando: “Dra. Luninski e Dr. Solani, acompanhem-me ao meu aposento! Sr. Cebolo, arranje-me lá o bife e esse tinto!”
“Às suas ordens, meu Führer.”
A caminho do seu quarto, a estranha criatura confessou-nos:
“Manterei médicos tão bons como os senhores a meu lado.”

10 de outubro de 2010

26 º Episódio

Mas, pelos vistos, o Sr. Kornflock achava-se incapaz de aguentar o suspense e encorajou o homem:
“O senhor, meu Führer, ordena que…”
Ele reagiu:
“Ordeno que todos aqueles, que não possuam as características arianas, sejam eliminados!”
Com mil milhões de núcleos celulares, confirmavam-se as minhas piores suspeitas! Mas apercebi-me de uma coisa curiosa: caso aqueles nazis obedecessem a esta ordem, teriam que eliminar muitos deles! O Sr. Lacucaracha, um dos homens mais morenos que eu já vira, parecia atingido pelo mesmo receio, pois atreveu-se a inquirir:
“Tem a certeza, meu Führer?”
“Se tenho a certeza? Naturalmente! Todos aqueles que não sejam louros, altos e...”
“Então, teremos que o eliminar também a si!”
Com triliões de pipetas, a Dra. Luninski não se tinha controlado! Mas o que lhe passara pela cabeça? Como se atrevia ela a provocar aquele psicopata?
“Eliminar-me a mim? Mas que atrevimento é este?”
“Olhe por si abaixo! É louro e alto? Sinceramente!”
Ele fixava-a irado. Apesar de os outros nazis estarem igualmente indignados, não se manifestavam, deixando a resolução do contratempo a cargo do seu Führer.
A Dra. Luninski devolvia o olhar resoluto ao clone. Ao pensar que ela estaria prestes a ser executada, eriçaram-se-me os pelos do cachaço, fui atingido por suores frios, senti falta de ar, tremi como varas verdes e... descobri algo que, numa fracção de segundo, virou a minha vida do avesso: eu estava perdidamente apaixonado por aquela mulher!
Não restava a menor dúvida, amava-a intensamente. Naquele momento, teria sacrificado todo o meu saber científico, para estar com ela e os meus filhos na minha casa de férias. E... não, ela não iria perturbar o idílio familiar, pois a Amanda não teria lá lugar, seria aliás a minha ex-mulher quem estragaria o idílio. Via-me a pescar com o Maddox, enquanto a Dra. Luninski nadava com a Dahlia. Ao serão, faríamos um churrasco de peixe na varanda com vista para o lago. E, quando as crianças já estivessem a dormir, eu e a Dra. Luninski teríamos todo o tempo do mundo para nós...
Este desejo tomou conta de mim, apertou-me o estômago, o peito e a garganta. Tentei falar, mas as palavras não me saíram. Tinha, contudo, que fazer alguma coisa, antes que a criatura expressasse a ordem fatal.
Felizmente, o clone continuava a fixar a Dra. Luninski estupefacto. Fiz um grande esforço para soltar a garganta e, de repente, resultou:
“Não!”
O clone virou-se para mim. O pior é que eu não fazia ideia de como continuar e comecei a gaguejar como um idiota:
“Desculpe, Sr. Hitler... Führer... quero dizer…”
Meu Deus, que fazer? O melhor era tentar intimidar o homem, implorar-lhe podia dar mau resultado. Adoptei a expressão mais arrogante que me era possível e lancei:
“O senhor não pode levar uma sirigaita dessas a sério!”
Aquilo saiu-me: sirigaita. Só esperava que a Dra. Luninski conseguisse encaixar a tirada. Mas até o clone se admirou com o despropósito:
“Sirigaita? É assim que o senhor trata uma médica? A sua própria colega?”
Pigarreei e retorqui:
“Bem... na verdade estamos os dois assim um pouco... como hei-de dizer... fartámo-nos de trabalhar... para lhe salvar a vida... tanto eu como ela...”
“Mas o que é que o senhor está para aí a babujar?” Era a voz do Sr. Kornflock. “Logo agora, que o nosso Führer se preparava para nos transmitir a sua mensagem, tinham vocês os dois que se meter no assunto! Estão a ficar atrevidos demais para o meu gosto.” Olhou-nos ameaçador. “E, ou eu me engano, ou já não precisamos de vocês para nada!”

6 de outubro de 2010

25º Episódio

De repente, o clone virou-se para a sua esquerda, onde se encontrava a Dra. Luninski, também de pé. Observou-a longos momentos e depois... falou com ela! Sim, o meu clone falou! Eu era um génio!
E quais foram as suas primeiras palavras? Exactamente as mesmas que, tanto eu, como a Dra. Luninski, expressámos, quando nos tiraram a serapilheira das salsichas da cabeça:
“Onde estou?”
Agora, todos fixavam a sua atenção na Dra. Luninski. Ela sorriu embaraçada e acabou por dizer:
“Bom dia, Sr. Hitler... O senhor está... bem... no bunker, não é verdade?”
 “No bunker?”
O Sr. Kornflock pigarreou ruidosamente e declarou:
“Regozijo-me com a sua recuperação, meu Führer. O senhor esteve... doente.” Olhou-o examinador e acrescentou: “Lembra-se de alguma coisa?”
Depois de um momento de silêncio, o clone replicou:
“Doente?”
“Sim... mas já está bom. E nós estamos prontos para ouvir as suas ordens.”
“Ordens?”
O comandante ficou sem palavras. Preparava-me para intervir, quando se elevou o pio da Sra. Relot:
“O senhor é Adolf Hitler, o nosso Führer!”
A criatura fixou-a, a seguir soltou:
“Ai sou?”
Parecia não se lembrar de nada. Quase se podia apalpar a desilusão que os nazis emanavam. Eu sentia alívio. Pelos vistos, a Dra. Luninski e eu tínhamos criado um clone inofensivo. O que aliás podia acarretar más consequências, pois aqueles fanáticos haveriam de descarregar a sua frustração em cima de nós. Talvez conseguíssemos acalmá-los, dizendo-lhes que o seu amado Führer apenas precisava de ser novamente introduzido na ideologia nazi. Com isso, ganharíamos pelo menos algum tempo, enquanto não me surgisse uma nova ideia.
Infelizmente, alegrara-me cedo demais. E afinal eu, melhor do que ninguém, devia saber que a Sra. Relot, apesar de possuir um cérebro inútil, era persistente:
“O senhor precisa de nos dar as suas ordens, meu Führer? Como poderemos nós nazis de outra maneira dominar o mundo?”
O rosto do clone endureceu e ele repetiu:
“Nazis! Dominar o mundo!”
Saltou da cadeira.
Quem já viu os tais filmes antigos, sabe que o Hitler tinha uma maneira muito peculiar de fazer os seus discursos: gesticulava enérgico com o seu braço direito, em movimentos duros, fazendo o corpo balançar-se rígido, descontrolando a repa.
Desta vez, porém, não lhe saía um discurso fluido, limitava-se a lançar as suas palavras de ordem preferidas:
“Dominar o mundo... a nação alemã... os nossos soldados combatem numa guerra gloriosa... eliminar o inimigo!” Neste ponto, elevou o tom: “Eliminar o inimigo... todos os inimigos... a escumalha da humanidade!”
Os nazis explodiram em aplausos. A Dra. Luninski e eu olhámo-nos assustados. O clone prosseguiu:
“Campos de concentração para a escumalha da humanidade! A raça ariana vencerá!”
Reparei que o medo na face da Dra. Luninski se transformava em indignação e raiva.
“Os arianos, descendentes dos antigos germânicos, são uma raça superior!”
Os olhos da Dra. Luninski fulminavam-no furiosos. Eu só rezava para que ela se controlasse e mantivesse a boca fechada. O clone lançou:
“Por isso, ordeno que...”
Que, o quê? Neste preciso momento, a criatura interrompeu-se. Os nazis esperavam suspensos pela fórmula que lhes permitia dominar o mundo. Eu estava à beira do pânico.
A criatura não prosseguia, fixava o vazio. O que me encheu de esperança. Parecia mesmo que estava prestes a tornar a cair na cadeira, adormecendo.

3 de outubro de 2010

24º Episódio

No dia seguinte, apareceram os senhores Mao Tsé Tinho e José Cebolo, a fim de me ajudarem a vestir o Hitler, ainda adormecido.
“Quando é que ele acorda?” perguntou-me o português.
 “Espero que em breve. Já dorme há doze horas, o que corresponde à duração do efeito do calmante.”
Os dois sentaram-no numa cadeira de rodas, que guiaram até à Sala da Presidência. A Dra. Luninski e eu seguimo-los.
Lá chegados, a criatura ainda dormia, o que não diminuiu a reverência com que os presentes o miravam. Sobretudo o Sr. Obskur, que tinha preservado o carvãozinho anos a fio, como se de um tesouro se tratasse, parecia poder começar a levitar a qualquer momento, qual monge tibetano no seu êxtase. A Olga mantinha a sua expressão severa e a Sra. Relot, o segundo membro feminino entre os sete da Presidência, adquirira uma palidez ainda mais fria, o que lhe parecia aumentar de tamanho os óculos quadrados de aros grossos. Nos rostos do português, do chinês e do mexicano, os restantes três membros da Presidência, lia-se uma espécie de submissão emocionada e expectante, como um cachorrinho que pedincha uma guloseima. Só lhes faltava abanarem as caudas.
A cadeira de rodas foi colocada à cabeceira da mesa. O único a quem todas estas manobras deixavam indiferentes era o próprio clone, que continuava a dormir. A cabeça bambaleava-lhe por sobre o peito, a repa lisa dependurada.
Eu observava-o com a maior das atenções, cheguei a esquecer todos os outros à minha volta... quando estremeci de repente. Mas não só eu me assustei, a Dra. Luninski até deu um gritinho. Não foi, porém, a nossa criatura a causa do susto, mas sim um Heil Hitler perfeitamente sincronizado, expelido como um trovão pelos sete membros da Presidência, antes de se sentarem nos seus lugares.
No clone, contudo, de nada adiantou esta saudação, feita com as melhores das intenções. Continuava a dormir, até começou a ressonar.
Os minutos passavam-se e nada acontecia. A desilusão começou a apoderar-se dos sete nazis.
“E agora?” perguntou-me o Sr. Kornflock.
Limitei-me a abrir os braços num gesto de desolação. O comandante insistiu:
“Já passou o efeito do calmante?”
“Já.”
“Então, exijo que acorde o Führer!”
Dirigi um olhar interrogativo à Dra. Luninski. Teria ela alguma ideia? Ela apresentou realmente uma proposta:
“Não lhe podíamos dar a injecção que o acordou do coma?”
“Sim”, respondi pensativo, “embora não devêssemos abusar da substância. É tudo, menos inofensiva.”
“Vá buscá-la!” exigiu o Sr. Kornflock. E, com um murro na mesa, acrescentou: “Vamos, despache-se!”
Apesar daquela ordem severa, não me cheguei a mexer, pois o murro fizera o clone dar um salto na sua cadeira.
Nenhum de nós respirava. A criatura ergueu a cabeça e percorreu a mesa com o olhar. Depois, observou-me, que me encontrava de pé, à sua direita. Não faço ideia quanto tempo assim ficámos, ocupava-me com a pergunta, se eu, como responsável máximo por aquele projecto, deveria ser o primeiro a dirigir-lhe a palavra, ou se o Sr. Kornflock, como comandante da comunidade, se reservava tal direito.

2 de outubro de 2010

Intermezzo # 8

Faço aqui uma pequena homenagem ao ator Tony Curtis, falecido no último dia de Setembro, com 85 anos.

E agora perguntam-me vocês: eras assim tão grande fã dele, Kássia?

Não!
Mas ele fez parte do elenco de uma das melhores comédias jamais saídas da "fábrica" de Hollywood:



(imagem tirada daqui)

Inesquecível, o Jack Lemon e o Tony Curtis disfarçados de mulheres, a fim de escaparem a um bando de gangsters, acabando por aterrar na orquestra feminina, da qual Marilyn faz parte.

Inesquecível, Marilyn a cantar: "I wanna be loved by you / Just you / Nobody else but you".

Inesquecível, o Jack Lemon, vestido de mulher, a dançar tango com o milionário entradote que se apaixonou por ele/ela (será por causa disso que o cartaz original diz "not suitable for children"?).

E tantas outras cenas, o filme é um gozo do princípio ao fim. 

Por acaso, ao fazer esta pesquisa, dei-me conta que o Tony Curtis teve uma vida atribulada. Quem quiser ler um pequeno resumo (em inglês) clique aqui.

Os links dão igualmente acesso a vídeos e fotos do filme.